segunda-feira, dezembro 20, 2010

Pitaco de Loira; UM DIA ESPECIAL .











Acordara mais disposto do que o normal, para enfrentar a enésima quinta-feira de sua vida. Mas hoje seria o dia que já aguardava há tanto tempo que a sua ansiedade tornara incontável. Seria o dia da revelação. Da surpresa. E, do seu posto de trabalho, assoviava para uns e outros. Aos que ameaçavam lhe espichar o olho disparava: splish splash.

Planejara tudo com uma acuidade milimétrica. Algo de fazer inveja à turma de marketing da fábrica onde trabalhava. E como trabalhava. Era da turma que roia correntes no chão de fábrica. Um dos muitos anônimos das grandes empresas.

E assim a vida ia escoando. Madrugada com ou sem chuva. Pedala que pedala. Uma hora pra chegar ao portão da fábrica. Troca de roupa. E com muito apuro, porque tinha orgulho de trabalhar “nas esticas”.Sempre sonhara em ser notado e promovido para algum lugar próximo à turma do ar condicionado. O macacão estava sempre impecável, assim como seu trabalho, graças aos inúmeros cursos no SENAI.

“Ciça precisava vir um dia me ver trabalhar. Iria ficar orgulhosa. Ela só sabe do meu trabalho pelo que conto. Mas nada como botar o olho. Ia ficar muito orgulhosa. Ver o seu Tião manobrar este equipamento como se fosse a espada de um mosqueteiro. Não me veria como o 1616-DS, mas como o parceiro que se esforçava pra lhe dar boa vida. Coitada, boa vida...Mas ela tinha noção das coisas, do nosso papel, do nosso lugar na sociedade. Aliás, desde sempre, para Ciça a palavra sociedade lhe provoca algum alvoroço. Sociedade, diria ela, é essa coisa dos bacanas, que vão pra praia sempre que faz sol. Ciça invejava isto, será? Mas de onde eu vim, de onde ela veio...Como?”

__ Fiu fiu. E aí turma. Splish splash.

__ Tião tu vais gastar 200 pratas pra ver esse cara?

__ É coisa que não tem preço. Quando eu e Ciça nos conhecemos era o que tocava. O cara era demais e fazia a cabeça da turma. Nós namoramos ao som de splish splash.
 
Eu sei que não é pro meu bolso, mas não quero corromper meu sonho, minha vontade. Minha paga será o sorriso da Ciça quando hoje lhe contar que comprei os ingressos. Até pensei no seguinte: chego em casa, como sempre, mas vou passar no seu Arnoldo e levo um ramalhete de flores. Por aí você vai ver que já vou provocar um certo impacto. Depois, galantemente, me ajoelho, na hora de entregar as flores e digo algo como “digno da minha rainha”.Já sei que ela dirá algo como...iiiih nego, o que tá havendo?

Tião nunca fora um libertário, um panfletário, um cara que tivesse idéias geniais, que se diferenciasse da turma que freqüentava, seja no trabalho, no sindicato, ou no social. Era simplesmente mais um. O prazer que sentia com a sua realização era uma raríssima exceção no seio da monotonia previsível de sua pobre existência. E não pobre por ser operário. Mas pobre por ser mais uma rês na manada da vida. Era tangido, marcado, mas a seu modo era feliz. Uma resignação cultural talvez, uma marca no DNA, um roteiro sem opções. O destino para alguns talvez estivesse traçado assim. E, tudo isto delineado e amalgamado no inconsciente poderia significar o ser feliz.

Autoria: Rui Trancoso

Quer saber o final ? vai lendo o blog...vai lendo..que amanhã eu volto e conto mais..