Um pitaco em forma de reflexão sobre a obra “Sociedade do Cansaço” de Byung-Chul Han, e a teoria da autoexploração com a realidade dos trabalhadores autônomos e as falsas ilusões do empreendedorismo moderno.
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Imagem de John R Perry por Pixabay |
Completamente “absurdada” com a teoria do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, "Sociedade do Cansaço", após assistir a uma análise do psicólogo Fernando Rainho e ler um artigo no portal Razão Inadequada, no início deste ano.
Mediante a curiosidade e deste saber, fui atrás do livro, mas só achei resumido na internet; então, resolvi pedir como presente de aniversário. E assim pude completar o meu raciocínio pautado na visão sociológica e no comportamento da sociedade atual. A obra discorre sobre uma sociedade obstinada pelo desempenho, que se distancia cada vez mais do modelo passado, impreterivelmente.
Hoje, os detentores da mão de obra transformaram-se em empreendedores, “patrão de si mesmo”, como muitos se autointitulam em suas bios em redes sociais ou em cartões.
A controvérsia é que, por trás dessa liberdade que eles enxergam e que o mercado vende como modelo ideal de trabalho, há uma sutil armadilha, disfarçada de autoexploração.
Diante desta subjetividade, o Estado se isenta do dever constitucional de promover o bem-estar social e nos faz crer que somos os únicos responsáveis por nossas vitórias e, consequentemente, por nossos fracassos.
Foi assim que a Dama de Ferro convenceu seus cidadãos de que “não existe sociedade, apenas indivíduos” — ou seja, corremos por conta.
Essa dinâmica se materializa perfeitamente na realidade atual de trabalhadores autônomos, como entregadores de aplicativos, pintores e pedreiros, que pude constatar e observar empiricamente.
Seduzidos pelo discurso de que são "patrões de si mesmos" e donos do próprio tempo, eles enfrentam jornadas exaustivas de 10, 12 ou até 14 horas diárias.
O que é vendido como autonomia esconde uma vulnerabilidade extrema: trabalham no limite das forças e sem nenhuma garantia ou direito básico.
Muito destas profissões sem Equipamentos de Segurança Individual (EPI), se arriscando por conta própria à riscos iminentes.
A ilusão do empreendedorismo se converte, assim, em uma máquina invisível de exaustão. Segundo Chul Han, esse excesso de positividade, produtividade e cobrança cria uma nova forma de sofrimento psíquico, resultando em doenças modernas como o burnout, a depressão e os transtornos de ansiedade e estresse.
O indivíduo se isola em uma busca frenética por novas metas, competindo constantemente com os outros e tornando-se escravo de si mesmo.
Vivemos, portanto, sem intervalos reais para descanso, sem férias mentais e sem fins de semana para gastar o tempo com a família, lazer, cultura e ociosidade.
A todo momento, o mercado e os privilegiados estimulam essa competitividade, vendendo uma falsa ideia de liberdade, sucesso e felicidade sob o mantra do “Nós podemos”. O resultado é a busca pelo reconhecimento social e produtivo, atingida em detrimento da saúde mental e física, provocando o distanciamento familiar e afetivo. Justamente vindo de uma sociedade que prega tanto a família.
Quantas vezes o ronco dos motores de motocicletas ou bicicletas motorizadas surge logo na madrugada ou ao amanhecer, de pessoas saindo de casa bem cedo para ir a um centro de distribuição pegar as encomendas?
Ou motoristas de aplicativos estacionados em frente às ruas, estrategicamente à espera de um chamamento?
Sob um calor excessivo ou forte chuva, parados por mais de 20 minutos, meia hora ou muito mais, até que os chamem?
Imagine o forte estresse ou a ansiedade da pessoa dentro daquele carro fechado esperando a oportunidade da corrida? As pessoas precisam de estabilidade e segurança financeira.
Qualquer pessoa, por mais leiga que seja, entende de contabilidade básica antes de se aventurar a gastar sem saber o que terá no final do mês.
Como alguém pode financiar algo, fazer um empréstimo, pagar o aluguel ou dar um presente ao seu filho sem saber o quanto irá ganhar no dia seguinte?
Diante disso, é impossível não questionar: teria Thomas More, em sua obra "Utopia", previsto o nosso futuro?
Há séculos, ele já indagava: “É justo que um nobre, um ourives, um usurário, um homem que não produz senão objetos de luxos, inúteis ao Estado, que levem uma vida caprichosa e esplêndida por entre a ociosidade e ocupações frívolas, enquanto um trabalhador, um carreteiro, um artesão, um lavrador vivam na mais reles miséria, mal podendo alimentar-se?Mas qual é o destino do Operário? Um trabalho infrutífero, estéril, a esmagá-lo agora, e a expectativa de uma velhice miserável no futuro...”
Passados os séculos, a dinâmica social e elitista permanece igual.Quando o trabalhador de hoje deixar de ser produtivo — quando estiver velho, cansado e sem uma aposentadoria que lhe garanta o básico —, aqueles que o incentivaram a ser "dono de si mesmo" e a abraçar o empreendedorismo disfarçado de “canto de sereia” não se lembrarão de suas mazelas.
O sistema fará acreditar que ele não se esforçou o suficiente. Ignorará o quanto ele deixou de desfrutar de sua vida pessoal, de seus filhos e de sua família em busca dessas narrativas capciosas. Tampouco se lembrará doquanto ele se empenhou até a exaustão apenas para ocupar um lugar ao sol.
Ao atingirmos o topo da produtividade à custa da nossa própria humanidade, embasada napromessa vazia da meritocracia atual, que tem nos cobrado um preço alto demais.
Afinal, como bem sabia Napoleão Bonaparte: “Sem oportunidades, de nada adianta o talento”. E sem dignidade ou saúde, o futuro é apenas uma utopia distante.
Reflita!


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