quinta-feira, janeiro 23, 2014

Comportamento: Compreendendo os Outros.

 
por  Roberto Assagioli (*) 

Quando procuramos descobrir o que causa os atritos e lutas que tanto perturbam e fazem sofrer indivíduos e grupos, percebemos que uma das principais causas está na falta de compreensão. Muitas palavras e muitos atos maléficos atribuídos à malvadeza e a desejo nocivo são, acima de tudo, devidos à falta de compreensão.

Todos nós, por nossa própria natureza, somos inclinados a desprezar e condenar o que não compreendemos e desta atitude crítica e negativa surgem facilmente preconceitos, presunções, antagonismos. Isto ocorre entre os indivíduos, entre as nações, entre as raças e, também, entre aqueles que, declarando-se religiosos, deveriam, mais do que os outros, dar exemplo de amor e fraternidade.

A falta de compreensão, pois, não é nociva só enquanto torna hostil aquele que não compreende mas, ainda mais, enquanto faz surgir uma mais forte, uma mais aguda hostilidade, um áspero ressentimento naqueles que se sentem incompreendidos. Como diz Keyserling, "nada fere mais profundamente do que a incompreensão, eis que incompreensão significa negação da identidade do outro".

Cria-se, assim, uma longa corrente de recíprocas incompreensões, de animosidades, de lutas, com todos os sofrimentos que daí decorrem.

Sem compreensão, pois, não se pode deixar de produzir danos. Entretanto, não devemos ser demasiadamente severos com aqueles que não compreendemos; devemos, antes, compreendê-los também! A compreensão integral de um outro ser humano está bem longe de ser coisa fácil; na realidade é, muitas vezes, coisa muito difícil. Todo indivíduo é uma complicada mistura de inumeráveis e dessemelhantes elementos que têm origens muito diversas, que existem em diversos níveis interiores e que agem e reagem uns sobre os outros, formando em cada pessoa uma combinação nova e única.

Além disso, nem todos os elementos que constituem os indivíduos que procuramos compreender são visíveis e, por assim dizer, "na superfície"; muitos deles estão profundamente submersos nos níveis subconscientes, e podemos deduzir sua existência somente através de manifestações indiretas e ocasionais. Mas não basta; aquela combinação de elementos não é estática; novos elementos entram continuamente a combinar-se com os preexistentes, e enquanto outros destacam-se e outros, ainda, transformam-se através de um processo orgânico de desenvolvimento e transmutação. Deste modo, aquele ser humano que procuramos compreender com nossa mente, muda-se continuamente qual proteo diante de nosso olhar surpreendido.

Tudo o que dissemos com referência aos outros é verdadeiro, em grande parte, também relativamente a nós mesmos; também neste caso é necessária uma profunda compreensão que se apresenta, do mesmo modo, com dificuldades não menores. Se, quando se trata de nós mesmos, possuímos mais elementos, mais dados, entretanto, somos levados a julgar mais facilmente de maneira apaixonada e parcial. Enquanto somos levados a julgar demasiado desfavoravelmente os outros, temos tendência a ser muito indulgentes para conosco, encontrando toda classe de justificações e desculpas para nossas deficiências e nossas culpas. Há, porém, uma minoria que erra em direção oposta: pessoas atormentadas por um excessivo sentido de inferioridade, de culpa, de desvalorização própria, que as oprime e paralisa.

(*) Roberto Assagioli, Dr.: (Veneza, Itália, 27 de fevereiro de 1888 - Capolona d'Arezzo, 23 de agosto de 1974). Médico, especializou-se em neurologia e psiquiatria. Estudou e manteve contatos pessoais com Sigmund Freud e Carl Jung. Em 1910, em Veneza, apresentou os ensinamentos de Freud à comunidade médica, sendo um dos pioneiros do movimento psicanalítico na Itália e os fundamentos da Psicossíntese. Ele percebeu que havia a necessidade de alguma coisa além da análise.
Trechos Extraídos do Boletim No. 26 - Janeiro e Fevereiro de 2007 do Site : www.psicossintese.org.br