12 de setembro de 2026

“De volta aos anos 80” e a subjetividade por trás do engajamento

A cor dos anos 80: entre a nostalgia e o filtro da tela. Uma reflexão sobre como a inteligência artificial recria o passado enquanto captura o nosso presente.

Imagem de oki andri sandjaya por Pixabay

Há um movimento na internet no qual as pessoas estão utilizando um programa de inteligência artificial para fotografar seus rostos como eles eram nos anos 80.

Comecei a pesquisar para analisar o que se esconde por trás dessa brincadeira aparentemente inocente.

Além do risco de “roubo” de dados, o que devemos refletir é sobre a subjetividade por trás deste gesto puro, por haver indícios de que seria uma coleta massiva de dados biométricos e perda de controle sobre a própria imagem.

Sem contar que, nos anos 80, vivíamos em uma ditadura que perdurou até 1985, e esta “saudosa época dourada, estilosa, simples e divertida” esconde um período de transição democrática difícil, marcado por autoritarismo e crise.

Ao contrário do que parece, segundo informações apuradas, esse gesto simples de utilizar um aplicativo de Inteligência Artificial (IA) para “viajar no tempo” não é neutro. Ele carrega camadas de vigilância tecnológica e de manipulação ideológica da memória coletiva.

Pesquisando em outros sites, deparei-me com as seguintes explicações sobre esses aplicativos e filtros; e eles não são simples interações, mas existe uma dinâmica por trás disso tudo:

* Para criar uma imagem realista, esse tipo de programa escaneia os pontos estruturais do seu rosto. Você está entregando sua identidade biométrica mais pura.

* Suas fotos alimentam e treinam bancos de dados de IA corporativas sem que você saiba ou receba pela exposição delas.

* Ao aceitar os termos (que quase ninguém lê), você geralmente concede à empresa o direito de armazenar, modificar e utilizar sua imagem para fins comerciais em qualquer lugar do mundo.

Além disso, há uma subjetividade política intrinsecamente ligada à romantização dos anos 80, em que se vende a estética de luzes de neon, músicas sintéticas, roupas coloridas e diversão inocente (fortemente influenciada pela cultura pop norte-americana), como “anos dourados”.

Entretanto, para o nosso contexto latino-americano, seria um apagamento do passado em que a nostalgia dos “velhos e bons tempos” elimina a história, substituindo a memória da censura, a hiperinflação, o privilégio para poucos, crises econômicas por um filtro colorido de computador.

Esse gesto individual de se ver “lindas, lindos e jovens nos anos 80” mexe sutilmente com a nossa vaidade ao transformar uma década de intensas lutas políticas num mero produto de consumo visual, impregnado de saudosismo.

Lembre-se: “caldo de galinha e cautela não fazem mal a ninguém”, segundo o dito popular.

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