Loira Do Bem ∞ : Reflexão do dia: A Folha Amassada

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Reflexão do dia: A Folha Amassada


Quando criança, por causa de meu caráter impulsivo, tinha raiva à menor provocação. Na maioria das vezes, depois de um desses incidentes me sentia envergonhado e me esforçava por consolar a quem tinha magoado.

Um dia, meu professor, após presenciar toda uma cena, me viu pedindo desculpas, depois de uma explosão de raiva. Ele ai me chamou e me entregou uma folha de papel lisa e me disse:
— Amasse-a!

Com receio, obedeci e fiz com ela uma bolinha. — Agora, deixe-a como estava antes.Voltou a dizer-me.  É óbvio que não pude deixá-la como antes.Por mais que tentasse, papel continuava cheio de pregas.
O professor me disse, então:

— O coração das pessoas é como esse papel. A impressão que neles deixamos será tão difícil de apagar como esses amassados.  Assim, aprendi a ser mais compreensivo e mais paciente. Quando sinto vontade de estourar, lembro daquele papel amassado. Quando magoamos alguém com nossas ações ou com nossas palavras, logo queremos consertar o erro, mas é tarde demais... Esquecemos os valiosos ensinamentos contidos nos provérbios que a cultura popular cunhou para enfatizar a importância do silêncio: — “falar é prata, calar é ouro”, —“bom é saber calar até o tempo de falar” e até o divertido —“em boca fechada não entra mosca”.

São conselhos que, inadvertidamente, contrariamos o tempo todo. Mas isso é compreensível.Vivemos numa sociedade extrovertida, que valoriza as atitudes incisivas e onde tudo se fala, tudo se discute. Segundo o taoísmo – uma grande escola dos filósofos chineses, que floresceu entre os séculos 6 e 4 a.C. – o Universo é regido pelas energias yin e yang (a primeira remete a repouso e introspecção e a segunda, a movimento e expansão). 
—Nossa sociedade é exageradamente yang, ruidosa, agitada, nervosa.

Para equilibrar as energias, é fundamental silenciar, o que é yin” afirma Wagner Canaloga, sacerdote da Sociedade Taoísta do Brasil. Neste mundo yang, muita gente tem dificuldade de encarar a quietude.Na praia, alto-falantes a todo volume tornam inaudível o barulho das ondas, mas ninguém parece se importar.

Quando todos se calam na roda de amigos, alguém sempre solta uma piada ou comentário para quebrar o gelo – e o silêncio. Quando acompanhados, sentem urgência de falar, qualquer coisa que seja, como se calados deixassem expostas a falta de assunto, de diálogo, de interesses em comum. E não deveria ser assim. Economizar palavras nada tem a ver com a dificuldade de se comunicar ou mesmo de prestar atenção em quem está ao lado.Também não tem relação com o que não é dito e o que é escondido ou reprimido.

Nem com as lacunas que podem se abrir na convivência entre casais, pais e filhos.O silêncio une e não separa, pois por meio dele também se constrói a intimidade — é gostoso quando o vínculo se estabelece com um sorriso, um olhar ou um gesto,sem necessidade de palavras.O silêncio conforta, apazigua, restaura forças. É pacífico, nunca hostil.“Contemplação, inspiração e comunhão também cabem na palavra silêncio”, lembra Andréa Perdigão.

Para alguns, essa é uma situação de risco.“Há tanta gente não acostumada a olhar para seu interior.Por isso, o silêncio angustia”, afirma Judy Souza, da Self Realization Fellowship São Paulo,uma entidade que divulga os ensinamentos do mestre iogue Paramahansa Yogananda(1893- 1952).


Esse guru indiano dizia que só é possível conseguir paz de espírito quando se cria, dentro de si,um santuário de silêncio, livre de aflições, desejos e ressentimentos. O silêncio une e não separa, pois por meio dele também se constrói a intimidade — Nesse refúgio de paz, Deus lhe visitará”, foram as palavras de Yogananda.
Em geral, quem não se concede a chance de silenciar não permite que quem esteja ao lado conquiste a sua.“No vácuo que se abre com o silêncio, nascem a insegurança, a desconfiança e com elas, a urgência de saber o que se passa na cabeça do outro”, afirma Maria Eugênia Vanzolini, professora de psicologia da Universidade de São Paulo.

Para silenciar:
•Desacelere.Programe viagens para lugares tranqüilos, onde possa relaxar e escutar os sons da natureza.Em templos e espaços religiosos, também se cultiva o silêncio interior.

• Desconecte-se. De vez em quando, desligue telefone, TV, rádio e outras fontes de barulho. Procure se aquietar e não falar.Deite-se ou tome um banho relaxante, por exemplo.

• Focalize. Concentre-se no presente e mantenha a mente livre dos pensamentos desnecessários:eles contribuem para o ruído interno, que estimula a ânsia de falar.

• Não fale por falar.Preste atenção se seu jeito de se comunicar não é seco ou ríspido.Sem querer, você pode ser mal interpretado e magoar os outros.E meça mais as palavras.

• Medite.Encontre a técnica que melhor se encaixa em sua rotina. Basicamente, todas ensinam a se sentar ereto, relaxar e deixar passar os pensamentos, sem retê-los.

• Reze.Em todas as religiões, a prece é uma forma de interiorização que conduz à paz de espírito e ao silêncio interior.

fonte de origem:extraído da Revista Bons Fluídos Edição 088.
TEXTO: WILSON F. D. WEIGL -REPORTAGEM: ROBERTA DE LUCCA