domingo, setembro 22, 2013

Comunicação: sincero sem causa

Profissionais sentem receio de dizer o que pensam no trabalho. Até que ponto é possível falar com franqueza sem prejudicar a carreira?
Revista Você S/A - por Camila Mendonça

Acertar a dose exata de sin­ceridade que deve ser usada nas relações profissionais é algo complicado. Se a men­tira é eticamente condená­vel, o excesso de franqueza também pode ser prejudicial à carreira. Segundo o escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900), "pouca sinceridade é uma coisa perigosa, e muita sinceridade é absolutamente fatal". Em pesquisa com 200 profissionais brasileiros feita pela Michael Page, empresa de recrutamento de São Paulo, 40% deles acreditam que se forem verdadeiros no trabalho podem sofrer com as consequências. "É possível ser sincero na empresa tanto quanto é possível na sociedade", diz Marcelo Cuellar, responsável pela unidade da Michael Page no Rio de Janeiro. Qual a medida certa de sinceridade? A resposta está num meio termo composto por sensibilidade, prudência: e experiência. "Antes de sair dizendo o que pensa para todo mundo ouvir, a etiqueta corporativa diz que o melhor é estudar o ambiente e as relações", diz Marcelo.

A sinceridade vai virando assunto de conversa na pausa para o almoço conforme uma geração mais jovem e desbocada, passa a participar mais ativamente do cotidiano da empresa. À medida que a organização rejuvenesce, alguns rituais corporativos estão sendo questionados e cerimônia com a hierarquia vem perdendo sentido. Profissionais mais jovens têm a tendência de agir e falar sem papas na língua, sem dar tanta importância para o efeito da próprias palavras. "O problema é que são poucos os ambientes que aceitam esse tipo de conduta", diz Marcus Soares, especialista em psicologia organizacional e professo do Insper, faculdade de economia administração de São Paulo.
Obviamente, nem todo jovem sincero demais e a questão sempre esteve presente no mundo corporativo. Mas as pessoas não lidam bem com isso e, toda vez que uma grande verdade é falada, pode-se prever confusão na área. A consequência para o sincero sem causa, antes da demissão, pode ser o rótulo de chato, sem noção ou excessivamente crítico - e isso pode prejudicar: carreira. "O profissional que regula mal a opinião vai começar a ser isolado e pode ser preterido, principalmente para vagas em cargos de liderança, que exigem um filtro mais rigoroso", diz Danilo Afonso, gerente de projetos e marketing do Instituto de Organização Racional do Trabalho (Idort).

• Vida pessoal
Dentro do assunto sinceridade, outro deslize bastante comum na empresa é falar mais do que o necessário so­bre a vida particular. Embora seja possível desenvolver laços de ami­zade com colegas de trabalho, isso não é a regra. A maioria das pessoas convive diariamente com colegas com quem tem uma intimidade ape­nas parcial, por isso abrir assuntos pessoais muito delicados pode ser bastante constrangedor. "O ambien­te de trabalho não é propício para falar sobre sua vida", diz José Augusto Figueiredo, da consultoria de recolocação LHHIDBM.
Falar muito de si também favore­ce a criação de rótulos e dá abertu­ra para comentários negativos, que podem prejudicar o crescimento. Isso não significa que o melhor ca­minho é isolar-se dos colegas, mas ficar atento para preservar a própria intimidade. "No ambiente de traba­lho existem pessoas que você não escolheu para conviver, mas os relacionamentos interpessoais são importantes e devem ser cultiva­dos", diz Sâmia Aguiar Brandão Simurro, vice-presidente de proje­tos e expansão da Associação Bra­sileira de Qualidade de Vida (ABQV). "Sei meus limites e não me exponho a ponto de me prejudicar", diz Luciana Rocha, de 35 anos, ge­rente administrativa e de suprimen­tos da OTZ Engenharia.

Por outro lado, ter consciência de qual dose de sinceridade cada situ­ação exige pode ser bastante bené­fico. A sinceridade saudável depende de três vetores, segundo José Augusto. "O que, quando e como", diz ele. O "o que" está ligado ao conteú­do do que vai ser dito. É possível dizer tudo o que pensa se esse tudo estiver relacionado ao seu trabalho ou ao da equipe, como algum pro­cesso que você considera equivoca­do. Fofocas e intrigas só prejudicam. O "quando" está relacionado ao mo­mento em que sua opinião será dita.
Interromper reuniões de minuto em minuto só para dizer o que pensa o fará se passar por inconveniente. Se o que for dizer for importante e está comprometendo seus resultados, agende hora e local. O "como" se re­fere à maneira como você passa a mensagem. Evite ironias, subjetivi­dades, tons agressivos e atenha-se a fatos. Deixe reclamações, intrigas e fofocas para os amigos. Fazendo isso, sua interlocução com pares e subordinados vai melhorar.