quinta-feira, julho 03, 2014

Comportamento: “Pensei que era uma preta qualquer.”

Elisa Lucinda “Pensei que era uma preta qualquer.”

26 de junho de 2014 às 12:36
  Passou 13 de maio e eu fiquei pensando nessa mancha, nessa barbárie, nesse holocausto que aconteceu com o povo negro e que se mistura à história da construção desse país. De todos os problemas idiossincráticos da nação, de todos os traços emocionalmente comprometidos do cidadão brasileiro, de todas as amarras que costumam permear o pensamento mais atrasado da evolução humana, considero o preconceito racial o mais torpe e o mais cruel. Está na base da nossa educação, está na palavra do professor, na escolha de quem vai ser a princesinha na festa da escola, de quem vai ser o chefe, a miss, o padre. Está no critério do juiz, nas ações policiais, na rua, nos escritórios, nos hospitais. Em todo canto o povo negro é olhado de revés. Como se fosse uma gente de segunda categoria. Referenciada nos princípios hitlerianos, a estética exemplar oficial considera feio o nariz negro, ruim o seu cabelo, suja a sua cor. Lástima. Sei do que estou falando, conheço o tema, tenho vários grupos sociais e encontro no meu meio social, na minha classe artística, no meu bairro muito mais gente branca do que gente negra. É preciso cautela e reflexão e coragem para abordar esse tema porque de alguma maneira o preconceito racial e a discriminação continuam sendo ensinados e perpetuados sem que percebamos. A escravidão foi traumática, a tortura era o método principal usada abundantemente por 4 séculos. Nenhum país com uma história dessa pode seguir em frente sem um tratamento, sem sentar no divã. O negro era vendido a metro! Então, se uma peça de negro, como um tecido, fosse de 1,80m por exemplo, comprava-se um negro de 1,70 m e podia- se completar com uma criança de 20 centímetros. Talvez devêssemos trazer essa história para o cinema, o Brasil precisa assistir ao filme da sua vida assim como sabemos tanto sobre a guerra do Vietnã e sobre os campos de concentração onde foram mortos os judeus. Precisamos botar essa história na tela. Falta-nos Espelho, não é a toa que o nosso querido e inteligente Lázaro Ramos tem um programa no Canal Brasil com esse nome. Olhemos as nossas mídias, as bancas de jornal... em todas as searas, a maioria avassaladora dos que chegam “lá” é branca. Poderia ser um acaso num país multirracial? Poderia, mas não é. Funda-se isso. Criamos essa realidade à medida que nosso contingente de pobres no Brasil se mistura também com os números de negros. Existem muitos negros, milhares que vivem bem, é claro, mas o que digo é que a maioria dos pobres é negra e se eles não têm escola boa, saneamento básico, o ensino de uma arte para que se traduza e amplie o seu olhar sobre o seu tempo, ele vai continuar um escravo urbano, condenado ao subemprego, sem a ascensão do tamanho do seu sonho, sem respeito e sem contribuir em outras esferas para o avanço da sociedade. Isso está tão engendrado em nosso comportamento que eu vejo crianças que se sentem patroas dos filhos das empregadas. Errado. Criança não é patrão e nem empregado de ninguém. O fato do meu pai ser patrão da doméstica não faz do filho dela meu empregado também. Repara bem como isso acontece a toda hora e nem se comenta. Um amigo meu adotou três filhos, um gay, um negro e um com Síndrome de Down. Preocupou-se em especial com o Down que é uma formação que costuma provocar rejeição dos outros. A estranheza foi perceber nos parques, nos teatros, nos aniversários, nos lugares onde leva as crianças, que o campeão do bullying era o negro. Aliás, toda criança negra e brasileira sabe o que é bullying, mas nunca se chamou de bullying o eterno caçoar aos negros. Estou incomodando? Se estou, não é culpa minha, é o que acontece quando levantamos o tapete e não há como fugir do acúmulo do que ali está entulhado sistematicamente. Continuamos bradando que vivemos numa democracia racial mesmo sabendo que da totalidade dos jovens que morrem no Brasil, 80 % são negros e de periferia. Pertencem a categoria da vida dos que não valem. Um dia perguntaram ao rapper Mano Brown: “mas como saber, num país tão misturado, quem é negro e quem não é? E ele respondeu: “a polícia sempre sabe.” Estou feliz com as bananas nos gramados. Trata-se de uma manifestação explícita de racismo, esse sórdido pensamento brasileiro que precisa sair do armário, isso, exponha-se. O racismo no futebol vem revelar a verdade que querem esconder, escamotear: não é econômico, como querem muitos, porque quem tem recebido banana ganha milhões. O que está acontecendo? Sinto-me protegida porque sou artista e o “status” de uma pessoa que muitos conhecem pela arte dá uma protegida na gente e diminui o impacto. Mas sou flagrantemente negra. E quando, de vez em quando, acontece um “escorregão” da parte do discriminador, ele se corrige e diz: “ai, eu não sabia que era você.” Ou seja, coitada da minha prima, dos meus amigos negros e vizinhos, coitado do país que é anônimo. Se a pessoa acabasse de falar, ela diria: “pensei que era uma preta qualquer”, mas ela não diz. Sorri, ajuda a orfanatos, ganha status por sua caridade, vai a igreja aos domingos, tem nojo da empregada dela. Acha que sua família é mais importante do que aquele quilombo, que mora na favela e cuja rainha desce o morro todo o dia para fazer a sua comida, arrumar a casa, varrer. 13 de maio, levante o tapete.
Elisa Lucinda