13 de outubro de 2026

A Dosimetria da Vida: Entre a Culpa de Baran e o Cansaço de Todos Nós

Você já ouviu a palavra Dosimetria? Parece papo de tribunal, mas ela define desde a sentença de um juiz até o cansaço que você sente no final do dia.

Neste texto, há uma ponte que une o "juridiquês", o filme "Um Homem Abandonado" (Netflix) e a nossa rotina de cobranças.

Imagem: Netflix.

Termos como “Dosimetria”, “Estado Democrático de Direito”, parecem restritos aos tribunais e ao Congresso.

Entretanto, para quem está na rua — no mercado, no táxi ou no consultório —, esses conceitos soam distantes. 
No entanto, eles afetam diretamente as nossas vidas. 

Essa comunicação difícil lembra um meme clássico sobre Shakespeare conversando com sua mãe: — “Que seja dito a quem me deu à luz que no meu estômago prevalece um vazio!” — “Oh, por amor de Deus, Shakespeare! Basta dizer: mãe, tenho fome!”

Falar simples não significa “empobrecer” a linguagem formal ou os ritos jurídicos, mas trazer essas informações de entendimento fácil para que o povo no geral possa compreender como tudo funciona.

Afinal, só é possível almejar mudanças quando compreendemos as causas e os efeitos que, através dessas decisões, afetarão diretamente a sociedade.

É o caso da Dosimetria da Pena. Para entender na prática: sabe quando dois irmãos fazem a mesma bagunça, mas os pais dão um castigo leve para um e trancam o outro no quarto o dia todo?

A dosimetria deveria ser a régua para evitar isso; é o cálculo que o juiz faz para definir o tamanho de uma punição.

Muitas vezes, essa dosimetria não está atrelada apenas a critérios técnicos, mas sofre influências do contexto social e político.

Na prática, a medida dessa régua não deve ser mais severa com o jovem da periferia do que com um jovem da elite. Ter uma clareza maior sobre isso é o que nos permite entender se a justiça, em determinados momentos, está sendo seletiva.

Essa dinâmica da punição e do impacto social se reflete perfeitamente no filme turco Um Homem Abandonado (Netflix), dramático e envolvente. Na trama, o protagonista Baran assume a culpa por um crime cometido pelo irmão, imposto pelo pai.

Ele cumpre uma “pena” por algo que não fez e, mesmo após sair da prisão, a sociedade e a própria família continuam aplicando “dosimetrias emocionais” e punições invisíveis sobre a sua vida.

Olhando pela Psicologia Social, percebe-se que a sociedade atual perdeu a mão na “dose”.

É o que mostra a obra Sociedade do Cansaço, de Byung-Chul Han: hoje, nós mesmos fazemos a nossa própria dosimetria. Calculamos e aplicamos doses em excessos de cobrança e desempenho, o que nos leva ao esgotamento físico e mental.

Acabamos exagerando na dose de isolamento — como o personagem Baran no início do filme, mas convenhamos motivos não faltaram mediante a injustiça sofrida— e na dose de produtividade exigida pelo mundo moderno, esquecendo da única “dose” capaz de curar: a de afeto.

5 de outubro de 2026

O Efeito Rosie e o Mundo Atual

Mais que um filme, o espelho de uma realidade invisível ao nosso redor.
Sabe aquele tipo de filme que termina, os créditos sobem, mas você continua encarando a tela em silêncio e com um nó na garganta?

Imagem de IMB - filme Rosie

Foi exatamente o que senti ao assistir a Rosie (2018), um drama irlandês impecável escrito por Roddy Doyle e dirigido por Paddy Breathnach, no mês passado. Muito tocante e atual.

Conta a história fictícia de Rosie Davis, mas embasada numa realidade crua, uma década atrás, sobre uma família de classe trabalhadora em Dublin que fica sem teto de uma hora para outra quando o proprietário resolve vender a casa.

Despejada de onde vive com o marido e quatro filhos — uma adolescente e três crianças —, Rosie vê-se forçada a adotar o carro como casa enquanto tenta desesperadamente encontrar um local onde passar a noite.

Sem a ajuda de família ou amigos, e com uma cidade lotada por causa do concerto de Lady Gaga, ela passa o dia ligando para dezenas de hotéis e abrigos. O filme funciona como uma crítica contundente à severa crise imobiliária que atinge o país.

Embora a história se passe na Europa, ela espelha uma crise dolorosa que hoje, em 2026, famílias inteiras enfrentam os mesmos dramas em países como os Estados Unidos e a Argentina.

Estados Unidos: O fenômeno dos trabalhadores sem-teto.

Nos EUA, a falta de habitações acessíveis e a compra de bairros inteiros por grandes fundos de investimento criaram uma nova e triste categoria social: os "trabalhadores sem-teto". São pessoas com empregos formais que batem cartão todos os dias, mas cujos salários não pagam um aluguel.

Essa realidade cruel é retratada frequentemente por criadores de conteúdo que vivem no país, como o empresário e corretor Ricardo Molina, que mostra em seus vídeos como essa crise atinge inclusive a comunidade de imigrantes brasileiros.

Dados oficiais de órgãos de moradia americanos confirmam o tamanho do problema: cerca de metade da população sem-teto dos EUA possui um emprego ativo (seja em tempo integral ou parcial).

A cena de Rosie — uma família morando no carro e usando banheiros de fast-food para se higienizar antes do trabalho — virou rotina nas periferias e grandes centros americanos.

O fenômeno é invisível para muitos porque os trabalhadores estacionam discretamente nos arredores ou vivem em trailers distantes.

Argentina: Desregulamentação e insegurança de moradia.

Na Argentina, o drama ganhou contornos ainda maiores. Em dezembro de 2023, o governo de Javier Milei revogou a antiga Lei de Aluguéis por meio do Decreto de Necessidade e Urgência (DNU 70/2023), permitindo total liberdade de negociação entre inquilino e proprietário.

Embora a medida tenha aumentado a oferta de imóveis desocupados, ela permitiu que os contratos fossem fechados em qualquer moeda (inclusive dólares) e com reajustes livres.

Com uma inflação alta e salários desvalorizados em pesos, arcar com reajustes frequentes ficou insustentável.

 Para conter as despesas básicas, muitas famílias recorreram ao endividamento.

Quando as dívidas se tornam impagáveis, o risco de despejo dispara, empurrando a classe média para abrigos superlotados.

Além disso, a paralisação de projetos de habitação social e a falta de crédito hipotecário acessível tornaram o sonho da casa própria impossível para as novas gerações.

O reflexo no passado do Brasil:
Essa realidade nos faz olhar para trás e lembrar que o Brasil viveu reviravoltas econômicas parecidas, especialmente com os impactos inflacionários e habitacionais entre as décadas de 1990 e 2000. 

Nossa sociedade enfrentou o confisco do Plano Collor, as armadilhas cambiais e os juros recordes do governo FHC.

O sufoco do Plano Collor (1990): O confisco temporário de contas correntes e poupanças sumiu com a liquidez do mercado. 

Para se defender do risco de calote, a indústria multinacional encurtou o prazo máximo de faturamento para 28 dias para os distribuidores.

Isso sufocou os franqueados, que precisavam vender parcelado para o consumidor final, mas tinham que pagar os fornecedores com a cota em dólar e o capital de giro travado pelo governo.

A armadilha do dólar no Plano Real (1999): Durante os primeiros anos do plano, o governo manteve a moeda pareada ao dólar (R$ 1,00 para US$ 1,00).

Confiantes nessa estabilidade, muitas pessoas adquiriram leasings de computadores, consórcios e financiamentos imobiliários atrelados à moeda americana.

"Após o esgotamento de grande parte das reservas cambiais, o governo brasileiro abandonou a âncora fixa e adotou o regime de câmbio flutuante, permitindo que o valor do real passasse a ser determinado livremente pelo mercado".

O dólar disparou e as prestações explodiram da noite para o dia.
A partir da consolidação do Plano Real na década de 1990, o cenário imobiliário também virou uma armadilha para quem já havia financiado.

Enquanto as parcelas subiam, o saldo devedor geral era reajustado pela Taxa Referencial (TR), que acompanhava os juros altos da época — chegando ao pico histórico da Selic de 45% ao ano em março de 1999. Desse modo, a dívida total crescia muito mais rápido do que a capacidade do comprador de pagar.

Para não perder o bem ou receber uma ordem de despejo, os cidadãos recorriam à Justiça para suspender as cobranças até uma decisão final. 

No entanto, quando os bancos chamavam para acordos, as contrapropostas de refinanciamento vinham com resíduos astronômicos ou impagáveis, fazendo com que milhares de pessoas vissem seus imóveis irem a leilão por verdadeiras bagatelas.

Informações Adicionais:
Economia de Direita (Liberalismo Econômico): Na Irlanda, o governo priorizou a responsabilidade fiscal, incentivos a empresas privadas, atração de multinacionais (através de impostos baixos) e livre mercado.

Críticos apontam que o foco excessivo em deixar o mercado imobiliário privado resolver a demanda de moradias — em vez de investir em habitação pública massiva — foi uma das raízes que aprofundou a crise retratada no filme Rosie.

Rosie deixou de ser apenas um filme de alerta para se transformar no retrato fiel e cotidiano de um país que enriqueceu economicamente, mas falhou em abrigar a sua própria população.

Segundo o site Edublin, em 2018, o país já estava chocado com os níveis de pessoas dependendo de alojamentos do governo.

Em 2026, as estatísticas oficiais do Department of Housing registraram mais de 17.500 pessoas em situação de emergência habitacional, incluindo mais de 5.500 crianças.

Este é o maior número já registrado na história do país. Além disso, esses dados não englobam os chamados "sem-teto invisíveis" (as pessoas que dormem em carros ou de favor no sofá de amigos). O governo tem tentado acelerar a entrega de casas.

O país alcançou recordes recentes entregando mais de 36 mil moradias em um ano, mas não é o suficiente.

Enquanto em 2018 a crise parecia um problema temporário ou um pico de mercado, hoje ela é estrutural. O governo implementou novos tetos de reajuste de aluguel e regras rígidas para conter os despejos (como as atualizações aplicadas pelo Residential Tenancies Board - RTB), mas na prática, pequenos proprietários continuam vendendo seus imóveis para sair do mercado de locação, reduzindo ainda mais a quantidade de casas disponíveis para alugar.

O filme traz de volta um passado que muitos esqueceram e revela o abismo entre as leis do mercado imobiliário e a ética social.

Embora os leilões judiciais e as execuções de dívidas sejam legalizados, eles operam com frieza sobre tragédias provocadas por crises macroeconômicas que fogem do controle do cidadão.

Lucrar com a perda de um teto familiar confronta os limites da ética e a própria Constituição Brasileira, que garante o direito à moradia no seu Artigo 6º.

A grande lição que a personagem Rosie deixa é perceber quão fina se tornou a linha que separa uma vida confortável da calçada. A moradia deixou de ser um direito básico e virou artigo de luxo.

Basta um imprevisto, uma demissão ou uma mudança brusca nas regras do mercado ou normas de governo que podem mudar tudo.

Mais do que falar sobre economia ou inflação, precisamos falar de humanidade, que mostra esse filme. De crianças tentando fazer a lição de casa no banco de trás de um automóvel, de mães ligando desesperadamente para abrigos antes do anoitecer e de pais aflitos ao deixá-los dentro de um carro, numa rua qualquer, vigiando-os, enquanto eles dormem.

Olhando para esse passado é preocupante, só quem sente na pele a insegurança habitacional é capaz de ver vo quão é frustrante, pois é dever constitucional do Estado brasileiro fornecer mecanismos para a moradia, e não só privilegiar apenas a minoria ou o Estado mínimo e liberal.

A crise de moradia não é apenas um problema de números; é uma crise de dignidade humana. E olhar para isso com o coração aberto é o primeiro passo para revisar nossos valores e perguntar quando, onde e como perdemos o dom de nossa humanidade.

“Quando você olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.” Friedrich Nietzsche - Além do Bem e do Mal.

21 de setembro de 2026

Sociedade do Cansaço

Um pitaco em forma de reflexão sobre a obra 'Sociedade do Cansaço' de Byung-Chul Han, e a teoria da autoexploração com a realidade dos trabalhadores autônomos e as falsas ilusões do empreendedorismo moderno.

Completamente “absurdada” com a teoria do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, "Sociedade do Cansaço", após assistir a uma análise do psicólogo Fernando Rainho e ler um artigo no portal Razão Inadequada, no início deste ano.

Mediante a curiosidade e deste saber, fui atrás do livro, mas só achei resumido na internet; então, resolvi pedir como presente de aniversário. E assim pude completar o meu raciocínio pautado na visão sociológica e no comportamento da sociedade atual.

A obra discorre sobre uma sociedade obstinada pelo desempenho, que se distancia cada vez mais do modelo passado, impreterivelmente.

Hoje, os detentores da mão de obra transformaram-se em empreendedores, “patrão de si mesmo”, como muitos se autointitulam em suas bios em redes sociais ou em cartões.

A controvérsia é que, por trás dessa liberdade que eles enxergam e que o mercado vende como modelo ideal de trabalho, há uma sutil armadilha, disfarçada de autoexploração.

Diante desta subjetividade, o Estado se isenta do dever constitucional de promover o bem-estar social e nos faz crer que somos os únicos responsáveis por nossas vitórias e, consequentemente, por nossos fracassos.

Foi assim que a Dama de Ferro convenceu seus cidadãos de que “não existe sociedade, apenas indivíduos” — ou seja, corremos por conta.

Essa dinâmica se materializa perfeitamente na realidade atual de trabalhadores autônomos, como entregadores de aplicativos, pintores e pedreiros, que pude constatar e observar empiricamente.

Seduzidos pelo discurso de que são "patrões de si mesmos" e donos do próprio tempo, eles enfrentam jornadas exaustivas de 10, 12 ou até 14 horas diárias.

O que é vendido como autonomia esconde uma vulnerabilidade extrema: trabalham no limite das forças e sem nenhuma garantia ou direito básico.

Muito destas profissões sem Equipamentos de Segurança Individual (EPI), se arriscando por conta própria à riscos iminentes.

A ilusão do empreendedorismo se converte, assim, em uma máquina invisível de exaustão.
Segundo Chul Han, esse excesso de positividade, produtividade e cobrança cria uma nova forma de sofrimento psíquico, resultando em doenças modernas como o burnout, a depressão e os transtornos de ansiedade e estresse.

O indivíduo se isola em uma busca frenética por novas metas, competindo constantemente com os outros e tornando-se escravo de si mesmo.

Vivemos, portanto, sem intervalos reais para descanso, sem férias mentais e sem fins de semana para gastar o tempo com a família, lazer, cultura e ociosidade.

A todo momento, o mercado e os privilegiados estimulam essa competitividade, vendendo uma falsa ideia de liberdade, sucesso e felicidade sob o mantra do “Nós podemos”.

O resultado é a busca pelo reconhecimento social e produtivo, atingida em detrimento da saúde mental e física, provocando o distanciamento familiar e afetivo. Justamente vindo de uma sociedade que prega tanto a família.

Quantas vezes o ronco dos motores de motocicletas ou bicicletas motorizadas surge logo na madrugada ou ao amanhecer, de pessoas saindo de casa bem cedo para ir a um centro de distribuição pegar as encomendas?

Ou motoristas de aplicativos estacionados em frente às ruas, estrategicamente à espera de um chamamento?

Sob um calor excessivo ou forte chuva, parados por mais de 20 minutos, meia hora ou muito mais, até que os chamem?

Imagine o forte estresse ou a ansiedade da pessoa dentro daquele carro fechado esperando a oportunidade da corrida? As pessoas precisam de estabilidade e segurança financeira.

Qualquer pessoa, por mais leiga que seja, entende de contabilidade básica antes de se aventurar a gastar sem saber o que terá no final do mês.

Como alguém pode financiar algo, fazer um empréstimo, pagar o aluguel ou dar um presente ao seu filho sem saber o quanto irá ganhar no dia seguinte?

Diante disso, é impossível não questionar: teria Thomas More, em sua obra "Utopia", previsto o nosso futuro?

Há séculos, ele já indagava: “É justo que um nobre, um ourives, um usurário, um homem que não produz senão objetos de luxos, inúteis ao Estado, que levem uma vida caprichosa e esplêndida por entre a ociosidade e ocupações frívolas, enquanto um trabalhador, um carreteiro, um artesão, um lavrador vivam na mais reles miséria, mal podendo alimentar-se? Mas qual é o destino do Operário? Um trabalho infrutífero, estéril, a esmagá-lo agora, e a expectativa de uma velhice miserável no futuro...”

Passados os séculos, a dinâmica social e elitista permanece igual.Quando o trabalhador de hoje deixar de ser produtivo — quando estiver velho, cansado e sem uma aposentadoria que lhe garanta o básico —, aqueles que o incentivaram a ser "dono de si mesmo" e a abraçar o empreendedorismo disfarçado de “canto de sereia” não se lembrarão de suas mazelas.

O sistema fará acreditar que ele não se esforçou o suficiente. Ignorará o quanto ele deixou de desfrutar de sua vida pessoal, de seus filhos e de sua família em busca dessas narrativas capciosas. Tampouco se lembrará do quanto ele se empenhou até a exaustão apenas para ocupar um lugar ao sol.

Ao atingirmos o topo da produtividade à custa da nossa própria humanidade, embasada napromessa vazia da meritocracia atual, que tem nos cobrado um preço alto demais.

Afinal, como bem sabia Napoleão Bonaparte: “Sem oportunidades, de nada adianta o talento”. E sem dignidade ou saúde, o futuro é apenas uma utopia distante.

Reflita!

Imagem: Magnific

12 de setembro de 2026

“De volta aos anos 80” e a subjetividade por trás do engajamento

A cor dos anos 80: entre a nostalgia e o filtro da tela. Uma reflexão sobre como a inteligência artificial recria o passado enquanto captura o nosso presente.

Imagem de oki andri sandjaya por Pixabay

Há um movimento na internet no qual as pessoas estão utilizando um programa de inteligência artificial para fotografar seus rostos como eles eram nos anos 80.

Comecei a pesquisar para analisar o que se esconde por trás dessa brincadeira aparentemente inocente.

Além do risco de “roubo” de dados, o que devemos refletir é sobre a subjetividade por trás deste gesto puro, por haver indícios de que seria uma coleta massiva de dados biométricos e perda de controle sobre a própria imagem.

Sem contar que, nos anos 80, vivíamos em uma ditadura que perdurou até 1985, e esta “saudosa época dourada, estilosa, simples e divertida” esconde um período de transição democrática difícil, marcado por autoritarismo e crise.

Ao contrário do que parece, segundo informações apuradas, esse gesto simples de utilizar um aplicativo de Inteligência Artificial (IA) para “viajar no tempo” não é neutro. Ele carrega camadas de vigilância tecnológica e de manipulação ideológica da memória coletiva.

Pesquisando em outros sites, deparei-me com as seguintes explicações sobre esses aplicativos e filtros; e eles não são simples interações, mas existe uma dinâmica por trás disso tudo:

* Para criar uma imagem realista, esse tipo de programa escaneia os pontos estruturais do seu rosto. Você está entregando sua identidade biométrica mais pura.

* Suas fotos alimentam e treinam bancos de dados de IA corporativas sem que você saiba ou receba pela exposição delas.

* Ao aceitar os termos (que quase ninguém lê), você geralmente concede à empresa o direito de armazenar, modificar e utilizar sua imagem para fins comerciais em qualquer lugar do mundo.

Além disso, há uma subjetividade política intrinsecamente ligada à romantização dos anos 80, em que se vende a estética de luzes de neon, músicas sintéticas, roupas coloridas e diversão inocente (fortemente influenciada pela cultura pop norte-americana), como “anos dourados”.

Entretanto, para o nosso contexto latino-americano, seria um apagamento do passado em que a nostalgia dos “velhos e bons tempos” elimina a história, substituindo a memória da censura, a hiperinflação, o privilégio para poucos, crises econômicas por um filtro colorido de computador.

Esse gesto individual de se ver “lindas, lindos e jovens nos anos 80” mexe sutilmente com a nossa vaidade ao transformar uma década de intensas lutas políticas num mero produto de consumo visual, impregnado de saudosismo.

Lembre-se: “caldo de galinha e cautela não fazem mal a ninguém”, segundo o dito popular.

6 de setembro de 2026

Muito além do rock: Roger Waters ainda é a voz que precisamos ouvir

O lendário cantor, compositor e humanista Roger Waters, que nasceu em 6 de setembro de 1943, completa 83 anos hoje.

Foto: Lucas Alvarenga - divulgação- turnê 2023.

Cofundador e ex-baixista do Pink Floyd, uma das mentes mais brilhantes por trás dos principais clássicos da banda, o músico britânico mantém o mesmo espírito questionador em sua notável trajetória até então.

Longe de se aposentar dos palcos ou das discussões mundiais, ele mostra que sua arte e sua voz continuam mais relevantes do que nunca e necessárias.

De todos os shows que já assisti, de MPB a rock, considero o de Waters o mais genial de todos. Não é apenas mais uma apresentação; é o show, com direito a uma verdadeira aula de sociologia e consciência social.

No ano passado, em julho, pude assisti-lo no cinema: “Roger Waters: This Is Not a Drill — Live from Prague”, um show ao vivo gravado na República Tcheca em maio de 2023. Saímos de lá, mais uma vez, em êxtase e boquiabertos com a criatividade do artista e sua visão realista sobre os fatos, a sociedade e o sistema.

Um dos momentos mais emocionantes foi quando ele falou sobre seu amigo e também cofundador da banda, Syd Barrett, e de como, num piscar de olhos, ele passou da genialidade para a limitação cognitiva devido ao seu colapso mental. Waters finalizou dizendo: “O resto é história”. Ou seja, nós sabemos quem somos.

Esse filme pode ser encontrado nas lojas online, site de Roger Waters e em lojas de rock no formato DVD e Blu-ray.

O resumo desta obra diz o seguinte: “Do cofundador e visionário criativo por trás do Pink Floyd, This Is Not A Drill: Live From Prague — The Movie captura a production ao vivo mais ousada de Roger Waters até o momento. Filmado com detalhes impressionantes durante sua turnê de 2022–2023, o filme mergulha o público em um espetáculo visual de última geração, combinando música atemporal com comentários sociais urgentes. Apresentando um repertório que abrange toda a carreira — incluindo faixas icônicas de The Dark Side Of The Moon, The Wall, Animals, Wish You Were Here e muito mais —, além de material novo e poderoso. This Is Not A Drill: Live From Prague — The Movie é um apelo à ação eletrizante, entregando a mistura de música e mensagem característica de Waters como um evento cinematográfico imperdível.”

Imperdível mesmo.

Que Roger receba todo o amor, paz, prosperidade e muita saúde para continuar nos presenteando com obras-primas assim, em que se unem música, letra e realidade social. E cabe a cada um de nós refletir depois.

Albert Camus, na crônica “O Artista na Prisão”, a respeito de Oscar Wilde — autor do qual sou leitora —, lembrou o quanto custou a Wilde a sua omissão e indiferença.

O escritor vivia cercado de privilégios, admiradores e fama, alheio à realidade social, pensando que, por pertencer à camada social elevada que alcançou, jamais seria atingido em sua vida pessoal.

Segundo Camus, é por isso que “o artista não deve viver alheio à vida”, mas estar consciente de que é peça fundamental na construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

Não pode existir neutralidade onde a injustiça social impera. É por essas e outras que Sir Roger Waters não se cala.

Ele viveu na pele, desde criança, a orfandade e as perdas do pai e do avô em duas guerras mundiais.

Ele sabe que a guerra só enriquece os fabricantes de armas e aqueles que as provocam.

Vida longa, Sir Waters!🙌