05 outubro, 2026

O Efeito Rosie e o Mundo Atual

Mais que um filme, o espelho de uma realidade invisível ao nosso redor
Sabe aquele tipo de filmeque termina, os créditos sobem, mas você continua encarando a tela em silêncio e com um nó na garganta?

Imagem de IMB - filme Rosie

Foi exatamente o que senti ao assistir a Rosie (2018), um drama irlandês impecável escrito por Roddy Doyle e dirigido por Paddy Breathnach, no mês passado. Muito tocante e atual.

Conta a história fictícia de Rosie Davis, mas embasada numa realidade crua, uma década atrás, sobre uma família de classe trabalhadora em Dublin que fica sem teto de uma hora para outra quando o proprietário resolve vender a casa.

Despejada de onde vive com o marido e quatro filhos — uma adolescente e três crianças —, Rosie vê-se forçada a adotar o carro como casa enquanto tenta desesperadamente encontrar um local onde passar a noite.

Sem a ajuda de família ou amigos, e com uma cidade lotada por causa do concerto de Lady Gaga, ela passa o dia ligando para dezenas de hotéis e abrigos. O filme funciona como uma crítica contundente à severa crise imobiliária que atinge o país.

Embora a história se passe na Irlanda, ela espelha uma crise dolorosa que hoje, em 2026, famílias inteiras enfrentam em países como os Estados Unidos e a Argentina.

Estados Unidos: O fenômeno dos trabalhadores sem-teto.

Nos EUA, a falta de habitações acessíveis e a compra de bairros inteiros por grandes fundos de investimento criaram uma nova e triste categoria social: os "trabalhadores sem-teto". São pessoas com empregos formais que batem cartão todos os dias, mas cujos salários não pagam um aluguel.

Essa realidade cruel é retratada frequentemente por criadores de conteúdo que vivem no país, como o empresário e corretor Ricardo Molina, que mostra em seus vídeos como essa crise atinge inclusive a comunidade de imigrantes brasileiros.

Dados oficiais de órgãos de moradia americanos confirmam o tamanho do problema: cerca de metade da população sem-teto dos EUA possui um emprego ativo (seja em tempo integral ou parcial).

A cena de Rosie — uma família morando no carro e usando banheiros de fast-food para se higienizar antes do trabalho — virou rotina nas periferias e grandes centros americanos.

O fenômeno é invisível para muitos porque os trabalhadores estacionam discretamente nos arredores ou vivem em trailers distantes.

Argentina: Desregulamentação e insegurança de moradia.

Na Argentina, o drama ganhou contornos ainda maiores. Em dezembro de 2023, o governo de Javier Milei revogou a antiga Lei de Aluguéis por meio do Decreto de Necessidade e Urgência (DNU 70/2023), permitindo total liberdade de negociação entre inquilino e proprietário.

Embora a medida tenha aumentado a oferta de imóveis desocupados, ela permitiu que os contratos fossem fechados em qualquer moeda (inclusive dólares) e com reajustes livres.

Com uma inflação alta e salários desvalorizados em pesos, arcar com reajustes frequentes ficou insustentável. Para conter as despesas básicas, muitas famílias recorreram ao endividamento.

Quando as dívidas se tornam impagáveis, o risco de despejo dispara, empurrando a classe média para abrigos superlotados.

Além disso, a paralisação de projetos de habitação social e a falta de crédito hipotecário acessível tornaram o sonho da casa própria impossível para as novas gerações.

O reflexo no passado do Brasil

Essa realidade nos faz olhar para trás e lembrar que o Brasil viveu reviravoltas econômicas parecidas, especialmente com os impactos inflacionários e habitacionais entre as décadas de 1990 e 2000. Nossa sociedade enfrentou o confisco do Plano Collor, as armadilhas cambiais e os juros recordes do governo FHC.

O sufoco do Plano Collor (1990): O confisco temporário de contas correntes e poupanças sumiu com a liquidez do mercado. Para se defender do risco de calote, a indústria multinacional encurtou o prazo máximo de faturamento para 28 dias para os distribuidores.

Isso sufocou os franqueados, que precisavam vender parcelado para o consumidor final, mas tinham que pagar os fornecedores com a cota em dólar e o capital de giro travado pelo governo.

A armadilha do dólar no Plano Real (1999): Durante os primeiros anos do plano, o governo manteve a moeda pareada ao dólar (R$ 1,00 para US$ 1,00).

Confiantes nessa estabilidade, muitas pessoas adquiriram leasings de computadores, consórcios e financiamentos imobiliários atrelados à moeda americana.

"Após o esgotamento de grande parte das reservas cambiais, o governo brasileiro abandonou a âncora fixa e adotou o regime de câmbio flutuante, permitindo que o valor do real passasse a ser determinado livremente pelo mercado".

O dólar disparou e as prestações explodiram da noite para o dia.

A partir da consolidação do Plano Real na década de 1990, o cenário imobiliário também virou uma armadilha para quem já havia financiado.

Enquanto as parcelas subiam, o saldo devedor geral era reajustado pela Taxa Referencial (TR), que acompanhava os juros altos da época — chegando ao pico histórico da Selic de 45% ao ano em março de 1999. Desse modo, a dívida total crescia muito mais rápido do que a capacidade do comprador de pagar.

Para não perder o bem ou receber uma ordem de despejo, os cidadãos recorriam à Justiça para suspender as cobranças até uma decisão final. No entanto, quando os bancos chamavam para acordos, as contrapropostas de refinanciamento vinham com resíduos astronômicos ou impagáveis, fazendo com que milhares de pessoas vissem seus imóveis irem a leilão por verdadeiras bagatelas.

Informações Adicionais:

Economia de Direita (Liberalismo Econômico): Na Irlanda, o governo de Leo Varadkar priorizou a responsabilidade fiscal, incentivos a empresas privadas, atração de multinacionais (através de impostos baixos) e livre mercado.

Críticos apontam que o foco excessivo em deixar o mercado imobiliário privado resolver a demanda de moradias — em vez de investir em habitação pública massiva — foi uma das raízes que aprofundou a crise retratada no filme Rosie.

Rosie deixou de ser apenas um filme de alerta para se transformar no retrato fiel e cotidiano de uma Irlanda que enriqueceu economicamente, mas falhou em abrigar a sua própria população.

Segundo o site Edublin, em 2018, o país já estava chocado com os níveis de pessoas dependendo de alojamentos do governo.

Em 2026, as estatísticas oficiais do Department of Housing registraram mais de 17.500 pessoas em situação de emergência habitacional, incluindo mais de 5.500 crianças.

Este é o maior número já registrado na história do país. Além disso, esses dados não englobam os chamados "sem-teto invisíveis" (as pessoas que dormem em carros ou de favor no sofá de amigos). O governo tem tentado acelerar a entrega de casas.

O país alcançou recordes recentes entregando mais de 36 mil moradias em um ano, mas não é o suficiente.

Enquanto em 2018 a crise parecia um problema temporário ou um pico de mercado, hoje ela é estrutural. O governo implementou novos tetos de reajuste de aluguel e regras rígidas para conter os despejos (como as atualizações aplicadas pelo Residential Tenancies Board - RTB), mas na prática, pequenos proprietários continuam vendendo seus imóveis para sair do mercado de locação, reduzindo ainda mais a quantidade de casas disponíveis para alugar.

Uma crise de dignidade humana
O filme traz de volta um passado que muitos esqueceram e revela o abismo entre as leis do mercado imobiliário e a ética social.

Embora os leilões judiciais e as execuções de dívidas sejam legalizados, eles operam com frieza sobre tragédias provocadas por crises macroeconômicas que fogem do controle do cidadão.

Lucrar com a perda de um teto familiar confronta os limites da ética e a própria Constituição Brasileira, que garante o direito à moradia no seu Artigo 6º.

A grande lição que a personagem Rosie deixa é perceber quão fina se tornou a linha que separa uma vida confortável da calçada.A moradia deixou de ser um direito básico e virou artigo de luxo.

Basta um imprevisto, uma demissão ou uma mudança brusca nas regras do mercado ou normas de governo que podem mudar tudo.

Mais do que falar sobre economia ou inflação, precisamos falar de humanidade, que mostra esse filme. De crianças tentando fazer a lição de casa no banco de trás de um automóvel, de mães ligando desesperadamente para abrigos antes do anoitecer e de pais aflitos ao deixá-los dentro de um carro, numa rua qualquer, vigiando-os, enquanto eles dormem.

Olhando para esse cenário, é preocupante. É provavelmente por isso que os brasileiros na Irlanda foram às urnas e votaram (72,60%), segundo o site Exame, para a continuidade do governo Lula. Eles sentem na pele a insegurança habitacional. É dever constitucional do Estado brasileiro fornecer mecanismos para a moradia, e não só privilegiar apenas a minoria ou Estado mínimo e liberal.

A crise de moradia não é apenas um problema de números; é uma crise de dignidade humana. E olhar para isso com o coração aberto é o primeiro passo para revisar nossos valores e perguntar quando, onde e como perdemos o dom de nossa humanidade.

“Quando você olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.” Friedrich Nietzsche - Além do Bem e do Mal.

21 setembro, 2026

Sociedade do Cansaço

Um pitaco em forma de reflexão sobre a obra 'Sociedade do Cansaço' de Byung-Chul Han, e a teoria da autoexploração com a realidade dos trabalhadores autônomos e as falsas ilusões do empreendedorismo moderno.

Completamente “absurdada” com a teoria do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, "Sociedade do Cansaço", após assistir a uma análise do psicólogo Fernando Rainho e ler um artigo no portal Razão Inadequada, no início deste ano.

Mediante a curiosidade e deste saber, fui atrás do livro, mas só achei resumido na internet; então, resolvi pedir como presente de aniversário. E assim pude completar o meu raciocínio pautado na visão sociológica e no comportamento da sociedade atual.

A obra discorre sobre uma sociedade obstinada pelo desempenho, que se distancia cada vez mais do modelo passado, impreterivelmente.

Hoje, os detentores da mão de obra transformaram-se em empreendedores, “patrão de si mesmo”, como muitos se autointitulam em suas bios em redes sociais ou em cartões.

A controvérsia é que, por trás dessa liberdade que eles enxergam e que o mercado vende como modelo ideal de trabalho, há uma sutil armadilha, disfarçada de autoexploração.

Diante desta subjetividade, o Estado se isenta do dever constitucional de promover o bem-estar social e nos faz crer que somos os únicos responsáveis por nossas vitórias e, consequentemente, por nossos fracassos.

Foi assim que a Dama de Ferro convenceu seus cidadãos de que “não existe sociedade, apenas indivíduos” — ou seja, corremos por conta.

Essa dinâmica se materializa perfeitamente na realidade atual de trabalhadores autônomos, como entregadores de aplicativos, pintores e pedreiros, que pude constatar e observar empiricamente.

Seduzidos pelo discurso de que são "patrões de si mesmos" e donos do próprio tempo, eles enfrentam jornadas exaustivas de 10, 12 ou até 14 horas diárias.

O que é vendido como autonomia esconde uma vulnerabilidade extrema: trabalham no limite das forças e sem nenhuma garantia ou direito básico.

Muito destas profissões sem Equipamentos de Segurança Individual (EPI), se arriscando por conta própria à riscos iminentes.

A ilusão do empreendedorismo se converte, assim, em uma máquina invisível de exaustão.

Segundo Chul Han, esse excesso de positividade, produtividade e cobrança cria uma nova forma de sofrimento psíquico, resultando em doenças modernas como o burnout, a depressão e os transtornos de ansiedade e estresse.

O indivíduo se isola em uma busca frenética por novas metas, competindo constantemente com os outros e tornando-se escravo de si mesmo.

Vivemos, portanto, sem intervalos reais para descanso, sem férias mentais e sem fins de semana para gastar o tempo com a família, lazer, cultura e ociosidade.

A todo momento, o mercado e os privilegiados estimulam essa competitividade, vendendo uma falsa ideia de liberdade, sucesso e felicidade sob o mantra do “Nós podemos”.

O resultado é a busca pelo reconhecimento social e produtivo, atingida em detrimento da saúde mental e física, provocando o distanciamento familiar e afetivo. Justamente vindo de uma sociedade que prega tanto a família.

Quantas vezes o ronco dos motores de motocicletas ou bicicletas motorizadas surge logo na madrugada ou ao amanhecer, de pessoas saindo de casa bem cedo para ir a um centro de distribuição pegar as encomendas?

Ou motoristas de aplicativos estacionados em frente às ruas, estrategicamente à espera de um chamamento?

Sob um calor excessivo ou forte chuva, parados por mais de 20 minutos, meia hora ou muito mais, até que os chamem?

Imagine o forte estresse ou a ansiedade da pessoa dentro daquele carro fechado esperando a oportunidade da corrida? As pessoas precisam de estabilidade e segurança financeira.

Qualquer pessoa, por mais leiga que seja, entende de contabilidade básica antes de se aventurar a gastar sem saber o que terá no final do mês.

Como alguém pode financiar algo, fazer um empréstimo, pagar o aluguel ou dar um presente ao seu filho sem saber o quanto irá ganhar no dia seguinte?

Diante disso, é impossível não questionar: teria Thomas More, em sua obra "Utopia", previsto o nosso futuro?

Há séculos, ele já indagava: “É justo que um nobre, um ourives, um usurário, um homem que não produz senão objetos de luxos, inúteis ao Estado, que levem uma vida caprichosa e esplêndida por entre a ociosidade e ocupações frívolas, enquanto um trabalhador, um carreteiro, um artesão, um lavrador vivam na mais reles miséria, mal podendo alimentar-se? Mas qual é o destino do Operário? Um trabalho infrutífero, estéril, a esmagá-lo agora, e a expectativa de uma velhice miserável no futuro...”

Passados os séculos, a dinâmica social e elitista permanece igual.Quando o trabalhador de hoje deixar de ser produtivo — quando estiver velho, cansado e sem uma aposentadoria que lhe garanta o básico —, aqueles que o incentivaram a ser "dono de si mesmo" e a abraçar o empreendedorismo disfarçado de “canto de sereia” não se lembrarão de suas mazelas.

O sistema fará acreditar que ele não se esforçou o suficiente. Ignorará o quanto ele deixou de desfrutar de sua vida pessoal, de seus filhos e de sua família em busca dessas narrativas capciosas. Tampouco se lembrará do quanto ele se empenhou até a exaustão apenas para ocupar um lugar ao sol.

Ao atingirmos o topo da produtividade à custa da nossa própria humanidade, embasada napromessa vazia da meritocracia atual, que tem nos cobrado um preço alto demais.

Afinal, como bem sabia Napoleão Bonaparte: “Sem oportunidades, de nada adianta o talento”. E sem dignidade ou saúde, o futuro é apenas uma utopia distante.

Reflita!

Imagem: Magnific

12 setembro, 2026

“De volta aos anos 80” e a subjetividade por trás do engajamento

A cor dos anos 80: entre a nostalgia e o filtro da tela. Uma reflexão sobre como a inteligência artificial recria o passado enquanto captura o nosso presente.

Imagem de oki andri sandjaya por Pixabay

Há um movimento na internet no qual as pessoas estão utilizando um programa de inteligência artificial para fotografar seus rostos como eles eram nos anos 80.

Comecei a pesquisar para analisar o que se esconde por trás dessa brincadeira aparentemente inocente.

Além do risco de “roubo” de dados, o que devemos refletir é sobre a subjetividade por trás deste gesto puro, por haver indícios de que seria uma coleta massiva de dados biométricos e perda de controle sobre a própria imagem.

Sem contar que, nos anos 80, vivíamos em uma ditadura que perdurou até 1985, e esta “saudosa época dourada, estilosa, simples e divertida” esconde um período de transição democrática difícil, marcado por autoritarismo e crise.

Ao contrário do que parece, segundo informações apuradas, esse gesto simples de utilizar um aplicativo de Inteligência Artificial (IA) para “viajar no tempo” não é neutro. Ele carrega camadas de vigilância tecnológica e de manipulação ideológica da memória coletiva.

Pesquisando em outros sites, deparei-me com as seguintes explicações sobre esses aplicativos e filtros; e eles não são simples interações, mas existe uma dinâmica por trás disso tudo:

* Para criar uma imagem realista, esse tipo de programa escaneia os pontos estruturais do seu rosto. Você está entregando sua identidade biométrica mais pura.

* Suas fotos alimentam e treinam bancos de dados de IA corporativas sem que você saiba ou receba pela exposição delas.

* Ao aceitar os termos (que quase ninguém lê), você geralmente concede à empresa o direito de armazenar, modificar e utilizar sua imagem para fins comerciais em qualquer lugar do mundo.

Além disso, há uma subjetividade política intrinsecamente ligada à romantização dos anos 80, em que se vende a estética de luzes de neon, músicas sintéticas, roupas coloridas e diversão inocente (fortemente influenciada pela cultura pop norte-americana), como “anos dourados”.

Entretanto, para o nosso contexto latino-americano, seria um apagamento do passado em que a nostalgia dos “velhos e bons tempos” elimina a história, substituindo a memória da censura, a hiperinflação, o privilégio para poucos, crises econômicas por um filtro colorido de computador.

Esse gesto individual de se ver “lindas, lindos e jovens nos anos 80” mexe sutilmente com a nossa vaidade ao transformar uma década de intensas lutas políticas num mero produto de consumo visual, impregnado de saudosismo.

Lembre-se: “caldo de galinha e cautela não fazem mal a ninguém”, segundo o dito popular.

06 setembro, 2026

Muito além do rock: Roger Waters ainda é a voz que precisamos ouvir

O lendário cantor, compositor e humanista Roger Waters, que nasceu em 6 de setembro de 1943, completa 83 anos hoje.

Foto: Lucas Alvarenga - divulgação- turnê 2023.

Cofundador e ex-baixista do Pink Floyd, uma das mentes mais brilhantes por trás dos principais clássicos da banda, o músico britânico mantém o mesmo espírito questionador em sua notável trajetória até então.

Longe de se aposentar dos palcos ou das discussões mundiais, ele mostra que sua arte e sua voz continuam mais relevantes do que nunca e necessárias.

De todos os shows que já assisti, de MPB a rock, considero o de Waters o mais genial de todos. Não é apenas mais uma apresentação; é o show, com direito a uma verdadeira aula de sociologia e consciência social.

No ano passado, em julho, pude assisti-lo no cinema: “Roger Waters: This Is Not a Drill — Live from Prague”, um show ao vivo gravado na República Tcheca em maio de 2023. Saímos de lá, mais uma vez, em êxtase e boquiabertos com a criatividade do artista e sua visão realista sobre os fatos, a sociedade e o sistema.

Um dos momentos mais emocionantes foi quando ele falou sobre seu amigo e também cofundador da banda, Syd Barrett, e de como, num piscar de olhos, ele passou da genialidade para a limitação cognitiva devido ao seu colapso mental. Waters finalizou dizendo: “O resto é história”. Ou seja, nós sabemos quem somos.

Esse filme pode ser encontrado nas lojas online, site de Roger Waters e em lojas de rock no formato DVD e Blu-ray.

O resumo desta obra diz o seguinte: “Do cofundador e visionário criativo por trás do Pink Floyd, This Is Not A Drill: Live From Prague — The Movie captura a production ao vivo mais ousada de Roger Waters até o momento. Filmado com detalhes impressionantes durante sua turnê de 2022–2023, o filme mergulha o público em um espetáculo visual de última geração, combinando música atemporal com comentários sociais urgentes. Apresentando um repertório que abrange toda a carreira — incluindo faixas icônicas de The Dark Side Of The Moon, The Wall, Animals, Wish You Were Here e muito mais —, além de material novo e poderoso. This Is Not A Drill: Live From Prague — The Movie é um apelo à ação eletrizante, entregando a mistura de música e mensagem característica de Waters como um evento cinematográfico imperdível.”

Imperdível mesmo.

Que Roger receba todo o amor, paz, prosperidade e muita saúde para continuar nos presenteando com obras-primas assim, em que se unem música, letra e realidade social. E cabe a cada um de nós refletir depois.

Albert Camus, na crônica “O Artista na Prisão”, a respeito de Oscar Wilde — autor do qual sou leitora —, lembrou o quanto custou a Wilde a sua omissão e indiferença.

O escritor vivia cercado de privilégios, admiradores e fama, alheio à realidade social, pensando que, por pertencer à camada social elevada que alcançou, jamais seria atingido em sua vida pessoal.

Segundo Camus, é por isso que “o artista não deve viver alheio à vida”, mas estar consciente de que é peça fundamental na construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

Não pode existir neutralidade onde a injustiça social impera. É por essas e outras que Sir Roger Waters não se cala.

Ele viveu na pele, desde criança, a orfandade e as perdas do pai e do avô em duas guerras mundiais.

Ele sabe que a guerra só enriquece os fabricantes de armas e aqueles que as provocam.

Vida longa, Sir Waters!🙌

20 agosto, 2026

Robert Plant: o deus do rock faz aniversário hoje

Esse poderoso leonino, Robert Plant, que nasceu em 1948, faz 78 anos nesta quinta-feira, dia 20 de agosto de 2026.

Imagem: Reinaldo Canato/ UOL
Para minha felicidade, estive em 24 de maio passado em São Paulo para assistir ao vivo aos seus rugidos, no Parque Ibirapuera, pelo C6 Fest. Presente de aniversário adiantado, ô coisa boa! (◠‿◠)

Foi um momento mágico: um local bem organizado, pessoas muito civilizadas e aquele show de “responsa”, lotadíssimo. Até o universo conspirou a nosso favor. Não choveu no local durante a tarde e tampouco durante o show. E olha que, quando cheguei no sábado, estava chovendo muito.

Robert Plant, acompanhado pela vocalista Suzi Dian e uma banda de primeira qualidade, transbordou de emoção ao cantar seus novos sucessos, sempre se reinventando, além de clássicos do Led Zeppelin. 

Fechou o show com chave de ouro ao cantar “Rock and Roll”. Fomos à loucura! Quando ele dava aqueles rugidos dele, parecia que estávamos de volta ao Led Zeppelin dos velhos tempos.

Essa energia incansável não é por acaso. 
Recentemente, o músico foi homenageado com o ilustre prêmio “Record Store Legend”, concedido pelo Record Store Day. A distinção reconhece o impacto eterno do artista na história da música e seu apoio contínuo às lojas de discos independentes ao redor do mundo, mostrando que sua conexão com a arte física e com os fãs continua mais viva do que nunca.

O rock tem dessas coisas: a gente nunca envelhece. A galera — como ele gosta de se referir aos fãs — estava lá presente, representada por todas as gerações.

Sou testemunha viva de que a música salva, que ela transborda na emoção e abre caminhos dentro do nosso consciente. 

Não é à toa que o músico e monge beneditino Guido d’Arezzo, segundo relatos, criou as frequências de Solfeggio — 396 Hz, 417 Hz, 528 Hz, 639 Hz, 741 Hz e 852 Hz —, que compõem a antiga escala de 6 tons amplamente utilizada pela Igreja, no Canto Gregoriano e no Hino de São João Batista. E o gênio Nikola Tesla afirmava que nesses números — 3, 6 e 9 — “estaria a chave do universo”.

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Robert Plant: A lenda viva está de volta

O Led Zeppelin, na voz do monstro sagrado Robert Plant, já me salvou algumas vezes. Em 2015, quando eu estava em luto há alguns meses pela perda da minha mãe, o acúmulo de situações emocionais acabou disparando o gatilho da ansiedade. Ele estava lá, com sua voz e seus rugidos, para me salvar.

Por isso, mesmo quando tentam fazer piada ou falar mal dele para mim, ajo com insolência e saio em defesa do músico. Aconteceu um fato assim em março de 2019, no final de um show. 

A pessoa também era fã da banda, mas o engraçadinho veio lá de cima do palco me provocar, perguntando se eu ainda amava "o tal do cabeludo do Led Zeppelin" (vou omitir o resto). Respondi com tudo: "Sim, para sempre! Pouco me importa o que dizem. Para mim, ele é eterno!"

Voltando ao presente, este foi um dos melhores shows que pude assistir este ano. Pude rever amigos, cercada de familiares, em um fim de semana inesquecível.

Desejo vida longa ao “Deus Dourado” do rock, que continua sua jornada cheia de sucesso. Não sei se ele retornará ao país, mas o que importa é que, mais uma vez, estive lá para presenciar tudo de perto.

Há coisas que são impagáveis na vida, a música é uma delas — e o Robert Plant também!

Gratidão por sua existência, por sua voz e por suas canções, que fazem desta sociedade cheia de ruídos um lugar com um pouco mais de sonhos, esperança e quietude.