Loira do bem ∞ : 07/10/10

sábado, julho 10, 2010

Pitaco de Loira: Mulher Perdigueira.














PAULA DUME
colaboração para a Livraria da Folha .

"Na paixão, todo mundo mente e jura que é moderno", diz Carpinejar.

Possessiva, escandalosa, preocupada e apaixonante. A mulher que ninguém quer, à primeira vista, é a que o escritor Fabrício Carpinejar deseja.

 Em entrevista à Livraria da Folha, Carpinejar --melhor cronista do tradicional prêmio Jabuti no ano passado-- poupou os desequilíbrios da mulher perdigueira ao afirmar que louco é quem não demonstra sua necessidade. "Todos comentam os efeitos colaterais da passionalidade, mas esquecem o lado positivo: a ternura, a cumplicidade, o amparo, a atração química e a amizade indestrutível", disse.

O escritor delineou as principais características das mulheres consideradas "perdigueiras". Pontuou que o avesso desse tipo feminino é a que se utiliza do "coitadismo", chamada de "mulher-vítima".

Mulher Perdigueira não finge equilíbrio, pois entende que o amor é puro desequilíbrio. É discutir, incomodar, provocar e apenas encontrar a paz com os pés enlaçados debaixo dos lençóis. Hoje existe uma castração do temperamento, fingimos controle, exalamos sobriedade. Tudo conversa fiada, cartão de visita. Saúde emocional é explodir na hora certa do que guardar rancor. Tudo o que não foi dito no momento terá depois o juro da desconfiança e os casais terminam falindo pelas incertezas polidas. Temos que tomar cuidado para não confundir silêncio com omissão. Parece um absurdo fazer algo pelo outro, soa como burrice, como renúncia. Vejo como cuidado. A dominação --saber quem dá mais ou quem dá menos-- é inútil para os dois que já se entregaram completamente a um relacionamento.

A mulher contrária a perdigueira é a mulher-vítima. Que diz ao filho que deixou de viver para cuidá-lo, que diz ao marido que deixou seus sonhos para casar. É aquela que não assume nenhuma responsabilidade sobre suas escolhas. Vive no passado, imersa no coitadismo. Bem diferente da perdigueira, que está enraizada no presente e na demonstração de suas vontades.

O que posso assegurar é que adoro a coragem da opinião, a franqueza do hábito. Os mornos podem ficar com a posse, a possessão é para quem entra no inferno ou no paraíso. O universo feminino é melhor do que a asma: me tira o fôlego.

O autor dá uma dica para os homens:Não existe mulher perdigueira no primeiro encontro. Na paixão, todo mundo mente e jura que é moderno. Ela surgirá na convivência, na retratação da personalidade com a chegada do amor.

Carpinejar descreve como é a chamada "mulher perdigueira", que dá nome ao livro:

Quero uma mulher perdigueira, possessiva, que me ligue a cada quinze minutos para contar uma ideia ou uma nova invenção para salvar as finanças, quero uma mulher que ame meus amigos e odeie qualquer amiga que se aproxime. Que arda de ciúme imaginário para prevenir o que nem aconteceu. Que seja escandalosa na briga e me amaldiçoe se abandoná-la. Que faça trabalhos em terreiro para me assustar e me banhe de noite com o sal grosso de sua nudez. Que feche meu corpo quando sair de casa, que descosture meu corpo quando voltar. Que brigue pelo meu excesso de compromissos, que me fale barbaridades sob pressão e ternuras delicadíssimas ao despertar. Que peça desculpa depois do desespero e me beije chorando. A mulher que ninguém quer eu quero. Contraditória, incoerente, descabida. Que me envergonhe para respeitá-la. Que me reconheça para nos fortalecer.

fonte:http://www1.folha.uol.com.br/folha/livrariadafolha/740304-cronista-vencedor-do-jabuti-descreve-como-e-a-mulher-perdigueira-em-livro.shtml