Você já viveu algo assim em algum momento de sua vida? Seja quando criança ou adulto: a desvalidação.
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| Imagem de Ryan McGuire por Pixabay |
Na psicologia, é tratado como invalidação emocional, ou seja, o mesmo que rejeitar, ignorar ou diminuir os sentimentos, pensamentos e dores de outra pessoa. É tratar o que o outro sente como errado, exagerado, bobagem ou inexistente, invalidando a sua experiência interna, segundo o Instituto de Psiquiatria do Paraná.
Você fala algo e a pessoa desvalida a sua dor, a frustração ou angústia, até um simples acontecimento ou fato passado. Consciente ou inconscientemente, ela cria outra narrativa que anula os sentimentos e suas percepções. Passa a ideia de que você esteja equivocada ou supervalorizando algo banal e, por consequência, sai como culpada pelo conflito gerado.
Esse tipo de faceta está enraizado nos âmbitos pessoal e profissional, na política, naquele que detém o poder da comunicação e no algoritmo. “Agora vou desdizer tudo aquilo que lhe disse antes”, como diria Raul.
Alguns exemplos comuns
Se a notícia for contra o que defendemos como verdade, minimizamos o relato. Mas, se for a favor do que temos como ideologia, transformamos a fala em algo banal até que ela perca o sentido.
Ou você desabafa sobre uma perda, dor ou doença e ouve: “Você supera isso.” Você expressa uma insatisfação e a pessoa diz que “você reclama de barriga cheia”.
Há quem diga: “Morrer todos vamos mesmo”, se você comenta o diagnóstico de uma condição mental como ansiedade, depressão, síndrome do pânico ou até mais grave — muitas vezes geradas pela própria pessoa que disparou o gatilho emocional anteriormente.
Existe uma ironia profunda nessa última frase: quem dá esse tipo de “conselho” egoístas sempre pensa em continuar vivendo e seguir em frente.
A agressão passiva e o silêncio
Há uma outra maneira também de invalidação emocional que vem da “Agressão Passiva”. Segundo a psicóloga criminal Júlia Shaw, ela é tão ruim quanto a agressão física, porque a pessoa se cala, ignora a outra, seja numa mensagem, feedback ou contato telefônico.
E como ela agiu na passividade, fingindo-se de “Inês é morta”, a outra parte, quando cobrada sobre o descaso, irá ouvir como argumento: “O quê? Eu não fiz nada”, “estava ocupada demais”, “tenho afazeres”, “você não sabe o que estou passando”. Ou seja, ela diminuiu e desvalorizou a importância de dar o retorno, seja ele positivo ou negativo.
O meu “bigodudo” e filósofo favorito, o alemão Friedrich Nietzsche, dizia: “A palavra mais ofensiva e a carta mais grosseira são melhores, são mais educadas do que o silêncio.”
É claro que haverá momentos em que a pessoa está ocupada no trânsito, numa reunião ou na “deprê”, mas há indivíduos que ignoram o outro utilizando de subjetividade e propositalmente. Temos duas escolhas: aplicar a reciprocidade ou não “perturbá-la” mais.
Novamente, Nietzsche em “Além do Bem e do Mal” alerta: “Se olhar por muito tempo para um abismo, o abismo também olha para você”, ou seja, nos transformaremos naquilo que tanto repudiamos.
A vida real não é um algoritmo
Quem lida com pessoas precisa estar atento a isso: elas não são como a inteligência artificial, exatas em compilar dados e destrinchá-los, mas desprovidas de entendimento de sentimentos, sensações e emoções.
“Ninguém chega a se tornar humano se está sozinho. Nós nos fazemos humanos uns aos outros. Somos, pois, frutos do contágio social”, segundo o filósofo Fernando Savater.
A vida real exige diálogo, entorno e retorno, uma via de mão dupla. Só assim faremos de nós e dos outros a necessidade de viver em uma sociedade pautada em empatia, respeito, seriedade e mais justa.

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