sábado, outubro 24, 2015

PERDÃO - A CURA PARA NÓS MESMOS.



"Há um tempo para a mágoa e um tempo para ir além da dor, como diria Pessoa, além da dor, o componente fundamental da mágoa é a sua permanência. uma incapacidade de parar de sofrer, mesmo com o passar do tempo". Para quem espera o perdão, o tempo é o maior inimigo, por isso é necessário praticar a paciência. A paciência serve de proteção contra injustiças como as roupas contra o frio. Se você veste mais roupas com o aumento do frio, este não terá nenhum poder para feri-lo. De forma idêntica você deve crescer em paciência quando se encontra em grandes dificuldades e elas serão impotentes para atormentar a sua mente. (Leonardo da Vinci).


Em todos os caminhos de crescimento humano, tanto psicológico quanto espiritual, uma ênfase especial é dada à questão da mágoa. Não só pelo sofrimento que ela produz, mas também pelo transtorno que ela provoca nos relacionamentos. Qualquer que seja o nome que damos a esse sentimento, seja mágoa, rancor, ressentimento ou vingança, ele se caracteriza por uma amargura na alma, uma sensação de injustiça, a partir do mal que alguém nos fez.
Além da dor, o componente fundamental da mágoa é a sua permanência. É uma incapacidade de parar de sofrer, mesmo com o passar do tempo. E como é impossível levarmos nossas vidas sem sermos machucados, de vez em quando pelas outras pessoas, sendo em vista a imperfeição da natureza humana, corremos o risco de acumularmos ferimentos e nos tornarmos pessoas amargas, desiludidas e sofredoras.

A mágoa é uma forma de guardarmos para depois coisas que não resolvemos na hora. Uma das características da vida é que ela só pode ser vivida no presente. O passado e o futuro, apesar de existirem na nossa cabeça, não têm existência real. Seria uma grande tolice imaginarmos que podemos respirar para amanhã, que podemos viver o ontem. O natural é que as coisas sejam vividas, mesmo as ruins, no momento em que elas acontecem.
O sentimento da raiva, que é natural tem por objetivo,  nos ajudar a resolver nossos problemas, incluindo as ofensas, traições ou quaisquer outros atos que as pessoas nos produzem. Quando somos inibidos na nossa raiva, quando temos medo de expressá-la, ela esfria dentro de cada um de nós e se transforma em mágoa. Mágoa é toda raiva que ficou para depois. É a raiva dentro da geladeira. É o medo de resolver nossos conflitos com outras pessoas, no momento em que aparecem. Guimarães Rosa define magistralmente, a mágoa no seu livro, Grande Sertão Veredas: "Mágoa é lamber frio o que o outro cozinhou quente demais para nós”.
 
A pessoa rancorosa apresenta pelo exposto até aqui, as seguintes dificuldades:

1- Em aceitar a imperfeição humana, idealizando uma realidade onde as pessoas nunca falhem com ela.

2- Na expressão da raiva, na colocação clara do seu desagrado diante do outro.

3- Em viver o momento presente, sendo extremamente apegada ao passado.

Por isso, a pessoa que guarda mágoa, em geral é também saudosista e culposa, características de quem vive no passado. Uma vez, porém instalada a mágoa, só nos resta uma saída: o perdão. Se a mágoa nos envenena e machuca, o perdão nos alivia e cura. Pode-se medir a sanidade psicológica de alguém pela sua capacidade de perdoar. O perdão é a ponte que nos faz sair da depressão para a alegria. "Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos aqueles que nos ofenderam." Por que tanta dificuldade em perdoar? Porque há equívocos em torno do perdão que nos dificultam o exercício dele.
 
Primeiramente, há uma crença falsa de que o beneficiário do perdão é a pessoa que nos ofendeu. O perdão é algo bom para quem perdoa. Perdoar é ficar livre da dor provocada pelo outro. É ficar livre daqueles que nos magoaram. É um presente dado a mim mesmo. Perdoar não é esquecer. É apenas parar de sofrer. Não nos incomodarmos mais com o que aconteceu no passado. Devemos, porém aprender com a experiência acontecida. Temos de tomar posição diante do que aconteceu, revendo a relação, e por isso mesmo, nos livrando do sofrimento. A mágoa deteriora os relacionamentos porque ao invés de resolvermos os problemas, ainda que com uma briga, guardamos a raiva no coração e ela se transforma em hostilidade, frieza e desprezo na relação, distanciamento sexual, traição e outras formas de vingança. "Que o sol não se ponha sobre nossas iras”. A ira santa é aquela do momento presente, como a experimentada pelas crianças. A ira guardada para amanhã vira mágoa e fecha nossos corações para o amor. Perdoar os outros é o presente que podemos oferecer a nós mesmos. Chega de carregar na alma as ofensas e os que nos ofenderam.

Por Antônio Roberto Soares.

"Tenho paciência e penso: Todo o mal traz consigo algum bem”. –Beethoven.  

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