sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Bons Ventos sempre...


Seja Humano
Por Renato Doidera
10 de Dezembro de 2007
Sempre fui fascinado pelo montanhismo e acabei sendo conquistado por ele há pouco menos de 2 anos. De lá pra cá fiz diversas escaladas indoor, em rocha, trekkings, travessias de montanhas, praias, ilhas, a trilha Inca que leva a Machu Picchu, escalei o vulcão El Misti (5825m), e cada vez mais a superação tem se tornado uma obsessão. Alguns podem até achar loucura quando falo do meu maior sonho e objetivo, o Everest, mas uma das minhas verdadeiras paixões é realmente crescer, me superar e vencer obstáculos. E vem sendo assim durante esses meses. Preparação física regularmente e disciplina fizeram de minhas conquistas, marcas que nem mesmo eu esperava.

Uma das coisas que mais me atrai no montanhismo é essa constante superação pessoal. Vencer e conquistar são palavras que não seguem uma ordem alfabética no meu dicionário. Elas ocupam logo a primeira página. Porém, logo que escrevo essas palavras, sei que existe algo ainda maior do que a superação e vontade de vencer. Reescrevo-lhes abaixo uma história que sempre mexe muito comigo quando a releio.

"Há alguns anos atrás, nas Olimpíadas Especiais de Seattle, nove participantes, todos com deficiência mental ou física, alinharam-se para a largada da corrida dos 100 metros rasos. Ao sinal, todos partiram, não exatamente em disparada, mas com vontade de dar o melhor de si, terminar a corrida e ganhar. Todos, com exceção de um garoto, que tropeçou no asfalto, caiu rolando e começou a chorar. Os outros oito ouviram o choro, diminuíram o passo e olharam para trás. Então eles viraram e voltaram. Todos eles. Uma das meninas, com Síndrome de Down, ajoelhou, deu um beijo no garoto e disse: "Pronto, agora vai sarar". E todos os nove competidores deram os braços e andaram juntos até a linha de chegada. O estádio inteiro levantou e os aplausos duraram muitos minutos. E as pessoas que estavam ali, naquele dia, continuam repetindo essa história até hoje. Sabe por quê? Porque, lá no fundo, nós sabemos que o que importa nesta vida é mais do que ganhar sozinho. O que importa nesta vida é ajudar os outros a vencer, mesmo que isso signifique diminuir o passo e mudar de curso."

Escrevo-lhes isso porque foi exatamente o que eu presenciei na 2ª Trilha Noturna na Pedra Grande. Não foi uma competição, nem tampouco queríamos ver quem era o melhor. Foi uma trilha para diversão entre amigos, mas que infelizmente acabou ocorrendo um acidente. Nada muito grave, mas que fez lágrimas de dor rolarem no rosto de Andressa. Todos ali cansados de uma semana inteira de trabalho, uma viagem até o ponto de encontro no início da trilha e 3 horas de subida até o cume da Pedra Grande durante a noite. Para muitos, uma noite passada em claro assistindo o espetáculo do céu estrelado. Após o nascer do sol e café da manhã, iniciamos a descida. Num momento de difícil passagem da trilha, uma torção no tornozelo. Todos pararam para ajudar Andressa. Palavras de carinho, piadinhas para distração, o que não faltou foi atenção para nossa amiga. Neste momento, o que ninguém lembrou foi do cansaço. Enquanto um chamava o socorrista pelo rádio, mãos cuidadosas tiravam a meia e faziam massagens com creme, que apesar da dor momentânea insuportável, viria aliviar alguns segundos mais tarde. Uma tornozeleira que estava sendo usada por uma amiga foi tirada do pé e cedida à Andressa. O bombeiro socorrista chegou e enquanto fazia os primeiros socorros, uma mão foi dada para que naquele momento de dor, ela pudesse não só apertar quando mais latejasse, mas que pudesse acima de tudo, sentir que estávamos ali com ela. E é nessas horas que eu sempre lembro da história acima.

“Lá no fundo, nós sabemos que o que importa nesta vida é mais do que ganhar sozinho. O que importa nesta vida é ajudar os outros a vencer, mesmo que isso signifique diminuir o passo e mudar de curso."

Infelizmente, no Everest, existem muitas histórias de montanhistas que passam por companheiros debilitados, jogados nas geleiras da montanha, na beira da morte, e a única coisa que eles olham é para o objetivo principal, o cume. Continuam sua escalada em direção ao que eles consideram mais importante. A vida de um ser humano perde para uma avaliação egoísta de valores que algumas pessoas ainda ousam fazer. Não sei como será a minha subida ao Everest daqui a alguns anos, mas tenho certeza que eu jamais conseguirei fazer um sonho ser mais importante do que uma vida. Nenhum valor terá essa conquista se eu deixar alguém pelo caminho. E esse é o meu desejo para cada um que ler essa mensagem: seja humano, ajude os outros a vencer, mesmo que isso signifique diminuir o passo e mudar de curso.

E que venha o Everest!

Um grande abraço,
e Bons Ventos!
Renato Doidera

fonte: http://www.doidera.com/index.php?option=com_content&task=view&id=32&Itemid=70