Sabe aquele tipo de filmeque termina, os créditos sobem, mas você continua encarando a tela em silêncio e com um nó na garganta?
![]() |
| Imagem de IMB - filme Rosie |
Conta a história fictícia de Rosie Davis, mas embasada numa realidade crua, uma década atrás, sobre uma família de classe trabalhadora em Dublin que fica sem teto de uma hora para outra quando o proprietário resolve vender a casa.
Despejada de onde vive com o marido e quatro filhos — uma adolescente e três crianças —, Rosie vê-se forçada a adotar o carro como casa enquanto tenta desesperadamente encontrar um local onde passar a noite.
Sem a ajuda de família ou amigos, e com uma cidade lotada por causa do concerto de Lady Gaga, ela passa o dia ligando para dezenas de hotéis e abrigos. O filme funciona como uma crítica contundente à severa crise imobiliária que atinge o país.
Embora a história se passe na Irlanda, ela espelha uma crise dolorosa que hoje, em 2026, famílias inteiras enfrentam em países como os Estados Unidos e a Argentina.
Estados Unidos: O fenômeno dos trabalhadores sem-teto.
Nos EUA, a falta de habitações acessíveis e a compra de bairros inteiros por grandes fundos de investimento criaram uma nova e triste categoria social: os "trabalhadores sem-teto". São pessoas com empregos formais que batem cartão todos os dias, mas cujos salários não pagam um aluguel.
Essa realidade cruel é retratada frequentemente por criadores de conteúdo que vivem no país, como o empresário e corretor Ricardo Molina, que mostra em seus vídeos como essa crise atinge inclusive a comunidade de imigrantes brasileiros.
Dados oficiais de órgãos de moradia americanos confirmam o tamanho do problema: cerca de metade da população sem-teto dos EUA possui um emprego ativo (seja em tempo integral ou parcial).
A cena de Rosie — uma família morando no carro e usando banheiros de fast-food para se higienizar antes do trabalho — virou rotina nas periferias e grandes centros americanos.
O fenômeno é invisível para muitos porque os trabalhadores estacionam discretamente nos arredores ou vivem em trailers distantes.
Argentina: Desregulamentação e insegurança de moradia.
Na Argentina, o drama ganhou contornos ainda maiores. Em dezembro de 2023, o governo de Javier Milei revogou a antiga Lei de Aluguéis por meio do Decreto de Necessidade e Urgência (DNU 70/2023), permitindo total liberdade de negociação entre inquilino e proprietário.
Embora a medida tenha aumentado a oferta de imóveis desocupados, ela permitiu que os contratos fossem fechados em qualquer moeda (inclusive dólares) e com reajustes livres.
Com uma inflação alta e salários desvalorizados em pesos, arcar com reajustes frequentes ficou insustentável. Para conter as despesas básicas, muitas famílias recorreram ao endividamento.
Quando as dívidas se tornam impagáveis, o risco de despejo dispara, empurrando a classe média para abrigos superlotados.
Além disso, a paralisação de projetos de habitação social e a falta de crédito hipotecário acessível tornaram o sonho da casa própria impossível para as novas gerações.
O reflexo no passado do Brasil
Essa realidade nos faz olhar para trás e lembrar que o Brasil viveu reviravoltas econômicas parecidas, especialmente com os impactos inflacionários e habitacionais entre as décadas de 1990 e 2000. Nossa sociedade enfrentou o confisco do Plano Collor, as armadilhas cambiais e os juros recordes do governo FHC.
O sufoco do Plano Collor (1990): O confisco temporário de contas correntes e poupanças sumiu com a liquidez do mercado. Para se defender do risco de calote, a indústria multinacional encurtou o prazo máximo de faturamento para 28 dias para os distribuidores.
Isso sufocou os franqueados, que precisavam vender parcelado para o consumidor final, mas tinham que pagar os fornecedores com a cota em dólar e o capital de giro travado pelo governo.
A armadilha do dólar no Plano Real (1999): Durante os primeiros anos do plano, o governo manteve a moeda pareada ao dólar (R$ 1,00 para US$ 1,00).
Confiantes nessa estabilidade, muitas pessoas adquiriram leasings de computadores, consórcios e financiamentos imobiliários atrelados à moeda americana.
"Após o esgotamento de grande parte das reservas cambiais, o governo brasileiro abandonou a âncora fixa e adotou o regime de câmbio flutuante, permitindo que o valor do real passasse a ser determinado livremente pelo mercado".
O dólar disparou e as prestações explodiram da noite para o dia.
A partir da consolidação do Plano Real na década de 1990, o cenário imobiliário também virou uma armadilha para quem já havia financiado.
Enquanto as parcelas subiam, o saldo devedor geral era reajustado pela Taxa Referencial (TR), que acompanhava os juros altos da época — chegando ao pico histórico da Selic de 45% ao ano em março de 1999. Desse modo, a dívida total crescia muito mais rápido do que a capacidade do comprador de pagar.
Para não perder o bem ou receber uma ordem de despejo, os cidadãos recorriam à Justiça para suspender as cobranças até uma decisão final. No entanto, quando os bancos chamavam para acordos, as contrapropostas de refinanciamento vinham com resíduos astronômicos ou impagáveis, fazendo com que milhares de pessoas vissem seus imóveis irem a leilão por verdadeiras bagatelas.
Informações Adicionais:
Economia de Direita (Liberalismo Econômico): Na Irlanda, o governo de Leo Varadkar priorizou a responsabilidade fiscal, incentivos a empresas privadas, atração de multinacionais (através de impostos baixos) e livre mercado.
Críticos apontam que o foco excessivo em deixar o mercado imobiliário privado resolver a demanda de moradias — em vez de investir em habitação pública massiva — foi uma das raízes que aprofundou a crise retratada no filme Rosie.
Rosie deixou de ser apenas um filme de alerta para se transformar no retrato fiel e cotidiano de uma Irlanda que enriqueceu economicamente, mas falhou em abrigar a sua própria população.
Segundo o site Edublin, em 2018, o país já estava chocado com os níveis de pessoas dependendo de alojamentos do governo.
Em 2026, as estatísticas oficiais do Department of Housing registraram mais de 17.500 pessoas em situação de emergência habitacional, incluindo mais de 5.500 crianças.
Este é o maior número já registrado na história do país. Além disso, esses dados não englobam os chamados "sem-teto invisíveis" (as pessoas que dormem em carros ou de favor no sofá de amigos). O governo tem tentado acelerar a entrega de casas.
O país alcançou recordes recentes entregando mais de 36 mil moradias em um ano, mas não é o suficiente.
Enquanto em 2018 a crise parecia um problema temporário ou um pico de mercado, hoje ela é estrutural. O governo implementou novos tetos de reajuste de aluguel e regras rígidas para conter os despejos (como as atualizações aplicadas pelo Residential Tenancies Board - RTB), mas na prática, pequenos proprietários continuam vendendo seus imóveis para sair do mercado de locação, reduzindo ainda mais a quantidade de casas disponíveis para alugar.
Uma crise de dignidade humana
O filme traz de volta um passado que muitos esqueceram e revela o abismo entre as leis do mercado imobiliário e a ética social.
Embora os leilões judiciais e as execuções de dívidas sejam legalizados, eles operam com frieza sobre tragédias provocadas por crises macroeconômicas que fogem do controle do cidadão.
Lucrar com a perda de um teto familiar confronta os limites da ética e a própria Constituição Brasileira, que garante o direito à moradia no seu Artigo 6º.
A grande lição que a personagem Rosie deixa é perceber quão fina se tornou a linha que separa uma vida confortável da calçada.A moradia deixou de ser um direito básico e virou artigo de luxo.
Basta um imprevisto, uma demissão ou uma mudança brusca nas regras do mercado ou normas de governo que podem mudar tudo.
Mais do que falar sobre economia ou inflação, precisamos falar de humanidade, que mostra esse filme. De crianças tentando fazer a lição de casa no banco de trás de um automóvel, de mães ligando desesperadamente para abrigos antes do anoitecer e de pais aflitos ao deixá-los dentro de um carro, numa rua qualquer, vigiando-os, enquanto eles dormem.
Olhando para esse cenário, é preocupante. É provavelmente por isso que os brasileiros na Irlanda foram às urnas e votaram (72,60%), segundo o site Exame, para a continuidade do governo Lula. Eles sentem na pele a insegurança habitacional. É dever constitucional do Estado brasileiro fornecer mecanismos para a moradia, e não só privilegiar apenas a minoria ou Estado mínimo e liberal.
A crise de moradia não é apenas um problema de números; é uma crise de dignidade humana. E olhar para isso com o coração aberto é o primeiro passo para revisar nossos valores e perguntar quando, onde e como perdemos o dom de nossa humanidade.
“Quando você olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.” Friedrich Nietzsche - Além do Bem e do Mal.




