segunda-feira, setembro 01, 2014

Filosofia: Julgamento social: é possível compreender a moralidade de forma imparcial?

Nos últimos tempos, diante dos espancamentos coletivos de criminosos, fomos instigados a pensar se é certo ou errado fazer justiça com as próprias mãos. E quanto a atacar mulheres que andam com pouca roupa na rua? E o aborto, a eutanásia, ou a união homoafetiva, são práticas corretas? E quanto ao Estado, é justo ele promover ações afirmativas, como a política de cotas para afrodescendentes nas universidades ou as políticas públicas de estímulo de renda? Todas essas indagações nos conduzem à distinção moral entre o certo e o errado, o bem e o mal, o justo e o injusto. Como, então, entender a moralidade dessa distinção?


 “Só podemos dar uma opinião imparcial sobre as coisas que não nos interessam, sem dúvida por isso mesmo as opiniões imparciais carecem de valor.” ―Oscar Wilde.
O ponto de partida para começarmos a compreender a moralidade é perceber que somos seres sociáveis e dependentes da vida em grupo; somos seres comunitários que julgam moralmente e compartilham crenças sobre o bem e o mal. Julgamos e agimos moralmente o tempo inteiro e usamos as palavras para expressar aprovação ou censura. Nós nos pronunciamos - enunciamos juízos - com base naquilo que julgamos ser o certo e o errado. Não só elaboramos a distinção moral, como também dizemos qual é a coisa certa a ser feita. 

Inseridos em um sistema de exigências e obrigações recíprocas, todos nós possuímos uma opinião sobre nossas ações e as ações alheias, seja no círculo familiar ou no social, seja na esfera pública do Estado ou na autorregulação do mercado. Julgamos o Estado ao reivindicar, como cidadãos, a distribuição igualitária dos seus bens e serviços. Por incrível que pareça, até mesmo o mercado - tido como regulado pela lógica da livre iniciativa - acaba sendo enquadrado nos limites da moralidade. É justo, por exemplo, um vendedor de produtos básicos, como água e alimentos, se aproveitar de uma catástrofe natural para inflacionar o preço de sua mercadoria, ou um professor ganhar infinitas vezes menos que uma celebridade da tevê ou um jogador de futebol? É justo o governo prestar socorro financeiro a instituições bancárias que ganharam muito dinheiro devido à ganância dos seus sócios e que, no anseio do lucro ilimitado, foram levadas à bancarrota?

Para compreendermos com imparcialidade a moral, precisamos tomar o cuidado de não dizer o que é o bem e o mal; não definirmos a essência desses valores, nem julgarmos no lugar daquele que estamos a observar - que é o agente moral. Podemos, se muito, explicar os motivos que levam a julgar desse ou daquele modo, mas nunca dizer em nome de outrem o que é certo ou errado. 

Do contrário, estaremos sendo moralistas, mais preocupados em exteriorizar nosso senso moral do que propriamente em entender a formulação dos juízos e o que nos leva a agir moralmente. Engana-se aquele que pensa que a investigação filosófica sobre o fenômeno moral consegue dizer, com certeza, o que é o certo e o errado, o bem e o mal, o justo e o injusto. Isso é filosoficamente insensato e não mais do que um projeto fadado ao fracasso.
Estamos envolvidos em obrigações morais que nascem e se fortalecem a partir da distinção entre o bem e o mal, tanto é que não conseguimos ser indiferentes às atitudes dos outros. Por vezes, nós as aprovamos, e outras vezes, manifestamos nossa reprovação e dizemos que determinado comportamento é errado e não deve ser feito.

Mesmo quando não conseguimos mudar o mundo, julgamos moralmente e manifestamos nossa opinião sobre o que é o correto naquela situação. Não que todos compartilhem o mesmo código de valores, visto que uns consideram alguns comportamentos como corretos, enquanto outros julgam o contrário, considerando errada a prática das mesmas ações. Contudo, temos um ponto em comum: o fato de que todos nós formulamos juízos sobre o bem e o mal. por André Luiz Olivier da Silva.Doutor em Filosofia. Fonte: jornal Zero Hora.