A importância de fazer o que gosta e capaz no que faz.
Machado de Assis, numa crônica bem-humorada, dizia que encontrou o homem honesto que Diógenes, o cínico, tanto procurava em vão, com sua lanterna.

Segundo ele, não se trata de um homem culto, cientista ou de elevada posição social, mas um simples barbeiro. E justamente quando ele ainda estava com os pensamentos nas estrelas, quando se deparou com um anúncio nos classificados de uma Gazeta: “Vende-se uma casa de barbeiro fora da cidade, o ponto é bom e o capital diminuto; o dono vende por não entender…”.
Para o escritor, essa nobre confissão de ignorância é um modelo único de lealdade, de veracidade, de humanidade: “Não penseis que vendo a loja (parece dizer naquelas poucas palavras do anúncio) por estar rico, para ir passear à Europa, ou por qualquer outro motivo que à vista se dirá, como é uso escrever em convites destes. Não, senhor; vendo a minha loja de barbeiro por não entender do ofício. Parecia-me fácil, a princípio: sabão, uma navalha, uma cara, cuidei que não era preciso mais escola que o uso, e foi a minha ilusão, a minha grande ilusão. Vivi nela barbeando os homens. Pela sua parte, os homens vieram vindo, ajudando o meu erro; entravam mansos e saíam pacíficos. Agora, porém, reconheço que não sou absolutamente barbeiro, e a vista do sangue que derramei, me faz enfim recuar. Que outros mais capazes tomem a tua freguesia...”
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“A grandeza deste homem (escusado é dizê-lo) está em ser único. Se outros barbeiros vendessem as lojas por falta de vocação, o merecimento seria pouco ou nenhum. Assim os dentistas. Assim os farmacêuticos.Assim toda a casta de oficiais desse mundo, que preferem ir cavando as caras, as bocas e as covas, a vir dizer claramente que não entendem do ofício. Este ato seria a retificação da sociedade. Um mau barbeiro pode dar um bom guarda-livros, um excelente piloto, um banqueiro, um magistrado, um químico, um teólogo. Cada homem seria assim devolvido ao seu lugar próprio e determinado”. Crônica de A Semana- 1896, 26 de julho.
Conforme Machado, se fôssemos sinceros o suficiente para admitir a nossa inabilidade, pouparíamos, não só a nós, mas à sociedade produtiva que lucraria ainda mais, com profissionais capacitados no exercício de suas verdadeiras aptidões, todos deveriam pensar nisso, inclusive os políticos e canastrões.