segunda-feira, janeiro 27, 2014

Mario Persona: "Empresas na plenitude"


 Quando a empresa atinge sua fase de plenitude, ela está no melhor dos mundos. Ela realiza todo o seu potencial e pode se gabar de possuir todos aqueles adjetivos que consultores e palestrantes gostam de repetir em seus discursos, como sinergia, empatia e desenvolvimento sustentável.
O temperamento da plenitude de uma empresa pode ser comparado ao da fase adulta, quando deixamos de correr atrás de apagar incêndios, de atropelar as pessoas ou de se deixar envolver por modismos passageiros. É uma fase de pé-no-chão e também de planejamento consciente do futuro, criação de desafios palpáveis para garantir esse mesmo futuro, e principalmente, de usufruir do resultado de anos de trabalho. A diferença do comportamento humano é que a empresa em sua plenitude não pensa na aposentadoria.

O fato de uma empresa ser grande e lucrativa não significa que seja madura se o seu clima organizacional ainda refletir inquietação interna e incapacidade para lidar com desafios e ameaças.

Toda vaca sagrada deve ficar atenta para não virar hambúrguer. Aliás, é esse o título de um best seller da década de noventa: "Vacas sagradas dão os melhores hambúrgueres". Uma empresa na plenitude tem a tendência de Narciso, de ficar se admirando e deixar as oportunidades passarem. Afinal, quem precisa de oportunidades quando atingiu o pico do Everest? O problema é que no alpinismo depois do pico as chances de queda aumentam.

O maior desafio de uma organização plena é manter em dia sua lipoaspiração e resistir ao deslumbramento dos números, principalmente, como eu já disse, se eles forem o resultado apenas de ventos propícios. Tirar o olho do umbigo para observar atentamente o mercado é um desafio enorme nessa hora. Acreditar que o mercado não vive sem seus produtos ou serviços é o grande engano no qual grandes empresas sucumbiram. Até quando morre o Papa eles arrumam outro.

O primeiro passo é investir em sua área de marketing, e quando digo isso não estou falando de propaganda. Ficamos tão acostumados a usar a palavra como sinônimo de propaganda que é sempre bom fazer essa ressalva. O problema é que na sua fase plena a empresa provavelmente já terá um departamento de marketing consolidado, com velhos marinheiros de olho na pescaria da aposentadoria, e é aí que mora o perigo.

Às vezes é preciso criar um departamento alternativo de marketing, com carta branca para inovar, mas o difícil é administrar isso ou vencer a resistência dos guardiões do Graal dos velhos paradigmas. Algumas empresas são conhecidas por seus laboratórios terem criado inovações que só foram aproveitadas com sucesso por terceiros.

O maior perigo da empresa se acomodar e ficar estável é perder mercado, algo difícil de se conquistar. Perder algo que gastamos uma vida para conseguir é algo rápido. Encontrar ou voltar ao ponto onde perdemos é um processo demorado. Portanto uma análise contínua de riscos e oportunidades deve estar em todas as páginas da agenda de uma empresa na fase de plenitude. Se ela procurar, vai descobrir que isso estava na agenda dos anos em que começou sua jornada como algo tão natural quanto a adrenalina que move uma criança ou adolescente a crescer, enfrentar riscos e se divertir.

Quando as pessoas que compõem uma empresa começam a considerá-la chata, maçante e rotineira, é hora de soar o alarme. Todo adulto deveria viver o tempo todo com a disposição de um adolescente e a ingenuidade criativa de uma criança.

Em uma empresa estável pode ocorrer outro fenômeno que é típico do ser humano.
Com o mercado conquistado, a bandeira fincada no cume do monte e as muralhas reforçadas contra adversários e intrusos, a luta pelo poder passa a ser interna. Isso porque, como eu disse, é algo inerente ao ser humano essa busca por domínio. Começam as intrigas, as acusações falsas, as traições, os excessos, as execuções - tudo igual à história dos grandes reinos depois que atingiram seu apogeu.

- Uma única dica: nunca seja grande, ou pelo menos nunca se considere como tal. Isto se resume em uma cultura empresarial de atitudes como humildade, simplicidade, reconhecimento das próprias fraquezas e dos pontos fortes da concorrência, desejo de mudar, coragem de diversificar, disposição para empreender e ousadia para inovar. A jactância e o orgulho sempre precedem a queda.
 
Entrevista concedida para a Newsletter SAP em 07/08/2008.
por Mario Persona é consultor, escritor e palestrante.