Loira do bem ∞ : 06/15/13

sábado, junho 15, 2013

ESSES "VAGABUNDOS" ME REPRESENTA !!!.

foto site Uol

 Depoimento de um Militante.

Hoje, 13/06, eu fui preso. Um dos 100 e poucos “vagabundos” detidos na manifestação que ocorreu no dia de hoje.
Contarei um pouco do que vi e passei em meio aquela guerra que foi instaurada. Lá pelas 17h rumei para o Teatro Municipal encontrei uma amiga e lá iríamos seguir...Estava lindo, comentava com ela a todos instante, lá em frente ao teatro existiam pouco mais de 5mil pessoas, eram jovens, crianças, senhores, professores universitários, todo tipo de gente, ali unidos em um único prol, aquela mistura típica de são Paulo. Ali não existia pobre nem rico, preto nem branco, nem Zona Sul nem Zona Norte, ali só existia O POVO, A MASSA. Partimos dali e rumamos sentido praça da república, entoávamos gritos “ferozes”e “ofensivos” como: “VEM, VEM PRA RUA VEM CONTRA O AUMENTO!”ou o clássico “Ôoooo o povo acordoou! O povo acordoooou!” e por onde passávamos éramos apoiados e aplaudidos, mais pessoas se juntavam a nós a cada passo. 
Alguns PMs se faziam presentes no entorno mas nada fazia, não incomodavam e não eram hostilizados também, alguns até portavam um belo e sincero sorriso. Dali seguimos com nosso batuque abrasileirado, passamos pelo COPAN e chegamos na entrada da Consolação, ONDE O INFERNO COMEÇOU. Foram quase 20min para conseguirmos acessar a Consolação havia um impasse para decidir que rumo tomariam a manifestação, subimos, encontramos um bloqueio da PM na Maria Antônia, paramos. E ali ficamos. Durante alguns minutos, parados em frente a praça Roosevelt entoando os nosso gritos, longe da polícia.

Atrás de nós alguém gritou: OLHA O CHOQUE! OLHA O CHOQUE!....Pânico, sim PÂNICO!! Todos viraram assustados e vimos uma tropa de cerca de 20 deles, batendo nos escudos e passando ao nosso lado, quase ignorando nossa presença. Gritos de “VIOLÊNCIA NÃO, VIOLÊNCIA NÃO”. Passaram, foi só o susto. Eles se posicionaram logo a frente de toda a manifestação, formaram um círculo e sem motivo ALGUM, reforço que não estávamos fazendo ABSOLUTAMENTE NADA, começaram a atirar em nossa direção. Bombas de gás lacrimogênio começaram a cruzar o céu e caírem entre nós. Peguei uma camiseta que estava na bolsa e dei para a Ana, peguei minha blusa e coloquei no rosto. O mundo parou. Pessoas por todos os lados surgiam com panos e davam as pessoas que não tinham proteção ao nariz e a boca, espirravam vinagre e davam orientações para que respirássemos lentamente. MAIS BOMBAS, começamos a correr em direção a praça Roosevelt. Tivemos uma pausa de uns minutos. Novamente o choque começou a descer e atirar mais bombas em nossa direção, eram muitas, a galera insistia para que nos mantessemos unidos, quando íamos sentar no chão para ali ficarmos a galera atrás de nós começou a correr e gritar CHOQUE! CHOQUE!. Quando virei e olhei, eles eram muitos, e estavam vindo por traz, gritando e batendo em seus escudos reluzentes e imponentes, SIM, o CHOQUE NOS CERCOU! Dai pra frente eu pouco me lembro, foi uma chuva de bombas, uma correria totalmente desengonçada, era simplesmente correr para algum lado para tentar fugir, não havia para onde. O Choque não estava “dispersando” a manifestação, ele estava REPRIMINDO. Os óculos da Ana caíram, ela se soltou de mim para pegar e uma bomba estourou do nosso lado nesse momento, ela correu, eu não a vi, quando fui gritar seu nome outra bom estourou ao lado do meu pé. Que sensação horrível, em poucos segundos eu não conseguia enxergar mais nada, não conseguia abrir os olhos de tanta ardência, eu não conseguia respirar, cambaleei, fiquei zonzo e não conseguia mais andar, encostei no primeiro “esconderijo” que encontrei, uma parte rebaixada que dava para uma garagem de um hotel. Junto a mim mais umas 20 pessoas, todas tentando se recuperar dos efeitos da bomba, alguns passando muito mal, todos se ajudando. Ali quietinhos, vimos a marcha passar por nós, vimos os barulhos de bomba cessarem e aquela fumaça branca dominar tudo. Ufa, tinha acabado. Era esperar se recuperar totalmente das ardências todas e ir embora, cada qual para o seu caminho. LEDO ENGANO!! O choque subiu, nos olhou (devem ter pensado, ai é presa fácil!), empunhou suas armas e entrou gritando onde estávamos: “VAGABUNDO, TIRA O PANO DA CARA” tomei um tapa. “TIRA O BONÉ” outro tapa. Nos fizeram ajoelhar, todos, revistaram nossas mochilas, nos revistaram, nos alinharam e colocaram dentro de um camburão. SIM, estávamos DETIDOS! “Pelo quê?” perguntei, não responderam “Pelo quê?” Perguntou um homem alto trajando roupa social com seu celular filmando tudo. Foi algemado e preso. Ficou ao meu lado no camburão. Uma garota passava muito mal, asmática, sem a bombinha e nervosa, estava tendo uma crise de asma. DETIDA junto. Um garoto com uma rosa na mão, foi entrega-la para os policias e ouviu um sonoro: “TA ME DANDO ESSA ROSA PORQUE? TA QUERENDO DIZER QUE EU TO MORTO? “ Tapa, algema, camburão.

E assim eu fui, para o 78º DP, fomos os primeiros manifestantes detidos na manifestação (alguns haviam sido presos antes dela começar). Quando chegamos lá eu vi a coisa mais NOJENTA de todo aquele período. Chegamos, um dos PMs abriu a porta e ouviu do comandante: “CHAMA ALI O PESSOAL DA TV, AVISA QUE SÃO 21 VAGABUNDOS” 2min e estavam todas as câmeras apontadas para a porta do camburão. Luzes ligadas. Repórteres apostos. QUE COMECE O SHOW. Eu estava ali, ao vivo, em vários canais. Mandaram eu abaixar a cabeça e por a mão pra traz. Não fiz nem um e nem o outro, não havia feito nada de errado!

Tomei um chá de cadeira de 4h por lá. Conheci gente. Vi muitos advogados, muitos mesmo. Aliás obrigado a todos eles que apareceram por lá, foram muitos, a presença de vocês fez o coração duro da PM amolecer e nos tratar com muito mais carinho e educação.

Minha manifestação foi essa, eu não vi o quebra-pau que rolou na paulista, nem a brincadeira de polícia e ladrão que rolou pela cidade Pós-Roosevelt, mas posso dizer a vocês o que eu vi lá. Eu vi ESPERANÇA nos olhos das pessoas, vi SOLIDARIEDADE, vi PAZ. Ninguém estava ali querendo confusão, em momento algum. Não entoamos palavras ofensivas e nem hostilizamos os PM, queríamos manifestar o nosso direito e só! O Direito de falar e ser ouvido!

Aquilo ali não se tratava mais de R$0,20 a mais na tarifa de ônibus, o que eu vi ali foram 20 mil pessoas CANSADAS. CANSADAS de aguentar em silêncio, CANSADAS de serem recebidas a “balas e bombas” a todo instante.
Eu nunca havia visto nada desse tipo, nada tão covarde e opressor, e espero nunca mais ver. Foi triste, foi lindo!

Meus olhos ainda ardem, as pernas e os braços doem, o ouvido ainda esta zunindo, mas o sorriso está aqui e a euforia também. Hoje eu estava lá por mim, pelos meus, pelos seus, pelos que lutaram antes de nós, por todos...e por nenhum.

Eu vi uma frase por ai que reflete bem o sentimento: “Eu fui com medo e voltei com revolta. Pra segunda-feira eu vou levar é esperança. “”

Nós saímos do facebook. Hoje, nós fizemos história!

(a foto não poderia retratar melhor o que foi a manifestação hoje!)