24 de outubro de 2026

Entre a fé, as contradições e os invisíveis do sistema

A ponte que une o Cristianismo, a Justiça Social e as Controvérsias.

Observei outra coisa debaixo do sol numa rede social, parafraseando Eclesiastes, que me deixou confusa. Um perfil com a capa de Nossa Senhora, se dizendo católico fervoroso e curtindo como “Amei” (coração vermelho), numa alusão ao fim do Bolsa Família.Muito contraditório entre o ser e a atitude desse perfil para quem se declara publicamente, um devoto fervoroso.

Por isso que hoje penso como Voltaire: “acredito no Deus do Universo, mas não no Deus que os homens criaram”, ao me deparar com pessoas assim que confundem

O verdadeiro significado do cristianismo, disseminado pela Igreja Católica Apostólica Romana possui esta vertente: o do amor, da partilha, da divisão entre os irmãos, a fraternidade e a caridade. Difere da Teologia da Prosperidade, em que, no fim, se você deu certo, foi Deus quem o ajudou; se fracassou, não foi bom para Deus o suficiente. Nunca a responsabilidade é do sistema.

O lado humano e empático que trago comigo — e não estou falando da boca para fora, tenho muitos defeitos, claro, afinal sou humana — sempre levei muito a sério, principalmente as palavras de Jesus Cristo, segundo Mateus 25:45: "Em verdade vos digo que, quando a um destes pequeninos o não fizestes, não o fizestes a mim."

Pois, imaginava que Jesus podia vir em forma do sem-teto, do maltrapilho, do retirante, do imigrante e migrante, da cor de pele diferente da minha, daqueles que batem à minha porta, para vir me testar e comprovar se tinha um coração bom.

Certa vez li uma frase assim: Não há justiça onde não existe bondade, e não há bondade onde não existe justiça.

Que mérito tem uma pessoa em conquistar algo à custa do sofrimento alheio? Até o déspota do Napoleão Bonaparte, ao conseguir uma bolsa de estudos para ser militar, declarou: “De nada adianta a capacidade, sem oportunidades”.

Em nossa Constituição, a carta magna que rege os ditames do nosso país, veremos que isso está no Artigo 6º: São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição.

Portanto, é dever do Estado promover o bem-estar social. A democracia não é seletiva; se governa para todos. Aqueles que estão invisíveis para o sistema, cedo ou tarde, virão cobrar sua parte.

Uma pesquisa muito recente da Fundação Getulio Vargas (FGV) apontou que “os beneficiários do Bolsa Família responderam por mais de 85% do saldo líquido de empregos formais gerados no Brasil.

Dos 5,38 milhões de postos com carteira assinada criados, 4,58 milhões foram ocupados por pessoas que integram o programa, provando que o auxílio funciona exatamente como uma ponte de emancipação para o mercado de trabalho”.

Respeitem as pessoas que não tiveram a mesma oportunidade que nós e que o Estado não faz favor nenhum em ajudá-los.

O que mais impressiona é que muitos destas pessoas se indignam com uma mísera renda básica de até 700 reais, mas não questionam os bilhões de emendas que saem do Congresso, via deputados e senadores, elaboradas a partir de 2019 através de eufemismos como “orçamento secreto”, “emendas parlamentares” ou “Pix”, sem a obrigatoriedade de prestar contas a você.

Dinheiro dos seus impostos que está sendo encaminhado para outras finalidades, menos para investir na saúde, segurança pública ou educação, e os cidadãos forneceram uma procuração em branco através do voto dado nas urnas.

Dizem: “Ah, mas nos outros países não tem Bolsa Família”. Será que não?
No Reino Unido (incluindo a Inglaterra), há o Universal Credit para ajudar com custos de vida, alimentação, aluguel e imposto municipal (council tax).

O valor base para um adulto solteiro com menos de 25 anos é de exatamente £338,58 por mês, subindo para £424,90 se o beneficiário tiver 25 anos ou mais, variando conforme a renda, o tamanho da família e os gastos com moradia. Há também um auxílio pago para quem tem filhos menores de 20 anos que estejam estudando ou em treinamento, administrado pelo governo britânico para ajudar nos custos de criação de crianças, entre outros benefícios.

É possível que as pessoas não saibam disso e, por isso compram um discurso pronto e vazio. É importante pesquisar para não serem manipulados por algoritmos, mas por sua própria conclusão final.

Os Estados Unidos, por exemplo, atendem mais de 42 milhões de americanos por meio de um cartão de débito governamental, o SNAP (semelhante ao cartão do Bolsa Família), usado exclusivamente para a compra de alimentos em supermercados. Enquanto isso, o Brasil atende entre 18 a 19 milhões de pessoas, aproximadamente e não impõe onde gastar, seja com educação, alimentação, pagamentos de contas básicas, etc.

Sendo os Estados Unidos um país extremamente rico, poderoso e com o maior Produto Interno Bruto (PIB), milhares vivem na extrema pobreza.

Basta assistir ao canal no YouTube de Ricardo Molina, que vive lá e trabalha como corretor de imóveis. Como é uma pobreza “envernizada”, e as pessoas mesmo empregadas, não conseguem pagar o aluguel e vivem em trailers, dormem em motéis ou dentro do próprio carro. É uma pobreza que passa despercebida.

Segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), que cuida da segurança alimentar, os valores máximos mensais do benefício variam de acordo com as regiões e o custo de vida local, sendo consideravelmente maiores em territórios fora do continente como o Alasca e o Havaí. Tomando a tabela geral como base, o auxílio varia até US$ 306 para uma pessoa, duas (Até US$ 562), aumentando em até 3 ou 4, e até 5 pessoas (US$ 1.215). A partir de 8 pessoas: Até US$ 1.841 (com acréscimo de US$ 230 por pessoa extra).

Independentemente da orientação política — seja ela mais progressista, conservadora ou liberal —, o Brasil, os EUA e a Inglaterra destinam recursos aos mais necessitados, cada um por meio de seus próprios sistemas de assistência social.

Enquanto o homem comum caminha no asfalto quente da sobrevivência, colhendo as sobras da feira e moldando-se ao comportamento geral de baixar a cabeça e dizer obrigado, as estruturas do topo seguem intocáveis.

No fundo, a pressa em silenciar a dor do necessitado revela o medo de enxergar o óbvio: que a justiça social não é esmola, mas o próprio altar onde a dignidade humana deveria ser santificada, para os verdadeiros heróis e heróinas que contribuem diariamente com o seu suor para a engrenagem da economia girar.

O verdadeiro cristianismo não se veste de ouro, de emendas ocultas ou de curtidas vazias em redes sociais, nem algoritmos.

Ele se manifesta no pão partido, no olhar atento à invisibilidade do outro e na coragem de compreender que, debaixo do mesmo sol, a fome pela justiça social só será saciada quando a mesa for, finalmente, de todos os irmãos.🙏

Quando todos são um e o um é o todo, já dizia Led Zeppelin. E se Led Zeppelin falou tá falado. 

Escrever, opinar não para manipular, mas para que pessoas possam fazer suas escolhas conscientemente.

Pesquisa, Fontes e referências:
Dados de Inclusão no Emprego Formal: Estudo FGV/CEEE (2026).
Transparência Pública: Dados orçamentários da Câmara e do Senado Federal.
Parâmetros Internacionais: USDA (SNAP /EUA) e Gov.uk (Universal Credit / Reino Unido).
YouTube: Ricardo Molina.
Imagem: kar3nt via Pixabay.
Checagem by Python (IA) e Google.

18 de outubro de 2026

O Impacto Real de uma Bomba Nuclear no Brasil

O QUE ACONTECE DE VERDADE SE UMA BOMBA NUCLEAR CAIR AQUI?
A ciência e a física explicam por que flertar com o desastre atômico por pura impulsividade política é o maior erro que uma sociedade pode cometer.

“Uma pessoa estúpida é aquela que causa prejuízos a outra pessoa ou a um grupo de pessoas, enquanto não obtém nenhum ganho e até pode incorrer em perdas para si mesma.” Carlo Cipolla, historiador e economista italiano.
                               Imagem de Rosy / Bad Homburg / Germany por Pixabay
Ao me deparar com o vídeo de uma manifestação no Instagram vi quatro pessoas, em um misto de ignorância e subserviência, carregando um cartaz com a frase nebulosa: “Trump, jogue uma bomba no Brasil”.

Imediatamente, lembrei-me do clássico filme Dr. Fantástico, de Stanley Kubrick. Na obra, um grupo de estúpidos de grau máximo cogita detonar uma carga explosiva nuclear que levará ao fim do mundo por pura frivolidade. Ou seja, um completo tiro no próprio pé.

Como papagaios e totalmente desconectadas do juízo da realidade, as pessoas que levavam aquela faixa compraram uma narrativa absurda. Agem como se estivessem assistindo a um programa de Big Brother, a uma pegadinha de internet ou a um jogo de futebol. Tratam a geopolítica real como ficção. Só que não é. É gravíssimo.

Sair às ruas para pedir que uma potência estrangeira use armas nucleares contra o seu próprio país é algo desumano. Demonstra que o indivíduo não tem a menor noção da realidade física do que está pedindo, tampouco de suas consequências.

Uma explosão nuclear não é apenas uma "bomba grande". Ela é um desastre em etapas que destrói o presente e condena o futuro de absolutamente todos — independentemente de classe social, cor ou espectro político, seja você de direita, centro ou esquerda.

Se uma bomba dessas caísse em nosso país, o impacto seria imediato, devastador e impossível de reverter. De acordo com levantamentos científicos, a destruição aconteceria em três momentos implacáveis:

1. O IMPACTO IMEDIATO (Os primeiros segundos):
• Bola de fogo e calor extremo: No exato milésimo de segundo da explosão, surge uma bola de fogo mais quente que a superfície do Sol. Ela vaporiza instantaneamente tudo o que estiver no raio central e causa queimaduras de terceiro grau a muitos quilômetros de distância.

•Onda de choque: Uma parede invisível de altíssima pressão se espalha em velocidade supersônica. Ela derruba prédios de concreto, estilhaça vidros, esmaga carros e gera ventos muito mais fortes do que qualquer furacão registrado na história.

•Radiação ionizante: Uma carga invisível e mortal de energia gama é liberada instantaneamente. Ela atravessa paredes e destrói o DNA e as células do corpo humano, matando milhares de pessoas nos dias seguintes por falência generalizada dos órgãos.

2. O CAOS OCULTO (Minutos e horas depois):
•Pulso Eletromagnético (EMP): Uma onda de energia invisível queima na hora os circuitos eletrônicos. Toda a região afetada perde internet, celulares, rede elétrica, transformadores, carros modernos, equipamentos hospitalares e sistemas bancários. O país regride ao século XIX num piscar de olhos.

• Chuva radioativa (Fallout): A famosa nuvem em formato de cogumelo suga toneladas de poeira, terra e detritos contaminados para a atmosfera. O vento carrega essa poeira tóxica por centenas de quilômetros, envenenando silenciosamente a água, o solo e o ar de cidades vizinhas que sequer viram o clarão da explosão.

3. A HERANÇA MALDITA (Meses, anos e décadas depois)
•Fome e colapso do abastecimento: Com a terra e os mananciais de água contaminados pela radiação, a produção de alimentos para completamente. As plantações morrem e o gado adoece, gerando um cenário de fome em escala nacional.


•Doenças crônicas: Quem sobreviver aos primeiros meses enfrentará um aumento drástico de casos de câncer, leucemia e mutações genéticas que serão tragicamente passadas para filhos e netos.

•Inverno nuclear: Se o conflito se espalhar, a fumaça das cidades queimadas cobrirá o céu do planeta por anos. Sem a luz do Sol, a temperatura da Terra despenca, destruindo a agricultura global e colapsando a civilização.

Basta usar um mínimo de neurônios para entender uma dinâmica muito simples: em uma guerra nuclear, não existem vencedores.

Quem morre no primeiro segundo deixa de sofrer; quem sobrevive herda um território destruído, sem tecnologia, sem hospitais, faminto e envenenado por um inimigo invisível.

O ódio e a ignorância ideológica cega as pessoas para a realidade concreta. Valorizar a diplomacia, a soberania e a paz não é uma escolha partidária — é uma questão de sobrevivência e de puro bom senso.

14 de outubro de 2026

Um feito histórico em Nárnia: Led Zeppelin libera “Stairway to Heaven” para o novo filme

Um feito histórico acontece entre tantas coisas maledicentes e enche o coração dos Zeppelianos de extrema alegria. 

Imagem: Nárnia: O Sobrinho Do Mago.

A diretora de Nárnia: O Sobrinho Do Mago, Greta Gerwig, conseguiu a liberação da canção icônica de Led Zeppelin, “Stairway to Heaven”, diretamente de Jimmy Page e Robert Plant, para ecoar na trilha sonora do filme.

Como os músicos e compositores também são fãs do autor C. S. Lewis (criador da série As Crônicas de Nárnia), eles logo se identificaram com o enredo também. 

Aliás, como nós fãs já sabíamos — e eu, como fanzaça que sou, pude sentir toda essa energia de perto quando fui ver o Plant em 24 de maio no Parque Ibirapuera —, várias canções de Led Zeppelin já haviam sido inspiradas na obra literária de O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien, impulsionadas pelo vocalista Robert Plant que tem uma conexão com temas assim. 

Desde agora, fãs já estão roendo as unhas para assistir, e o trailer está dando o que falar na internet. 

Mas teremos que esperar até 11 de fevereiro de 2027 nos cinemas e no catálogo da Netflix em 2 de abril de 2027, para assistir. Haja coração para aguentar a espera.

Enquanto isso, sinta o gostinho de assistir ao trailer e à bela canção de Led Zeppelin ao fundo, e relembre os acordes do Page e a voz poderosa de Robert Plant, e o seu rugido. Imbatíveis. 

Afinal, como diz a letra dela: Sim, há dois caminhos que você pode seguir, mas na longa estrada, há sempre tempo de mudar o caminho que você segue... 

E o melhor caminho que indico é sem dúvida ouvir Led Zeppelin. 

13 de outubro de 2026

A Dosimetria da Vida: Entre a Culpa de Baran e o Cansaço de Todos Nós

Você já ouviu a palavra Dosimetria? Parece papo de tribunal, mas ela define desde a sentença de um juiz até o cansaço que você sente no final do dia.

Neste texto, há uma ponte que une o "juridiquês", o filme "Um Homem Abandonado" (Netflix) e a nossa rotina de cobranças.

Imagem: Netflix.
"Termos como “Dosimetria”, “Estado Democrático de Direito”, parecem restritos aos tribunais e ao Congresso. Entretanto, para quem está na rua — no mercado, no táxi ou no consultório —, esses conceitos soam distantes. "No entanto, eles afetam diretamente as nossas vidas. 

"Essa comunicação difícil lembra um meme clássico sobre Shakespeare conversando com sua mãe: — “Que seja dito a quem me deu à luz que no meu estômago prevalece um vazio!” — “Oh, por amor de Deus, Shakespeare! Basta dizer: mãe, tenho fome!”

Falar simples não significa “empobrecer” a linguagem formal ou os ritos jurídicos, mas trazer essas informações de entendimento fácil para que o povo no geral possa compreender como tudo funciona.

Afinal, só é possível almejar mudanças quando compreendemos as causas e os efeitos que, através dessas decisões, afetarão diretamente a sociedade.
"

É o caso da Dosimetria da Pena. Para entender na prática: sabe quando dois irmãos fazem a mesma bagunça, mas os pais dão um castigo leve para um e trancam o outro no quarto o dia todo?

A dosimetria deveria ser a régua para evitar isso; é o cálculo que o juiz faz para definir o tamanho de uma punição. Muitas vezes, essa dosimetria não está atrelada apenas a critérios técnicos, mas sofre influências do contexto social e político.

Na prática, a medida dessa régua não deve ser mais severa com o jovem da periferia do que com um jovem da elite. Ter uma clareza maior sobre isso é o que nos permite entender se a justiça, em determinados momentos, está sendo seletiva.

Essa dinâmica da punição e do impacto social se reflete perfeitamente no filme turco Um Homem Abandonado (Netflix), dramático e envolvente. Na trama, o protagonista Baran assume a culpa por um crime cometido pelo irmão, imposto pelo pai.

Ele cumpre uma “pena” por algo que não fez e, mesmo após sair da prisão, a sociedade e a própria família continuam aplicando “dosimetrias emocionais” e punições invisíveis sobre a sua vida. Olhando pela Psicologia Social, percebe-se que a sociedade atual perdeu a mão na “dose”.

"É o que mostra a obra Sociedade do Cansaço, de Byung-Chul Han: hoje, nós mesmos fazemos a nossa própria dosimetria. Calculamos e aplicamos doses em excessos de cobrança e desempenho, o que nos leva ao esgotamento físico e mental."

Acabamos exagerando na dose de isolamento — como o personagem Baran no início do filme, mas convenhamos motivos não faltaram mediante a injustiça sofrida— e na dose de produtividade exigida pelo mundo moderno, esquecendo da única “dose” capaz de curar: a de afeto.

5 de outubro de 2026

O Efeito Rosie e o Mundo Atual

Mais que um filme, o espelho de uma realidade invisível ao nosso redor.
Sabe aquele tipo de filme que termina, os créditos sobem, mas você continua encarando a tela em silêncio e com um nó na garganta?

Imagem de IMB - filme Rosie

Foi exatamente o que senti ao assistir a Rosie (2018), um drama irlandês impecável escrito por Roddy Doyle e dirigido por Paddy Breathnach, no mês passado. Muito tocante e atual.

Conta a história fictícia de Rosie Davis, mas embasada numa realidade crua, uma década atrás, sobre uma família de classe trabalhadora em Dublin que fica sem teto de uma hora para outra quando o proprietário resolve vender a casa.

Despejada de onde vive com o marido e quatro filhos — uma adolescente e três crianças —, Rosie vê-se forçada a adotar o carro como casa enquanto tenta desesperadamente encontrar um local onde passar a noite.

Sem a ajuda de família ou amigos, e com uma cidade lotada por causa do concerto de Lady Gaga, ela passa o dia ligando para dezenas de hotéis e abrigos. O filme funciona como uma crítica contundente à severa crise imobiliária que atinge o país.

Embora a história se passe na Europa, ela espelha uma crise dolorosa que hoje, em 2026, famílias inteiras enfrentam os mesmos dramas em países como os Estados Unidos e a Argentina.

Estados Unidos: O fenômeno dos trabalhadores sem-teto.

Nos EUA, a falta de habitações acessíveis e a compra de bairros inteiros por grandes fundos de investimento criaram uma nova e triste categoria social: os "trabalhadores sem-teto". São pessoas com empregos formais que batem cartão todos os dias, mas cujos salários não pagam um aluguel.

Essa realidade cruel é retratada frequentemente por criadores de conteúdo que vivem no país, como o empresário e corretor Ricardo Molina, que mostra em seus vídeos como essa crise atinge inclusive a comunidade de imigrantes brasileiros.

Dados oficiais de órgãos de moradia americanos confirmam o tamanho do problema: cerca de metade da população sem-teto dos EUA possui um emprego ativo (seja em tempo integral ou parcial).

A cena de Rosie — uma família morando no carro e usando banheiros de fast-food para se higienizar antes do trabalho — virou rotina nas periferias e grandes centros americanos.

O fenômeno é invisível para muitos porque os trabalhadores estacionam discretamente nos arredores ou vivem em trailers distantes.

Argentina: Desregulamentação e insegurança de moradia.

Na Argentina, o drama ganhou contornos ainda maiores. Em dezembro de 2023, o governo de Javier Milei revogou a antiga Lei de Aluguéis por meio do Decreto de Necessidade e Urgência (DNU 70/2023), permitindo total liberdade de negociação entre inquilino e proprietário.

Embora a medida tenha aumentado a oferta de imóveis desocupados, ela permitiu que os contratos fossem fechados em qualquer moeda (inclusive dólares) e com reajustes livres.

Com uma inflação alta e salários desvalorizados em pesos, arcar com reajustes frequentes ficou insustentável.

 Para conter as despesas básicas, muitas famílias recorreram ao endividamento.

Quando as dívidas se tornam impagáveis, o risco de despejo dispara, empurrando a classe média para abrigos superlotados.

Além disso, a paralisação de projetos de habitação social e a falta de crédito hipotecário acessível tornaram o sonho da casa própria impossível para as novas gerações.

O reflexo no passado do Brasil: Essa realidade nos faz olhar para trás e lembrar que o Brasil viveu reviravoltas econômicas parecidas, especialmente com os impactos inflacionários e habitacionais entre as décadas de 1990 e 2000. 

Nossa sociedade enfrentou o confisco do Plano Collor, as armadilhas cambiais e os juros recordes do governo FHC. O sufoco do Plano Collor (1990): O confisco temporário de contas correntes e poupanças sumiu com a liquidez do mercado. 

Para se defender do risco de calote, a indústria multinacional encurtou o prazo máximo de faturamento para 28 dias para os distribuidores.

Isso sufocou os franqueados, que precisavam vender parcelado para o consumidor final, mas tinham que pagar os fornecedores com a cota em dólar e o capital de giro travado pelo governo.

A armadilha do dólar no Plano Real (1999): Durante os primeiros anos do plano, o governo manteve a moeda pareada ao dólar (R$ 1,00 para US$ 1,00).

Confiantes nessa estabilidade, muitas pessoas adquiriram leasings de computadores, consórcios e financiamentos imobiliários atrelados à moeda americana. 
"Após o esgotamento de grande parte das reservas cambiais, o governo brasileiro abandonou a âncora fixa e adotou o regime de câmbio flutuante, permitindo que o valor do real passasse a ser determinado livremente pelo mercado".

O dólar disparou e as prestações explodiram da noite para o dia. A partir da consolidação do Plano Real na década de 1990, o cenário imobiliário também virou uma armadilha para quem já havia financiado.

Enquanto as parcelas subiam, o saldo devedor geral era reajustado pela Taxa Referencial (TR), que acompanhava os juros altos da época — chegando ao pico histórico da Selic de 45% ao ano em março de 1999. Desse modo, a dívida total crescia muito mais rápido do que a capacidade do comprador de pagar.

Para não perder o bem ou receber uma ordem de despejo, os cidadãos recorriam à Justiça para suspender as cobranças até uma decisão final. 

No entanto, quando os bancos chamavam para acordos, as contrapropostas de refinanciamento vinham com resíduos astronômicos ou impagáveis, fazendo com que milhares de pessoas vissem seus imóveis irem a leilão por verdadeiras bagatelas.

Informações Adicionais:
Economia de Direita (Liberalismo Econômico): Na Irlanda, o governo priorizou a responsabilidade fiscal, incentivos a empresas privadas, atração de multinacionais (através de impostos baixos) e livre mercado.

Críticos apontam que o foco excessivo em deixar o mercado imobiliário privado resolver a demanda de moradias — em vez de investir em habitação pública massiva — foi uma das raízes que aprofundou a crise retratada no filme Rosie.

Rosie deixou de ser apenas um filme de alerta para se transformar no retrato fiel e cotidiano de um país que enriqueceu economicamente, mas falhou em abrigar a sua própria população.

Segundo o site Edublin, em 2018, o país já estava chocado com os níveis de pessoas dependendo de alojamentos do governo.

Em 2026, as estatísticas oficiais do Department of Housing registraram mais de 17.500 pessoas em situação de emergência habitacional, incluindo mais de 5.500 crianças.

Este é o maior número já registrado na história do país. Além disso, esses dados não englobam os chamados "sem-teto invisíveis" (as pessoas que dormem em carros ou de favor no sofá de amigos). O governo tem tentado acelerar a entrega de casas.

O país alcançou recordes recentes entregando mais de 36 mil moradias em um ano, mas não é o suficiente.

Enquanto em 2018 a crise parecia um problema temporário ou um pico de mercado, hoje ela é estrutural. O governo implementou novos tetos de reajuste de aluguel e regras rígidas para conter os despejos (como as atualizações aplicadas pelo Residential Tenancies Board - RTB), mas na prática, pequenos proprietários continuam vendendo seus imóveis para sair do mercado de locação, reduzindo ainda mais a quantidade de casas disponíveis para alugar.

O filme traz de volta um passado que muitos esqueceram e revela o abismo entre as leis do mercado imobiliário e a ética social.

Embora os leilões judiciais e as execuções de dívidas sejam legalizados, eles operam com frieza sobre tragédias provocadas por crises macroeconômicas que fogem do controle do cidadão.

Lucrar com a perda de um teto familiar confronta os limites da ética e a própria Constituição Brasileira, que garante o direito à moradia no seu Artigo 6º.

A grande lição que a personagem Rosie deixa é perceber quão fina se tornou a linha que separa uma vida confortável da calçada. A moradia deixou de ser um direito básico e virou artigo de luxo.

Basta um imprevisto, uma demissão ou uma mudança brusca nas regras do mercado ou normas de governo que podem mudar tudo.

Mais do que falar sobre economia ou inflação, precisamos falar de humanidade, que mostra esse filme. De crianças tentando fazer a lição de casa no banco de trás de um automóvel, de mães ligando desesperadamente para abrigos antes do anoitecer e de pais aflitos ao deixá-los dentro de um carro, numa rua qualquer, vigiando-os, enquanto eles dormem.

Olhando para esse passado é preocupante, só quem sente na pele a insegurança habitacional é capaz de ver vo quão é frustrante, pois é dever constitucional do Estado brasileiro fornecer mecanismos para a moradia, e não só privilegiar apenas a minoria ou o Estado mínimo e liberal.

A crise de moradia não é apenas um problema de números; é uma crise de dignidade humana. E olhar para isso com o coração aberto é o primeiro passo para revisar nossos valores e perguntar quando, onde e como perdemos o dom de nossa humanidade.

“Quando você olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.” Friedrich Nietzsche - Além do Bem e do Mal.