quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Gentileza e simplicidade

Há alguns meses,estava eu numa lanchonete quando vi,do outro lado de uma pesada porta de vidro,um casal se aproximando com bandejas nas mãos.Vendo a sua dificuldade em abrir a porta com as mãos ocupadas,e vendo que ninguém ali no recinto esboçara qualquer atitude,saí da mesa em que estava sentado confortavelmente e puxei a porta para que os dois passassem.Passaram.

E eu fiquei esperando um agradecimento qualquer,por tímido que fosse.Mas que nada!... Tempos depois, na recepção de um hotel,abri a porta para uma senhora que carregava sua mala com certo sacrifício e,de novo,nem um mísero "obrigado"ouvi.

Não que eu tenha feito tais favores com a intenção de ser laureado,com condecoração em praça pública,chave da cidade,comenda,quermesse e festa no sambódromo,mas penso que é muito alentador ouvir agradecimentos quando se presta um favor a alguém.

Instaura-se uma tal atmosfera de "amistosidade" que,ainda que por um momento,nos dá a esperança de viver num mundo mais gentil,menos bárbaro.

Dar a vez no trânsito é um gesto com mais poder transformador que qualquer manifestação na porta do Congresso.

Conto essas histórias para ilustrar a minha percepção de que hoje as pessoas raramente agradecem,talvez porque entendam a gentileza apenas no contexto dos serviços.O porteiro que carrega a mala,a recepcionista que dá a informação,o taxista que abre a porta,a aeromoça que retira a mala do bagageiro...A gentileza é um serviço,não um gesto espontâneo e desinteressado,logo agradecer seria um detalhe, não uma obrigação.

Gosto de fazer favores,como gosto de agradecer.Dar a vez no trânsito hoje em dia é um gesto com mais poder transformador que qualquer manifestação na porta do Congresso ou passeata na Paulista."Gentileza gera gentileza",disse o folclórico profeta contemporâneo.E gratidão é nobreza,costuma dizer um amigo,filósofo de padaria.

Zapeando a tevê dia desses, vi por acaso matéria sobre a São Paulo Fashion Week, disputado evento da moda brasileira,cujo emblema de alta-costura ganhou status de alta cultura nos dias que correm.

Lá pelas tantas a repórter entrevistava personalidades para falarem da grande tendência do momento:a simplicidade.Diziam elas:"Superprodução é fake,o lance é se vestir com simplicidade";"tem que ser básico,nada de figurinos superproduzidos"; "simplicidade é a palavra"...

Bem, concluo então que as pessoas agora se produzirão para parecerem simples,o que vai de encontro à real idéia de simplicidade.No dicionário, entre muitos sentidos da palavra "simples",há: "que evita ornamentos dispensáveis ou afetação" e "desprovido de elementos acessórios",tudo o que a moda não pode ser.



*Zeca Baleiro é cantor e compositor.
http://www.terra.com.br/istoe/edicoes/2018/artigo94880-1.htm

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