Neste texto, há uma ponte que une o "juridiquês", o filme "Um Homem Abandonado" (Netflix) e a nossa rotina de cobranças.
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| Imagem: Netflix. |
Termos como “Dosimetria”, “Estado Democrático de Direito”, parecem restritos aos tribunais e ao Congresso.
Entretanto, para quem está na rua — no mercado, no táxi ou no consultório —, esses conceitos soam distantes. No entanto, eles afetam diretamente as nossas vidas.
Entretanto, para quem está na rua — no mercado, no táxi ou no consultório —, esses conceitos soam distantes. No entanto, eles afetam diretamente as nossas vidas.
Essa comunicação difícil lembra um meme clássico sobre Shakespeare conversando com sua mãe: — “Que seja dito a quem me deu à luz que no meu estômago prevalece um vazio!” — “Oh, por amor de Deus, Shakespeare! Basta dizer: mãe, tenho fome!”
Falar simples não significa “empobrecer” a linguagem formal ou os ritos jurídicos, mas trazer essas informações de entendimento fácil para que o povo no geral possa compreender como tudo funciona.
Afinal, só é possível almejar mudanças quando compreendemos as causas e os efeitos que, através dessas decisões, afetarão diretamente a sociedade.
É o caso da Dosimetria da Pena. Para entender na prática: sabe quando dois irmãos fazem a mesma bagunça, mas os pais dão um castigo leve para um e trancam o outro no quarto o dia todo?
A dosimetria deveria ser a régua para evitar isso; é o cálculo que o juiz faz para definir o tamanho de uma punição.
Muitas vezes, essa dosimetria não está atrelada apenas a critérios técnicos, mas sofre influências do contexto social e político.
Na prática, a medida dessa régua não deve ser mais severa com o jovem da periferia do que com um jovem da elite. Ter uma clareza maior sobre isso é o que nos permite entender se a justiça, em determinados momentos, está sendo seletiva.
Essa dinâmica da punição e do impacto social se reflete perfeitamente no filme turco Um Homem Abandonado (Netflix), dramático e envolvente. Na trama, o protagonista Baran assume a culpa por um crime cometido pelo irmão, imposto pelo pai.
Ele cumpre uma “pena” por algo que não fez e, mesmo após sair da prisão, a sociedade e a própria família continuam aplicando “dosimetrias emocionais” e punições invisíveis sobre a sua vida.
Olhando pela Psicologia Social, percebe-se que a sociedade atual perdeu a mão na “dose”.
É o que mostra a obra Sociedade do Cansaço, de Byung-Chul Han: hoje, nós mesmos fazemos a nossa própria dosimetria. Calculamos e aplicamos doses em excessos de cobrança e desempenho, o que nos leva ao esgotamento físico e mental.
Acabamos exagerando na dose de isolamento — como o personagem Baran no início do filme, mas convenhamos motivos não faltaram mediante a injustiça sofrida— e na dose de produtividade exigida pelo mundo moderno, esquecendo da única “dose” capaz de curar: a de afeto.
