domingo, agosto 02, 2015

ANÁLISE: O ESPELHO E O NOSSO VERDADEIRO EU.

- Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para entro... . Espantem-se à vontade, podem ficar de boca aberta, dar de ombros, tudo; não admito réplica.- Machado de Assis. O Espelho.

Ufa, finalmente terminei de ler o livro, e complexidade de Machado não é fácil, mexe com nossos sentimentos mais profundos. E, fiz uma pesquisa até,  com as amigas Marta e Vanda, semana passada, para ver o que elas pensavam a respeito dessa frase tão impactante acima. E, elas tinham opinião parecida com a minha. É que em algumas análises que li, alguns acham que o autor, se refere à alma, no sentido espiritual, de que uma está interligada com a outra, e não podem se dividir. Com a ruptura, se encolhe e se perde na sua essência. Eu, entendo mais, como a personalidade e o ego. De que passamos a ser e a viver de acordo com a imagem, que os outros fazem de nós, e, que, esquecemos do nosso verdadeiro eu, da  nossa essência verdadeira. Equivocamos com a função social que exercemos e assumimos essa identidade.
Incorporamos um personagem, nos colocamos acima dos outros. E, o espelho é o nosso verdugo, porque ele vem e nos mostra nosso verdadeiro eu, sem máscaras, aquilo que somos, quando não estamos diante dos outros, representando nosso melhor papel.
E, a impressão que fica, é que ao tentar separar essas duas almas, no livro, a analogia entre  alma e laranja, ou seja, repartida em duas, se vêem pela metade, ficam incompletas.

Sintetizando o livro, em  “O espelho”, Machado de Assis descreve sobre  Jacobina, um alferes ( posto militar na época) que orgulhava-se de sua farda e vivia em Santa Teresa, bairro conceituado do RJ. Orgulho de toda família, passou a ser chamado de "Sr. Alferes". Foi durante suas férias, na fazenda de sua tia, que pelo status alcançado, lhe foi destinado o melhor quarto, mobília e um espelho enorme, oriundo da família real. Começou a se ver como os outros lhe viam, e não mais o seu eu. Ao ficar sozinho na fazenda, passou a ter como companhia o espelho, e a angústia de que sua alma externa, havia também o abandonado. Ao trocar a farda por um pijama, com o tempo, achou  que sua imagem no espelho estava desaparecendo, e  sumindo. Já não era mais o respeitado Alferes, então vestia sua farda, e ao estar diante do espelho, lá se reconhecia novamente. Mas, sempre se sentindo incompleto. 

Finalizando, valorizamos mais a imagem externa do que nosso interior. Muitas vezes, ganhamos esse respeito, não por quem somos, mas pelo que representamos. E, no fim, quando sós, nossa consciência é o nosso espelho, que se revela, de forma angustiante, que sem nossa pele externa, estamos desprotegidos, e passamos a ser um indíviduo comum, inseguros com a pela interna. Sem a primeira, a segunda perde o seu glamour perante os olhos dos outros.
 Vem, de encontro ao filme "A pele que habito", inspirado no livro "Tarântula"- de Thierry Jonquet. E a pergunta que não quer calar: — Estamos nós, confortáveis com a "pele" em que vivemos?. 
  • Ponto de vista cada um tem o seu, de acordo com seu entendimento. Não quer dizer que o meu seja o correto. Leia, e interprete o seu.