Vivemos há tanto tempo em um capitalismo primitivo que, para nós, o sentido do êxito se dá pela posse de bens, pela capacidade individual de acumular propriedades materiais.
Imagem de Mirko Grisendi por Pixabay
Vivemos assim faz tempo – e sob pressão constante – que nos esquecemos, pelo menos de vez em quando, de pensar a respeito.Dessa maneira, as emoções, o espírito, os valores humanos são deixados para um outro plano. Isso, somado ao interesse egoísta, faz com que o exercício do poder ainda se dê pela aplicação da força que emana do bolso e desconsidera os atributos pessoais.
Assim, nossa sociedade é muito cruel, em especial, com o homem pobre.
No trabalho, "pretendem nos ensinar a trabalhar mais por menos, como se devêssemos acompanhar o ritmo do avanço da tecnologia de ponta."
"Somos gentilmente reduzidos a peças de engrenagens", nas palavras do Frei Betto, frade dominicano e um dos coordenadores do programa Fome Zero.
Mas tem um outro lado da gente, de onde emana a força de resistência à pressão consumista. O lado da gente que busca alternativas para melhorar a qualidade de vida, livrar-se da ostentação, resgar a capacidade de amar, reaprender a ternura, olhar o semelhante em sua suprema dignidade humana.
O lado que ouve a própria intuição, que exercita a humildade, que sintoniza o transcendente. Frei Betto nos lembra ainda que "somos uma civilização ruidosa". Passamos horas ao telefone, mantemos ligada a TV, o rádio, o som – como se, perante o silêncio, temêssemos mirar a própria face interior. Claro, o mercado não oferece silêncio porque haveria queda de consumo.
Nossa acomodação, nossa falta de iniciativa de exercitar o pensar, questionar-se e questionar o outro, favorece as fórmulas do entorpecimento disponíveis no mercado: o álcool e outras drogas, o excesso de comida, as horas desperdiçadas diante da TV, entre outras compulsões e hedonismos.
Assim ficamos obesos, com gordura na alma, com gordura no cérebro, com o coração lento. Entregamos as rédeas de nossas próprias vidas.
Ficamos mais facilmente manipuláveis pelos desejos dos outros e pela soberana vontade do mercado. Fingimos viver uma vida que não é nossa. Fingimos aderir ao discurso da empresa que nos emprega, fingimos obedecer ao chefe, fingimos ser solidários, fingimos amar. Fingimos felicidade. Fingimos o tempo todo, às vezes, até quase nos acostumarmos com a falta de nós mesmos.
É provável que gente que conseguiu colocar um ponto final na hipocrisia institucional decidiu mudar de atitude. Adotou como princípios de vida os chamados valores universais, amor, paz, verdade, ação correta e não violência. O amor, compreendido como um valor humano, é mais do que um sentimento.
Imagem de Gerd Altmann por Pixabay
É uma energia, um padrão de união, de aproximação e de harmonia.
É o impulso que nos mobiliza para a criação. Estar em paz é conseguir encontrar um fio condutor coerente e harmônico entre o que somos, sentimos, pensamos e fazemos.
Estar em paz com os outros é reconhecer no outro um ser humano que também busca a felicidade e a autorrealização. Estar em paz com a natureza é sentir-se parte integrante da vida. A verdade é a expressão íntegra de nossas pontencialidades.
Não é somente aquilo que expresso como verdadeiro, mas sim aquilo que verdadeiramente sou e expresso. A ação correta é um processo que permeia a nossa vida. É uma determinação para o bem. A não-violência é a combinação de todos os valores, é a conquista do ser humano que ama e não fere, não magoa, não machuca pela ação, reação ou proteção.
Encontre um tempo para você.
Texto reproduzido da Revista Melhor "Vida & Trabalho" - edição março de 2003, escrito por Luiz Márcio Ribeiro Caldas Júnior - escritor e consultor de empresas no campo de comunicação. correio eletrônico: caldasjunior@terra.com.br
Em outras palavras: "Seja humanista, é chique demais!"





