quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

De Profundis - de Oscar Wilde.


Foto: reprodução Internet - Wilde e Lord Douglas.
Adoro Oscar Wilde sem dúvida, um dos maiores escritores do século, através de sua genialidade, perspicácia e sobretudo sua "lingua afiada" forma poética e cínica, ousava contradizer a hipocrisia da sociedade, da época [ da qual não está tão diferente de lá pra cá]... e suas atitudes, claro, eram consideradas um tanto quanto audaciosas, irreverentes e até amorais, desafiariam ainda mais a aristocracia inglesa quando sua vida pessoal, passou a ser motivo de imoralidade pública, pois sabiam de sua opção sexual, mas era velada até então, e eram todos os seus bajuladores.

"De Profundis", foi uma carta escrita a Lord Douglas (“Bosie”, como Wilde costumava chamá-lo) durante os dois últimos meses de cárcere, em que durante seu período na prisão, repensou sobre as atitudes e ações que o levaram ao estado de letargia, sofrimento e decadência moral, social e financeira, pelos mesmos que até então, o reverenciavam em toda a sua genialidade.
Nas palavras de Wilde: "Pouca sinceridade é uma coisa perigosa, e muita sinceridade é absolutamente fatal". ou seja pagou o preço alto demais por isso, por não temer as contradições.

A seguir a introdução...

"É preciso que eu diga a mim mesmo que fui o único responsável pela minha ruína e que ninguém, seja ele grande ou pequeno, pode ser arruinado exceto pelas próprias mãos. Fui um homem que se colocou em relação simbólica para com a arte e a cultura do seu tempo. Os deuses me concederam quase tudo: eu possuía o gênio, um nome, posição, agudeza intelectual, talento. Fiz da arte uma filosofia e da filosofia uma arte, não havia nada que dissesse ou fizesse que não provocasse a admiração das pessoas.

Tratei a arte como a suprema realidade e a vida como uma mera ficção. Despertei a imaginação do século em que vivi, para que criasse um mito e uma lenda em torno da minha pessoa. Resumi todos os sistemas numa única frase e toda a existência numa epígrafe. Além de todas essas coisas eu ainda tinha algo diferente. Mas me deixei atrair por longos períodos de ócio sensual e insensato. Divertia-me ser um flâneur, um dân-di, um homem da moda. Cerquei-me de naturezas menores e de inteligências medíocres. 

Esqueci que cada pequena ação cotidiana pode fazer ou desfazer um caráter e que tudo aquilo que fazemos no segredo da alcova teremos que confessá-lo um dia, gritando do alto dos telhados. Deixei de ser senhor de mim mesmo. Já não era mais o comandante da minha alma e não sabia. Permiti que o prazer me dominasse e acabei caindo em terrível desgraça. Agora só uma coisa me resta: a mais absoluta humildade. Estou há quase dois anos na prisão.

 Nota: A expressão "De Profundis" é comumente utilizada em referência ao Salmo 130, na qual o salmista em grande sofrimento, implora a Deus pela misericórdia que, quando experimentada, leva a uma concepção mais profunda da divindade.