Loira do bem ∞ : 06/16/14

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Filosofando: “A verdadeira ética dos Miseráveis de Victor Hugo.”.


O meu pitaco não é para colocar mais lenha na fogueira, muito pelo contrário, mas gerar uma reflexão pessoal e social, em opiniões que cabem o benefício da dúvida. Há uma falsa ideia, de que toda a vez que alguém seja contrário sobre determinado assunto, enveredamos pelo caminho da inveja ou do patrulhamento e não por ser um opinioso mas imparcial. Pensamento mais ambíguo. Até Nelson Rodrigues, enxergava na unanimidade, certo grau de burrice. Ou seja, se todos pensam iguais e sempre cordatos, há algo errado no Reino. Ou se sentem favorecidos ou confortáveis sendo conduzidos. Mas isso é pitaco pra outro dia. O que despertou minha atenção foi sobre o livro favorito de uma das mais influentes Jornalistas da televisão e divergentes opiniões, Os Miseráveis, de Victor Hugo. Como tudo que falo gosto de ter embasamento, em 31 de Julho de 2011, Rachel Sheherazade, concedeu uma entrevista ao Jornal ClicPB, de sua terra natal, onde respondeu a seguinte pergunta:

Você tem algum escritor favorito? "Gosto muito de literatura brasileira, mas não tenho um escritor preferido: são muitos. Fora do Brasil, admiro o Victor Hugo, especialmente pelo livro Os Miseráveis, verdadeira lição de vida e ética". Aí que começo a pensar, não que temos que ser coerentes o tempo todo, e de convicções absolutas, muito pelo contrário, uma metamorfose.

Quanto mais vivemos, o conhecimento se torna mais abrangentes, menos obstinados, ficamos. Mas qual seria essa verdadeira ética que ela se referia em 2011, se o livro apregoa opinião contrária do que ela emite expressamente. E comecei a rebuscar na memória sobre ele. Assisti a esse filme anos atrás, na primeira versão com o ator Liam Nielsen e conheço sobre Victor Hugo, além desta obra lida anos atrás também, “O Corcunda de Notre Dame” e um pouco de sua trajetória, fui buscar na memória sobre para um traçado aqui:

Resumindo, para não ficar muito longo o texto, e quem não leu o livro ou assistiu ao filme que ele gira em torno de alguns personagens importantes pra esclarecer:

*Jean Valjean, personagem principal em que gira a trama, condenado por roubar um pão, para alimentar sua irmã. Ele é posto em liberdade após dezenove anos de prisão. Rejeitado pela sociedade por ser um ex- presidiário, ao conhecer o Bispo Myriel muda sua vida por completo, pois lhe dá oportunidade de uma construir uma nova história. Ele assume uma nova identidade para seguir uma vida honesta, tornando-se proprietário de uma fábrica e prefeito.

*Bienvenu, Bispo de Digne (Charles-François- Bienvenu Myriel) - Um sacerdote idoso e gentil, que é promovido a bispo por um encontro casual com Napoleão. Ele salva Valjean de ser preso após roubar sua prata e o convence a mudar de comportamento. Bienvenu morre com 82 anos, cego.

*Fantine - A costureirinha parisiense abandonada com uma filha pequena pelo seu amante Félix Tholomyès. Fantine deixa sua filha Cosette aos cuidados dos Thénardiers, estalajadeiros em uma aldeia chamada Montfermeil. Infelizmente, Sra. Thénardier mima suas próprias filhas e abusa de Cosette. Fantine encontra trabalho na fábrica de Madeleine, mas a supervisora descobre que ela é uma mãe solteira e a demite. Para atender às exigências de dinheiro dos Thénardiers, ela vende o seu cabelo, e depois os seus dois dentes da frente e, finalmente, acaba na prostituição. Valjean tem conhecimento de sua situação quando Javert ia prendê-la por atacar um homem que a insultou e atirou neve em suas costas. Ela morre de uma doença que pode ser tuberculose antes que Valjean possa reuni-la com Cosette.

*Cosette (Euphrasie, Cotovia, Ursule, Senhora Pontmercy) - A filha ilegítima de Fantine e Tholomyès. Entre a idade de três a oito anos, ela é espancada e obrigada a trabalhar para os Thénardier.

* Javert - Um inspetor de polícia obsessivo que sempre persegue e perde Valjean. Ele se disfarça por trás da barricada, mas é descoberto e desmascarado. Valjean tem a chance de matar Javert, mas o deixa ir. Mais tarde, Javert permite que Valjean escape. Pela primeira vez, Javert está em uma situação na qual ele desrespeita a lei. Seu conflito interior leva-o a tirar sua própria vida, saltando para o rio Sena.

· Thénardier (Jondrette, Senhor Fabantou, Senhor Thénard) - Um estalajadeiro corrupto e sua esposa. Eles têm cinco filhos: duas filhas (Éponine e Azelma) e três filhos (Gavroche e dois filhos mais jovens não identificados). Eles cuidam de Cosette em seus primeiros anos, maltratando e abusando dela. Eles também escrevem cartas sobre Cosette a Fantine, a fim de extorquir dinheiro dela. Eles acabam por perder a pousada, devido à falência e se mudam para Paris, vivendo como os Jondrette. Senhor Thénardier está associado com um bando criminoso chamado Patron-Minette, mas ao contrário do que se pensa, ele não é o chefe, pois operam de forma independente. A família Thénardier também vive ao lado de Marius, que reconhece Thénardier como o homem que "salvou" seu pai em Waterloo. Eles são presos por Javert após Marius frustrar suas tentativas de roubar e matar Valjean na casa Gorbeau. No final do romance, com a senhora Thénardier morta na prisão, ele e Azelma viajam aos EUA com a ajuda de Marius, onde Thénardier se torna um traficante de escravos.

* Éponine - Filha mais velha dos Thénardier. Quando criança, ela é mimada por seus pais, mas acaba como uma menina de rua, quando chega à adolescência. Ela participa de crimes de seu pai e elabora esquemas para conseguir dinheiro.

* Deixei Marius e outros personagens símbolos da Resistência contra o governo, para não alongar o conteúdo.

Partindo das ações e juízo de valor dos personagens centrais, é possível identificar dois princípios de ética: A ética cristã pautada no humanismo, da compaixão e empatia. A ética materialista que demonstra uma sociedade egoísta e cruel, com a exclusão social. Enfim as duas vão se chocar o tempo todo. “As pessoas são divididas em duas categorias como define Victor Hugo, as das classes dos que têm e dos que não têm”. – e não há lutas entre as classes.

No caso o empreendedor assume o papel do governo, de prover as necessidades básicas do trabalhador, através de condições de trabalho. Ele tentava comprovar que as obras de caridade feita por indivíduos privados – e não pelo governo – ajudam os pobres. Na obra, ele demonstra que através de empreendedores habilidosos, como Jean, é possível acontecer, o que hoje chamamos de “terceiro setor” na sociedade. Ou seja ele não foi amarrado no tronco, mas acobertado pelo Bispo, que omitiu seu roubo, e infligindo nele a obrigatoriedade de ser honesto a partir daí.

Vale lembrar que o escritor não era adepto ao socialismo e nem o comunismo, mas de um espírito libertário, achava que o maior bem é a liberdade. “a liberdade é o bem mais precisos de toda a humanidade. Comida e água não são nada; vestimentas e abrigos são luxos. Quem é livre permanece com sua cabeça erguida, mesmo que esteja com fome, sem roupas e sem teto. Eu dedicarei a minha própria vida, o que quer que ainda reste dela, à causa da liberdade – liberdade para todos!”

Ele era contra a redistribuição de riquezas, com elas iria minguar o estímulo da produção. Era contrário ao ideal do comunismo e da reforma agrária, que visa distribuição de renda, pois defendia que a distribuição destrói a produtividade. A repartição em partes iguais mata a ambição e, por consequência, o trabalho. Portanto, é impossível tomar essas pretensas soluções como princípio. “Destruir riqueza não é distribuí-la" segundo Victor Hugo.

Digamos de passagem uma personalidade complexa e contraditória, como é descrita na sua biografia: Quando jovem, apoiara a monarquia francesa; mais tarde, veio a admirar Napoleão Bonaparte por supostamente defender os princípios da liberdade e igualdade. Quando tinha quarenta e nove anos, desafiou publicamente Napoleão III, o tirânico imperador. Em decorrência disto, veio a perder suas luxuosas casas, suas enormes coleções de antiguidades e sua esplêndida biblioteca de dez mil livros; mas ressurgiu como exilado eloqüente, que defendia a liberdade para todos os povos. No fim da sua vida – quando mais tinha o que perder – dedicou–se à causa da liberdade.

Em 1822, aos vinte anos, defendeu o Visconde François-René de Chateaubriand, um escritor francês famoso que entrara em conflito com o governo. Certa vez, ofereceu sua casa como refúgio para um amigo de infância que fugia da polícia. Durante a Revolução de 1848 na França Hugo saiu em meio aos tiroteios para pedir por um fim à violência.

Assim como o Jean Valjean em Os miseráveis, Victor Hugo ajudou os pobres com dinheiro do próprio bolso. Começou em casa, ajudando sua esposa, que tinha se afastado dele, e seus filhos, que não tinham muito dinheiros para si próprios. Ordenava a seu cozinheiro que alimentasse os mendigos que aparecessem na sua porta. Cada quinze dias, aos domingos, servia o “jantar das crianças pobres” para cerca de cinquenta jovens famintos do seu bairro. Em seus diários, abundam os exemplos de caridade pessoal. De acordo com o biógrafo André Maurois, durante seus anos mais prósperos, Victor Hugo chegava a gastar todo mês um terço de sua renda em obras de caridade.

E a questão é qual seria “ essa verdadeira ética” que a Jornalista se refere, meio paradoxal, com os pensamentos dela de agora. Nota-se que o escritor estimula uma sociedade livre, comprometida e transfere a responsabilidade para os empreendedores audaciosos, complacência para os contraventores e que a Igreja interfira na ética, sobrepondo a moral com a cristã e humanista. Ele não pede para quem está com pena “adotar um bandido” ou sair pelas ruas se defendendo da falta da ordem e segurança que assola o país. Mas que eles sejam incluídos socialmente, que muitas vezes são o que são por falta de oportunidade.

Que o papel de todos nós, é ser engajados, dar amparo aos menos favorecidos, suprindo suas necessidades, incluindo socialmente, através de oportunidades. “Se o governo é ineficaz, não supri e nem resolve os problemas ou carências sociais, que façam os do setor privado”. Coloca a ética cristã acima da ética moral e social, da crítica, do repúdio, exclusão e punição.

Afinal, não foi assim que o Bispo agiu, ao dar uma oportunidade ao ex – presidiário este assumiu um compromisso de honra “não me desaponte”. Ao mesmo tempo, ele mostra que para ser um déspota e imoral não precisam infligir a lei, como ocorre com os outros personagens da trama, que usam de chantagem, falsa moralismo e lei da vantagem se aproveitamento da vulnerabilidade alheia assim como a corrupção ao bel prazer.

Colocam o egoísmo e a desumanidade imperando acima do sentimento de justiça e equidade. Salve-se quem puder. Muitas vezes o que se diz moral não age com ética e o ético não age com valor moral. São duas coisas distintas, depende do juízo de valor e consciência moral de cada indivíduo. Como gato e rato, Jean e o policial vivem na trama.

Enquanto Jean considerado imoralmente, (Ele poderia matar o seu perseguidor), mas entende o papel do policial na sociedade, e não o faz, enquanto o policial fica dividido ao deixa-lo ir embora ao ter oportunidade de prender ou mata-lo depois. Ao deixa-lo livre, este por sua vez, não consegue se libertar do sentimento de ir contra seus valores morais, ao poupar a vida do Jean agora empreendedor e homem admirado na sociedade, colocando um final trágico para seu dilema.

E o meu dilema também afinal não compreendi qual seria a verdadeira ética que a jornalista se refere, pois a de Victor Hugo não manda a sociedade armar trincheiras, nem de autodefesa, mas que todos nós, inclusos socialmente, devemos criar mecanismos para diminuir as diferenças sociais. Ele narrou os males do poder do policial, lutou contra a pena de morte, atacou impostos, denunciou tiranos, opôs-se à guerra e expressou confiança na capacidade de um povo livre de alcançar progressos ilimitados. Como sempre julgue os senhores quem é que está com a lógica e razão, até mesma eu posso estar com a mente anuviada ou alguém está equivocado ou omisso no papel de cidadania.
*O pensamento de Victor Hugo, não reflete necessariamente o meu.

* sobre os personagens e Victor Hugo extraído do Site Literatura Universitária.