quinta-feira, setembro 25, 2014

Filosofia: ESTA TAL POLIDEZ

"Pouca sinceridade é uma coisa perigosa, e muita sinceridade é absolutamente fatal" já dizia Oscar Wilde. "Polido demais para ser honesto”, diz-se então, pois a honestidade às vezes impõe ser desagradável, chocar, trombar. Mesmo honestos, aliás, muitos ficarão a vida toda como que prisioneiros de suas boas maneiras, só se mostrando aos outros através da vidraça – nunca totalmente transparente – da polidez, como se tivessem confundido de uma vez por todas a verdade e o decoro. No estilo certinho, como se diz hoje em dia, há muito disso. – é melhor ser honesto demais para ser polido do que polido demais para ser honesto!. Trecho A polidez | André Comte-Sponville.

“A polidez nem sempre inspira a bondade, a equidade, a complacência, a gratidão; mas, pelo menos, dá-lhes a aparência e faz aparecer o homem por fora como deveria ser por dentro.”―Jean de la Bruyere -moralista francês. “Polidez é inteligência; consequentemente, impolidez é parvoíce. Criar inimigos por impolidez, de maneira desnecessária e caprichosa, é tão demente quanto pegar fogo na própria casa.” ―Schopenhauer. Tem um ditado português que diz assim "por fora bela viola, por dentro pão bolorento", ou seja, pessoas que vivem de aparências. Creio eu que se enquadra muitas vezes nesta tal polidez. Nota-se que Comte, Bruyere e Schopenhauer, tem opiniões não convergentes. Enquanto Comte, afirma que a polidez, muitas vezes é um estado comedido para demonstrar socialmente boas maneiras, mas que ao mesmo tempo nos deixa frustrados, "omitimos na maioria das vezes", o que realmente pensamos e sentimos.

Bruyere e Schopenhauer, quase se convergem, o primeiro acha que a polidez se fosse verdadeira, seria uma virtude ideal e admirável, tendo em vista que na maioria das vezes, é praticada pelo cinismo e a hipocrisia. Nada mais que um disfarce. Schopenhauer já acha que a dissimulação e o jogo de cintura é o melhor caminho, para evitar desafetos e se dar bem socialmente. Enfim, para con (viver) socialmente precisamos usar de perspicácia, um pouco de cinismo, uma dose de dissimulação e adotando máscaras de acordo com a situação. Porque estamos mais propícios a aceitar um falso elogio, uma adulação vulgar e bajulação barata, do que valorar a autenticidade e a sinceridade. Assim vamos nós, de omissão em omissão, em reuniões, diálogo com o vizinho, o patrão, o casal, relações pessoais, amizades, dissimulando sempre. Falamos somente aquilo que a nossa vaidade e ego almejam ouvir. Muitas vezes quando abrimos os nossos olhos, desapontamos porque não tivemos o devido respeito por nós mesmos, em não permitir em faltar com a verdade e a sinceridade.  


Rousseu coloca mais lenha na fogueira ainda "Ninguém mais ousa parecer aquilo que é; e, nesse constrangimento perpétuo, os homens que formam esse rebanho chamado sociedade colocados nas mesmas circunstâncias farão todos as mesmas coisas, se motivos mais poderosos não os desviarem. Jamais saberemos bem a quem nos dirigirmos: precisamos pois, para conhecer um amigo, esperar as grandes ocasiões, isto é esperar que não haja mais tempo, pois que é precisamente nesse tempo que seria essencial conhecê-lo". Ao adorar a postura social, do protocolo politicamente correto, caímos no infortúnio da dúvida gerada, até onde vai e termina a sinceridade em relação ao outro. Se não passa de uma simples adulação, bajulação envolvidas por interesses e convenciência apenas.
Ainda prefiro a acidez de Nietzsche: — "A palavra mais ofensiva e a carta mais grosseira são melhores e mais educadas que o silêncio".

Imagens: reprodução internet.