quarta-feira, março 10, 2010

Idolatria sobe medida

Não se tem notícia de quando o fanatismo começou no mundo da música, mas quem o fez inesquecível foi sem dúvida Elvis Presley, que na década de 1950 incendiava a plateia de seus shows com sua ginga e reboladas infalíveis. Alguns anos depois foi a vez de o mundialmente conhecido quarteto de Liverpool The Beatles arrancar suspiros e gritos histéricos por onde passava. Resta saber: são as músicas, os músicos, as letras ou o visual que conquista os fãs? Ou a soma de tudo isso?

Idolatria x fanatismo

O psiquiatra Paulo Issa acredita que o lado positivo da idolatria é se ter uma fonte de inspiração, que pode dar forças para alguém buscar seu objetivo preenchido com sentimentos como orgulho e admiração. “Mas ao mesmo tempo, pode ser uma projeção do que se gostaria de ser e talvez nunca vá alcançar, trazendo também uma sensação de fracasso”, pondera. 
Já o fanatismo não é visto com bons olhos. “Em todos os aspectos, é negativo. O fanatismo cega, torna ignorante, ultrapassa os limites da racionalidade, sendo prejudicial em todos os sentidos”, enumera Issa.

O psicólogo Fabrício Vianna diz que existe uma grande diferença entre ter alguém para se espelhar e ter um ídolo. “No primeiro caso, você admira alguns pontos e quer aquilo para si. No segundo, você praticamente projeta todo seu eu no outro e fica sem personalidade, ‘perde a cabeça’, ama cegamente alguém que muitas vezes sequer conhece ou irá conhecer”, explica. Vianna acredita que a pessoa se projeta no nível da fantasia, com uma mistura e projeção absurdamente grande de sentimentos e nós afetivos.

Quando o fanatismo se torna doença

De acordo com Vianna, o fanatismo vira doença quando a pessoa projeta praticamente todo o seu eu no outro. “Ela passa a viver a vida do outro e esquece a sua. Isso acontece também no cotidiano: há casos em que mães amam tanto seus filhos que param de viver sua vida e passam a viver em função deles, e a mesma coisa acontece com outros relacionamentos”, explica

Para ele, tanto no fanatismo quanto na religião existe a busca externa de algo, porque o ser humano tem essa fragilidade. “Nossa sociedade constrói indivíduos incompletos, que sentem a necessidade de se completarem introjetando valores e conteúdos internos na sua personalidade. Quanto mais incompleto, mais a necessidade de agregar algo junto a si. Como no Brasil o índice de pobreza é grande e a falta de informações corretas sobre crescimento pessoal é quase zero, não é de se estranhar esse fanatismo”, completa.

No entanto, muitas pessoas não percebem que o fanatismo pode prejudicá-las. Nesse caso, o psicólogo tem uma receita simples: “Se não faz mal pra si, e não faz mal para o outro, qual o problema? Se faz, aí sim, é preciso parar e repensar sobre o assunto”.


A revista Scientific American publicou uma pesquisa desenvolvida por Lynn McCutcheon, da DeVry University de Orlando, Flórida, e James Houran, da Southern Illinois University, em Springfield. Estudando o comportamento de cerca de 600 pessoas, os cientistas classificaram os diferentes graus de dependência criados entre os fãs, e as celebridades que eles cultuam.

Estes graus variam do simples interesse por acompanhar o que acontece na vida destas celebridades por puro entretenimento, até aos casos patológicos, onde o fanatismo transforma-se em doença, e o fã assume atitudes perigosas ou até mesmo um comportamento criminoso.

Exagerados ou não, ao dados das pesquisas são apenas mais um instrumento para quem tenta entender um estilo de vida que envolve atitudes variadas e muitas vezes arriscadas, mas quase sempre, movidas por um amor e uma dedicação que não medem esforços.

Segundo o dicionário Aurélio, fã, é uma redução da palavra inglesa fanatic, fanático, em português. E o verbete é definido como admirador exaltado de certo artista de rádio, cinema, televisão, etc.

Mas ser fã não caracteriza necessariamente uma patologia, pelo menos é o que diz a psicóloga Silvana D'Avino Portugal, para ela "Desde que não coloque em risco a vida de alguém, não ultrapasse limites, ou não interfira na individualidade das pessoas. Não é problema ser fã, e sim a forma como as pessoas se comportam para expressar a admiração."

Para a psicóloga Silvana D'Avino Portugal são inúmeros os motivos que levam uma pessoa a tornar-se um fanático; isso pode acontecer por conta "de frustrações, inseguranças, falta de autoconhecimento, carência afetiva, entre outros, dependendo das vivências existenciais de cada um.


A pessoa usa do mecanismo de projeção para se realizar através de outra pessoa; projeta sucesso, força, beleza, entre outros atributos. A pessoa não tem condições pessoais para se auto realizar, por motivos diversos de cada um ou até mesmo desconhece suas potencialidades, então projeta características que gostaria de ter ou que desconhece ter ou até mesmo, que "acha" importante ter. Acaba desenvolvendo ansiedade e/ou depressão, porque de alguma forma vai percebendo, de forma inconsciente ou não, que existe um vazio e que tenta preencher com aspectos de outra pessoa, só que esse vazio não é preenchido porque quem tem esses atributos é o outro."

Entretanto, Silvana D'Avino Portugal não considera a indústria do entretenimento como a maior responsável pela alimentação do fanatismo; "acredito que essa indústria somente aproveita do fanatismo das pessoas para vender seus produtos. Cada pessoa, por si só, alimenta o fanatismo, segundo os seus aspectos psicológicos."

Fonte: http://www.revistaeletricidade.com.br

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