Loira do bem ∞ : 11/02/14

domingo, novembro 02, 2014

Pitaco Leitura: IdenTIdAde HUMAnA (uM novo olhar sobre a vida)

“Palavra puxa palavra, uma ideia traz outra, e assim se faz
um livro, um governo, ou uma revolução, alguns dizem que
assim é que a natureza compôs suas espécies.” Machado de Assis.
Imagem: Internet.
O Prêmio nobel de Literatura Hermann Hesse, em seu livro O lobo da estepe, de maneira magistral explica a dUPLA idEnTidAdE dO SER HUMAnO: gregário por um lado e rebelde por outro.
“Harry é uma pessoa, também chamada de o lobo da estepe. Andava sobre os dois pés, levava roupas e era um homem, mas no fundo era, na verdade, um lobo da estepe.
Havia aprendido muito do que as pessoas com bom entendimento podem aprender e era um homem muito inteligente. Mas não havia aprendido uma coisa: estar satisfeito consigo mesmo e com a sua vida. isso ele não pôde conseguir.”Talvez isso derivasse do fato de que no fundo do seu coração soubesse (ou acreditava saber) que não era realmente um ser humano, mas um lobo da estepe. O ser humano é um animal, com origem características da liberdade da natureza (que nunca nos julgava e se beneficiava do natural), que necessitou viver em matilha para defesa própria e da espécie, mesmo sem saber viver respeitando seu grupo social. No processo de humanização, esse ser natural tornou-se o “homem da caverna”, e agora colocaram nesse homem natural um outro homem, que se diz civilizado, para conviver com diferentes sentimentos, instintos e aprendizados. Foi estabelecido um conflito que nunca mais iremos conseguir entender – até por falta de real interesse – e nos libertar.

A maioria das pessoas não sabe de nada do que acontece na sociedade onde vive e nem sabe que não sabe. Ou, quando sabe que não sabe, prefere continuar não sabendo, por comodidade, acreditando assim não precisar se transformar, esquecendo que tudo se transforma, mesmo não querendo se transformar. ninguém consegue ser o mesmo o tempo todo, pois dependemos sempre das circunstâncias. Essa luta entre o homem e a besta é um desafio constante, até insano, às vezes. Onde se misturam: realidade, imaginação e sensações. Por isso, olhando bem de perto, ninguém é normal (já sugeria a canção de Caetano).
Somos uma besta coberta por uma sensível camada de educação, ou um homem civilizado com resquícios naturais de uma besta?

SOMOS GREGáRiOS POR nECESSidAdE... REBELdES POR VOCAÇÃO.
Imagem: Anatol Knotek
O homem, antes de ser “aquele que sabe” (homo sapiens), sempre teve uma história interessante de relacionamento com o lobo. Há significativos registros históricos, até retratados no cinema, no filme Dança com lobos, de Kevin Costner. Manter o lobo interior possibilita-nos enfrentar sozinhos as nossas dificuldades e refugiar-nos em nossa própria força interior, que deve ser  desenvolvida e aprimorada. Schopenhauer
disse: “O que temos dentro de nós é essencial para a felicidade humana”.

Saber que precisamos estar dentro da matilha é um fato importante, como proteção e aprendizado, mas procurando, nunca nos tornarmos uma cópia de alguém (os outros podem nos servir apenas como exemplo), mesmo porque quem permanece é o original. de vez em quando, necessitamos estar só, separados do grupo, para refletirmos e buscarmos nos tornar pessoas originais. Somente assim conseguimos viver as duas vidas que se completam entre si: GREGá-RiOS e REBELdES. ninguém é só bonzinho. não podemos ser escravo da própria identidade, portanto, toda vez que surgir uma oportunidade de mudança, é preciso pensar para aceitar, se transformar e mudar, mantendo
os princípios fundamentais.
A identidade humana tem como principal característica a singularidade, e, pensando na individualidade das pessoas, podemos concluir que todo indivíduo é ao mesmo tempo
indivíduo e humano. O que possibilita cada um ser diferente dos outros e, ao mesmo tempo, sermos tão parecidos uns com os outros. Existem bilhões de pessoas, que podem
ser agrupadas em pouco mais de meia dúzia de histórias.
“O que reúne e atraí as pessoas não é a semelhança ou identidade de opiniões, senão a identidade do espírito, a mesma espiritualidade ou maneira de ser e entender a vida.”
(Marcel Proust)

Trecho do Livro: Copyright© 2014 por Sergio Mingrone Título Original: Palavras sinceras sobre medo - desejos -  conquistas - prazeres (Um novo olhar sobre a vida).

Pitaco Filosofia: Diógenes, o Cínico - Cidadão do Mundo.



Diógenes sentado em seu barril cercado por cães. Pintura de Jean-Léon Gérôme (1824 – 1904), 1860.

Diógenes de Sínope, (404 ou 412 a.C. – c. 323 a.C.), também conhecido como Diógenes, o Cínico, foi um filósofo da Grécia Antiga e considerado um importante precedente da vertente libertária conhecida como Anarcoindividualismo.1 Os detalhes de sua vida são conhecidos através de anedotas (chreia), especialmente as reunidas por Diógenes Laércio em sua obra Vidas e Opiniões de Filósofos Eminentes.

Diógenes foi exilado de sua cidade natal e se mudou para Atenas, onde teria se tornado um discípulo de Antístenes, antigo pupilo de Sócrates. Tornou-se um mendigo que habitava as ruas de Atenas, fazendo da pobreza extrema uma virtude. Diz-se que teria vivido em um grande barril, no lugar de uma casa, e perambulava pelas ruas, na mais completa miséria, carregando uma lamparina, durante o dia, alegando estar procurando por um homem honesto. Eventualmente se estabeleceu em Corinto, onde continuou a buscar o ideal cínico da autossuficiência, ou seja: uma vida que fosse natural e não dependesse das luxúrias da civilização. Por acreditar que a virtude era melhor revelada na ação e não na teoria, sua vida consistiu de uma campanha incansável para desbancar as instituições e os valores sociais, do que ele via como uma sociedade corrupta. 

Diógenes desprezava a opinião e reza a lenda que seus únicos bens eram um alforje, um bastão e uma tigela (que simbolizavam seu desapego), sendo conhecido também, talvez pejorativamente como kinos, o cão, pela forma como vivia.

É famosa uma passagem com Alexandre, o Grande, que, ao encontrá-lo, ter-lhe-ia perguntado o que poderia fazer por ele. Acontece que devido à posição em que se encontrava, Alexandre fazia-lhe sombra. Diógenes, então, olhando para a Alexandre, disse: — Não me tires o que não me podes dar! (variante: — Afasta-te do meu Sol). Esta resposta impressionou vivamente Alexandre, que, na volta, ouvindo seus oficiais zombarem de Diógenes, disse: — Se eu não fosse Alexandre, queria ser Diógenes.(*)

Outra história famosa é a de que, tendo sido repreendido por estar se masturbando em público, simplesmente exclamou: — Oh!, mas que pena que não se possa viver apenas esfregando a barriga!

Outra história ainda é a de que, um dia, Diógenes foi visto pedindo esmola a uma estátua. Quando lhe perguntaram o motivo de tal conduta, ele respondeu: — Por dois motivos: primeiro, é que ela é cega e não me vê; e segundo, é que eu me acostumo a não receber algo de alguém e nem depender de ninguém.

Enfim, como afirmou Ambrósio Preters, Diógenes foi um religioso sem religião – um cristão sem Cristianismo, um essênio sem o Essenismo, um maçom sem Maçonaria.

Pensamentos de Diógenes

Não sou nem ateniense nem grego, mas, sim, um cidadão do mundo.

Homem Vitruviano2

Sou uma criatura do mundo ('kosmopolite'), e não de um estado ou uma cidade ('polis') particular.

Um pensamento original vale mil citações insignificantes.

Procuro um verdadeiro homem.

Na casa de um rico não há lugar para se cuspir, a não ser em sua cara.

Discurse sobre a virtude, e eles passarão como rebanho. Assobie e cante, e terás uma plateia.

Para que serve um filósofo, se não para machucar os sentimentos de alguém?

Os piores escravos são aqueles que estão servindo constantemente às suas paixões.

Se o corpo chamasse a alma perante a justiça, ele a convenceria facilmente de má administração.

Qual o melhor momento para o jantar? Se alguém é rico, quando quiser; se é pobre, quando puder.

O insulto desonra a quem injuria, não a quem o recebe.

Entre os ricos e os pobres de espírito há pouco espaço.

Em cada arrogância espreita a sombra da nossa vergonha.

A calúnia é apenas o ruído de loucos.

Temos duas orelhas e uma língua. Deveríamos ouvir mais e falar menos.

Os líderes sábios têm, geralmente, conselheiros sábios.

Não sei se há deuses, mas deveria haver.

Eu não sei nada, exceto o fato da minha ignorância.

Por que não chicotear o professor quando o aluno se comporta mal?

Há apenas um dedo de diferença entre um sábio e um tolo.

Ninguém é ferido, a não ser por si mesmo.

Diógenes entrou em seu barril, e, vigorosamente, rolou na calçada. Quando perguntado por que ele havia feito aquilo, ele respondeu: — Apenas para me fazer parecer tão ativo quanto o resto de vocês.

A vida não é uma mal; mas viver mal, sim, isto é um mal.

Por que, então, você vive, se você não se importa em viver bem?

Eu lhe perguntei se ele sabia os meios para manter o corpo e a alma juntos, de tal forma a não os separar nunca.

Ao ser perguntado como alguém poderia se tornar famoso, Diógenes respondeu: — Preocupando-se o mínimo possível com a fama.

Os cães e os filósofos fazem o maior bem e obtêm o menor número de recompensas.

A maioria dos homens está à distância de um dedo de se tornarem loucos.

Eu joguei minha caneca fora quando vi uma criança beber com suas mãos na gamela.

Quando olho para os marinheiros, para os homens de ciência e para os filósofos, penso: o homem é o mais sábio de todos os seres. Quando olho para os sacerdotes e para os profetas, penso: nada é tão desprezível como o homem.

O homem é o mais inteligente dos animais – e o mais bobo.

Eu ainda tenho a minha lanterna.

Por uma questão de autopreservação, o homem precisa de bons amigos e de inimigos fervorosos; os primeiros, para instruí-lo, e os segundos, para estimulá-lo a cumprir suas tarefas.

Em certa ocasião, Diógenes vendo uma mulher prostrada em oração com a cabeça no nível do chão, chegou-se a ela, interrompeu-a em seu ato religioso, e lhe disse: —Não tens medo de que possa estar atrás de ti um desses tantos deuses que dizem haver por aí?

De outra vez, ao ver o filho de uma cortesã atirando pedras contra uma multidão, lhe disse: — Cuidado, não vás acertar teu pai.

Um dia, perguntaram a Diógenes em que lugar da Grécia havia visto homens bons. Ele respondeu: — Homens bons não vi em parte nenhuma; mas vi crianças na Lacedemônia.

Em uma ocasião, Diógenes clamava: — Homens! Homens! Acudiram vários, mas ele os dispersou à pauladas, proferindo: — Pedi homens, não excrementos!

Quando lhe disseram 'os sinopenses condenaram-te ao desterro', Diógenes respondeu: — E eu os condenei a lá ficarem.

A um homem que lhe disse que toda a gente se ria dele, Diógenes respondeu: — E, se calhar, também os burros se riem dessa gente toda, mas nem eles prestam atenção aos burros nem eu a eles.

Perguntaram a Diógenes o que havia feito para ser chamado de cão. A resposta foi: — Balanço a cauda alegremente para quem me dá qualquer coisa, ladro para os que recusam e mordo os patifes.

Seria ótimo se pudéssemos aplacar a fome esfregando o estômago.

Grandes ladrões afastam os pequenos.

Os deuses concederam aos homens fáceis meios de vida, mas os esconderam da vista humana.

Quando eu morrer, me joguem aos cães. Eu já estou acostumado.
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Notas:
1. O Anarquismo Individualista (ou Anarcoindividualismo) é uma tradição filosófica do Anarquismo com ênfase no indivíduo e na sua vontade, argumentando que cada um é seu próprio mestre, interagindo com os outros através de uma associação voluntária.

2. O Homem Vitruviano (ou Homem de Vitrúvio) é um conceito apresentado na obra Os dez Livros da Arquitetura, escrita pelo arquiteto romano Marco Vitruvio Polião (século I a.C.), do qual o conceito herda no nome. Tal conceito é considerado um cânone das proporções do corpo humano, segundo um determinado raciocínio matemático e baseando-se, em parte, na Divina Proporção (valor arredondado a três casas decimais = 1,618). Desta forma, o homem descrito por Vitrúvio apresenta-se como um modelo ideal para o ser humano, cujas proporções são perfeitas, segundo o ideal clássico de beleza, cultuado particularmente no Renascimento.
Reproduzido do Site: http://paxprofundis.org

Em tempo: (*) Alexandre também respondeu a Diógenes: “- Não sou eu que te faço sombra.”