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27 dezembro, 2014

Comportamento: "não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita"


Imagem: Reprodução/Internet.

Por que escondemos o bem e aplaudimos o anonimato?

Você já deve ter ouvido por aí nas redes sociais que “quem faz o bem de verdade não precisa propagar”. Existe uma ideia, a meu ver profundamente equivocada, de rotular como vaidade ou soberba o ato de compartilhar uma boa ação. Com medo desse julgamento, as pessoas que praticam o bem passaram a esconder suas ações.

Isso é um tremendo paradoxo. Desde os tempos mais longínquos, aprendemos que é o exemplo que torna o ser humano melhor. O próprio Jean-Jacques Rousseau já dizia que “o homem nasce bom, mas o meio o corrompe”. 

Se os bons exemplos se omitem, é natural que os maus ganhem força. Por que, então, incentivamos o anonimato de quem faz o bem, enquanto fazemos vista grossa para o egoísmo e a negligência de quem nada faz pelo próximo?

Muitos recorrem aos tempos de Jesus para justificar esse silêncio. Vendo as pessoas usarem a caridade por pura vaidade, segundo o Evangelho de Mateus, ele registrou o ensinamento: “Não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita”. No entanto, considero o ditame atual derivado disso um erro, pois ele gera a falsa impressão de que o bem deve ser permanentemente camuflado sob o risco de parecer “ego inflado” ou oportunismo.

Para compreendermos a raiz disso, precisamos analisar a questão sob três pontos de vista fundamentais:

Primeiro, há o contexto cultural. Essa expressão bíblica está historicamente correlacionada aos costumes árabes antigos (considerados pagãos pela Igreja na época) e que nada tinham a ver com o mérito das ações em si. Trata-se de um aspecto puramente cultural e de higiene: a mão esquerda era usada estritamente para a higienização pessoal (coisas tidas como “impuras”), enquanto a mão direita manuseava os alimentos e o que era considerado sagrado. Não era uma ordem para esconder a caridade, era sobre a pureza dos costumes da época.

Segundo, há a necessidade de conexão. Para seguir bons exemplos, para sermos motivados e convencidos por eles, é preciso haver identificação. É necessário espalhar que a solidariedade é uma virtude grandiosa. Eu só enxergo vaidade real se o ato for feito para maquiar um caráter dissimulado em busca de favorecimento pessoal. No fim, cada um fica com a sua consciência real. Podemos enganar os outros, mas nunca a nós mesmos — não existe juiz mais cruel do que a nossa própria mente a sós conosco quando nos deparamos com ela e ela nos condena.

“Não existe verdadeira inteligência sem bondade.” — Ludwig Van Beethoven.

Enquanto isso, o mal é disseminado aos montes, e o bem fica encolhido. Com essa propagação, os que nada fazem permanecem “desobrigados” moralmente de prestar contas dos seus feitos. Através desta manobra inteligente, continuam omissos, indiferentes aos seus semelhantes e confortáveis em seu egoísmo mesquinho.

Terceiro, entramos na responsabilidade da partilha. Se a vida lhe deu privilégios, não custa nada partilhar com quem não teve as mesmas oportunidades. A sociedade criou a falsa ideia de que se expor é arrogância, mas a verdade nua e crua, validada por sociólogos e psicólogos especialistas no assunto, é que o escândalo, a polêmica e o choque geram mais curiosidade no público — talvez pelo nosso medo do desconhecido.

O condicionamento humano nos inclina a dar mais ênfase à dor, ao sofrimento, ao erro e à polêmica, usando o medo como forma de controle, enquanto ignoramos a paz, a honra e o bem. Relembrando mais uma passagem de Mateus (7:9-11): “E qual dentre vós é o homem que, pedindo-lhe pão o seu filho, lhe dará uma pedra? E, pedindo-lhe peixe, lhe dará uma serpente?”

Somos “humanos, demasiados humanos”, como bem sabia Friedrich Nietzsche sobre a nossa dualidade. Mas é através das perdas, das dores e das frustrações que nos fortalecemos para seguir o fluxo da vida — sem apressar o rio, apenas caminhando.

Podemos nos arrepender de muitas coisas, mas nunca de evoluir e adquirir virtudes como ser justos e bons.

Para Aristóteles, a virtude é uma prática constante, um hábito, e não um mero conhecimento ou algo natural que cada ser humano possui. É essa prática diária que nos inclina para o bem, que é a busca pela verdadeira felicidade. E, como dizia Voltaire: “Todo homem é culpado pelo bem que não fez”. 

Devemos ser bons e justos para manter a nossa consciência em paz, e não para agradar aos outros, ludibriar pessoas ou inflar o ego perante a sociedade.

A vida é curta demais para sermos carrascos uns dos outros e para os outros. Viemos ao mundo para agregar, não para desagregar. No fim das contas, um coração bom ainda é a coisa mais bonita que uma pessoa pode ter.

Imagem: Reprodução / Internet.