“A miséria das classes baixas é sempre maior que o espírito de
fraternidade das classes altas.” Victor Hugo.

Reprodução Internet - Filme.
Os Miseráveis é uma obra-prima de Victor Hugo das mais instigantes e envolventes. Faz alguns anos que assisti também ao filme com Liam Neeson no papel de protagonista.
A trama aborda as questões políticas e sociais, a ética cristã acima da moral, sociedade indiferente. Um livro grandioso, intenso, que mexe com as emoções e juízo de valor, onde personagens sedentos por justiça e oportunidades se enfrentam com os frios e obstinados, numa cruzada entre valores morais, éticos, hipocrisia social, a dura e cruel realidade social e seus desiguais.Jean Valjean: preso e condenado pelo roubo de um pão.
Bienvenu, Bispo de Digne (Charles François Bienvenu Myriel). Um sacerdote idoso e gentil, promovido a bispo por um encontro casual com Napoleão. Ele salva Valjean de ser preso após roubar sua prata e o convence a mudar de comportamento.
Fantine. A costureirinha parisiense foi abandonada com uma filha pequena pelo seu amante, Félix Tholomyès.
Cosette é a filha de Fantine. (Euphrasie, Cotovia, Ursule, Senhora Pontmercy)
A filha ilegítima de Fantine e Tholomyès.
Thénardier (Jondrette, Senhor Fabantou, Senhor Thénard): Um estalajadeiro corrupto e sua esposa. Eles têm cinco filhos: duas filhas (Éponine e Azelma) e três filhos (Gavroche e dois filhos mais jovens não identificados).
Eles cuidam de Cosette em seus primeiros anos, maltratando e abusando dela. Eles também escrevem cartas sobre Cosette a Fantine, a fim de extorquir dinheiro dela.
Mas acabam por perder a estalagem, devido à falência, e se mudam para Paris, vivendo como os Jondrette. Senhor Thénardier está associado a um bando criminoso chamado Patron Minette, mas ao contrário do que se pensa, ele não é o chefe, pois operam de forma independente.
A família Thénardier também vive ao lado de Marius, que reconhece Thénardier como o homem que “salvou” seu pai em Waterloo.
Éponine - Filha mais velha dos Thénardier. Quando criança, ela é mimada por seus pais, mas acaba como uma menina de rua quando chega à adolescência. Ela participa de crimes de seu pai e elabora esquemas para conseguir dinheiro.
Deixei Marius e outros personagens símbolos da resistência contra o governo para não alongar o conteúdo.
Partindo das ações e juízo de valor dos personagens centrais, é possível identificar dois princípios de ética: a ética cristã pautada no humanismo, compaixão e empatia e a ética materialista que demonstra uma sociedade egoísta e cruel, com os menos afortunados e a exclusão social.
No caso, o “empreendedor” assume o papel do governo, ao prover as necessidades básicas do trabalhador, mediante condições de trabalho.
Ele tentava comprovar que as obras de caridade feitas por indivíduos privados e não pelo governo – auxiliam os pobres.
Na obra, ele demonstra que, por meio de empreendedores habilidosos, como Jean, é possível acontecer o que hoje chamamos de “terceiro setor”. Ou seja, ele não foi amarrado no tronco como na época atual, mas acobertado pelo bispo que omitiu seu roubo e transferiu para ele a obrigatoriedade de ser honesto a partir daí.
O escritor não era adepto ao socialismo e nem ao comunismo, mas de um espírito libertário, achava que o maior bem é a liberdade, como “o maior bem mais precioso de toda a humanidade. Comida e água não são nada; vestimentas e abrigos são luxos.
Quem é livre permanece com sua cabeça erguida, mesmo que esteja com fome, sem roupas e sem teto. Dedicarei a minha própria vida, o que quer que ainda reste dela, à causa da liberdade — liberdade para todos!”
Hugo também era contra a redistribuição de riquezas, pois com elas iria minguar o estímulo da produção. Era contrário ao ideal do comunismo e da reforma agrária que visam a distribuição de renda, pois defendia que a distribuição destrói a produtividade.
A repartição em partes iguais mata a ambição e, por consequência, o trabalho. Portanto, é impossível tomar essas pretensas soluções como princípio. “Destruir riqueza não é distribuí-la”, segundo Victor Hugo.
Diga-se de passagem, era uma personalidade complexa e controversa, como descrita na sua biografia:
Quando jovem, apoiara a monarquia francesa; mais tarde, admirou Napoleão Bonaparte por supostamente defender os princípios da liberdade e igualdade. Quando tinha quarenta e nove anos, desafiou publicamente Napoleão III, o tirânico imperador.
Em decorrência disto, perdeu suas luxuosas casas, suas enormes coleções de antiguidades e sua esplêndida biblioteca de dez mil livros; mas ressurgiu como exilado eloquente, que defendia a liberdade para todos os povos. No fim da sua vida, quando mais tinha o que perder, dedicou-se à causa da liberdade.
Sobre Terceiro setor, esta definição surgiu
na primeira metade do século passado, nos Estados Unidos.
Segundo Cristina Moura e Talita Rosolen, doutorandas em Administração na FEAUSP, explicaram que a sociedade é formada por três setores: o primeiro caracteriza-se por utilizar meios públicos para fins públicos, representado principalmente pelo Estado; o segundo setor é o que utiliza fins privados para meios privados (empresas); por fim, o terceiro é uma combinação: utiliza-se de fins privados para atingir meios públicos.
Formam esse grupo as organizações não governamentais, fundações, associações comunitárias e entidades filantrópicas, por exemplo. A grande preocupação do terceiro setor é causar impacto positivo na sociedade, se propondo a resolver parcial ou totalmente um problema.
No Brasil, esse setor nasce com o fim da ditadura militar e ascensão da crise econômica. Com o Estado falido, instituições não governamentais tomam a iniciativa de resolver problemas urgentes. Ao mesmo tempo, com a expansão desenfreada do capitalismo global revelando diversas mazelas sociais e ambientais, a sociedade passa a exigir das empresas mais responsabilidade social, ultrapassando a visão anglo-saxônica de que uma empresa deve gerar apenas lucro.As ações sociais das empresas e do terceiro setor são chamadas de investimento social e possuem foco em resultados, além de manter uma sinergia com os negócios e visar a inserção dos indivíduos na comunidade. Se diferencia, portanto, da caridade, que são ações isoladas e pontuais, sem muito planejamento e análise. Entre os dois conceitos, há também a filantropia, que vem de fundações e organizações independentes e é mais organizado do que a caridade, mas não tão bem estruturado como um investimento social.
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