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terça-feira, agosto 04, 2026

Pollyanna entre o Jogo do Contente e a anatomia da dor

Quem nunca? Ouviu alguém usar o nome “Pollyanna” em alusão a uma pessoa ingênua ou com um otimismo cego? 

Capa Pollyanna -1913

Esse exemplo se tornou um dos principais clichês da literatura, mas a verdade por trás da obra original de Eleanor H. Porter é muito mais profunda e dramática do que pensamos e não apenas uma positividade tóxica.

Foi um dos primeiros livros que li na minha adolescência, emprestado pela irmã de uma vizinha, e compreendi-o quando adulta sob um olhar mais apurado na psicologia.

Frequentemente, o jogo é confundido com cegueira emocional, quando na realidade, o livro traz uma camada dramática profunda sobre luto, autoaceitação e frustração.

Na maioria das vezes, as pessoas utilizam o otimismo de Pollyanna e o seu “Jogo do Contente” como sinônimos de ingenuidade ou tolice. No entanto, basta um olhar mais apurado sobre a obra para perceber que a menina aprendeu, a duras penas, que a dor chega para todos — mesmo para os otimistas.

Para entender esse conceito, eis um resumo da obra sobre O Jogo do Contente, que foi criado pelo pai de Pollyanna, um missionário muito pobre, num período de extrema penúrias. Ao receber muletas de doação em vez da boneca que tanto desejava, a menina foi ensinada pelo pai a agradecer pelo fato de não precisar delas.

Aos 11 anos, a vida da menina muda drasticamente com a morte do pai; ela se torna órfã e tutelada por uma tia fria e distante. Para sobreviver a esse novo mundo hostil, Pollyanna faz do jogo uma ferramenta de resiliência, focando nas pequenas alegrias para não ser engolida pelas mazelas ao seu redor.

No entanto, ela sofre um acidente e perde o movimento das pernas. Diante da paralisia, ela entra em depressão e descobre que existem dores e medos que o jogo não consegue anestesiar. É desse sofrimento inesperado e da perda temporária do otimismo que Pollyanna descobre que não era imune à dor; ela apenas escolhia lutar contra o desespero.

Ao se ver vulnerável, a menina entende o peso de carregar a expectativa de ser o modelo de alegria para uma cidade inteira.

Ela finalmente se permite validar seus sentimentos negativos e lamber suas feridas ao chorar, sentir raiva e lamentar suas perdas. Descobre, assim, que a vulnerabilidade não é um fracasso, mas parte inerente da experiência humana.

Em uma inversão de papéis, a comunidade que antes a criticava se une para visitá-la, lembrando-a dos motivos para sorrir e apoiando-a em sua nova realidade. Pollyanna compreende, então, que ser forte também significa aceitar a própria fragilidade e o de ser acolhida também.

Pollyanna entende que ser forte também significa aceitar a própria fragilidade, carências e apoio para superar suas próprias vulnerabilidades. O pai de Pollyanna tentou amenizar a dura realidade que a menina enfrentava, para ela sofrer menos com suas perdas precoces e orfandade.

A tentativa do pai da menina ecoa nos versos da música “Traumas”, de Roberto Carlos. Na canção autobiográfica, o artista relembra o acidente de trem que sofreu aos 6 anos, que lhe custou parte da perna na infância. Ele narra que seu pai, na tentativa de aliviar o impacto da tragédia, omitiu a gravidade do que ele enfrentaria dali em diante. 

O músico conclui que o pai agiu assim por uma razão simples: o filho sofreria muito mais se perdesse a esperança. Afinal, como diz a letra, “às vezes as mentiras também ajudam a viver”.

Para ouvir a canção de Roberto Carlos, acesse: 

terça-feira, abril 30, 2013

Textos de júbilo em Pollyanna





Um trecho do diálogo entre o reverendo Paul Ford e a menina Pollyanna em "sermões e a caixa de lenha" para refletir, a menina se questiona o motivo que leva o pastor a ser tão duro em seus sermões, sempre a apontar os pecados, erros e incutir o medo nas pessoas, e o compara com os ensinamentos aprendidos por seu falecido pai, também um pastor.
— Gosta de ser pastor?
— Se eu gosto? — Mas que pergunta estranha! Por que perguntas isso, minha menina?
— Nada. Pelo modo como olhava. Fez-me lembrar o meu pai. Ele costumava ter esse ar, às vezes.
O homem sorriu tristemente.— E o que é que ele dizia? — Claro que ele dizia sempre que sim, mas dizia também que não continuaria a ser pastor nem mais um minuto se não fosse por causa dos “textos de júbilo”.


— Era assim que o pai costumava chamar-lhes — disse ela a rir. — É claro, que a Bíblia não lhe chama assim, mas são todos aqueles que servem para animar e reconfortar as pessoas: Uma vez quando o pai se sentiu muito triste contou-os. Havia oitocentos textos desses.
— Oitocentos?
— Sim, textos que dizem às pessoas para ficarem contentes, para se alegrarem. Era a esses que o pai chamava “textos de júbilo”. — Ele dizia que se sentia logo melhor quando os contava. Dizia que se Deus se deu ao incômodo de nos dizer oitocentas vezes para ficarmos contentes e alegres era porque queria que nós também o disséssemos uns aos outros.

"O que as criaturas querem é encorajamento. Em vez de censurar constantemente os defeitos dum homem, falai às suas virtudes. Procurai tirá-lo da senda dos maus hábitos. Sustentai, fortificai o melhor do seu eu, a parte boa que não ousou ou não pode ainda manifestar-se. A influência dum belo caráter é contagiosa, e pode revolucionar uma vida inteira... As criaturas irradiam o que trazem no cérebro e nos corações. Se um homem se mostra gentil e serviçal, os seus vizinhos pagarão na mesma moeda e com juros...Quem procura o mal, esperando encontrá-lo, certo que o encontra. Mas quando alguém procura o bom, certo de encontrá-lo, encontra o bom".

— Deus que me ajude. – vou tentar! exclamou animadamente o pastor. Em seguida tomou as notas já escritas, rasgou-as e lançou-as para o ar, de modo que no chão, dum lado da cadeira, se podia ler: “A maldição eterna desça sobre voz” e do outro lado: “escribas, fariseus e hipócritas” e foi assim que o reverendo Paul Ford pronunciou no domingo um sermão famoso, verdadeiro toque de clarins em apelo ao que havia de melhor no imo de cada homem, de cada mulher, de cada criança que o ouviu.







Nota:
Pollyanna é um romance de Eleanor H. Porter publicado em 1913 e considerado um clássico da literatura infantojuvenil, republicado nos anos 90, narra a menina órfã que através do "Jogo do Contente" ensinado por seu pai, desenvolve sempre uma atitude otimista, mediante o pessimismo e os intempéries da vida.

Moral da História: “Não posso imaginar um Deus a recompensar e a castigar o objeto de sua criação." Albert Einstein.