sexta-feira, junho 28, 2013

Ⓐ̶ A máscara de mil faces

Perfeito. o símbolo do Anarquismo. Ⓐ̶   A favor do "livre pensamento". Anarquismo não é confusão. Anarquista não é bagunceiro. Anarquia, do grego: an (=sem) e arché (=poder). Anarquia significa ausência de coerção e não a ausência de ordem.

A máscara de Guy Fawkes revestiu-se de ares de símbolo dos movimentos sociais brasileiros com as recentes rebeliões populares que tomaram as ruas nas últimas semanas. Ela esconde o rosto de jovens militantes descontentes com o transporte público, a corrupção, os gastos com a Copa do Mundo etc. Eles despertam terror porque ocultam a identidade tanto de ativistas como de vândalos e criminosos. Foi parar no rosto da estátua do poeta Carlos Drummond de Andrade na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro. Tem aparecido até mesmo pintada de verde e amarelo para representar a revolta dos brasileiros contra o poder constituído. Para boa parte dos militantes, a máscara é a alegoria do anarquismo e seu desprezo às instituições, sobretudo as do Estado. Para outros, festa democrática, diversão, bagunça e ocultação de crimes. 

O Brasil virou o país dos mascarados como havia sido o país dos carapintadas 21 anos atrás (modelo inspirado nos argentinos), com a campanha pela deposição do presidente Fernando Collor. Isso sem saber muito bem o que está escondendo e o que a máscara significa. Só faltou Dilma exibi-la depois do pronunciamento apressado que fez no início desta semana, sob pressão popular. Seria um jeito de agradar às multidões e, assim, não perder o resto de sua popularidade. E, pensando bem, de uma forma sub-reptícia, a Presidente da República quis dizer com suas promessas que também gostaria de se esconder sob a máscara e se unir às multidões em fúria. 


Tudo remonta à Londres de 1604, quando um grupo de católicos reuniu-se para planejar um atentado contra o rei Jaime I e a Câmara dos Lordes. O rei começava a perseguir os católicos. O grupo mandou chamar em Flandres Guy Fawkes, soldado inglês, devoto católico, que havia lutado no exército espanhol e era conhecido como especialista em explosivos. Fawkes ajudou a instalar em um porão abaixo do prédio do Parlamento seis barris de pólvora. A data marcada para a explosão era 5 de novembro de 1605. Mas a Conspiração da Pólvora, como ficou conhecida, foi descoberta. Fawkes, que montava guarda no porão, foi preso e torturado, resistiu à delação dos envolvidos. Após muitas sessões de tortura, ele finalmente assinou a delação. Em letra trêmula, assinou “Guido Fawkes”, usando o seu nome romano. Os conspiradores foram presos, julgados e decapitados em 31 de janeiro de 1606, diante do prédio do velho Parlamento. Fawkes, de 36 anos, conseguiu se atirar pela escada antes da decapitação, quebrou o pescoço e morreu antes da execução. Os corpos dos conspiradores foram estripados, esquartejados e arrastados pelas ruas.  
Desde então, em Londres o episódio é comemorado todo 5 de novembro, como a Noite das Fogueiras (ou Guy Fawkes’ Day). A população de Londres solta fogos de artifício, monta fogueiras e arrasta bonecos com o rosto de Fawkes, para malhá-los pelas ruas. Mas a coragem de Fawkes passou a ser cultuada pelo povo. Dizia-se que ele foi “o único homem de boa intenção a ter entrado no Parlamento”. Aos poucos, Fawkes se tornou um ídolo popular. Em 1985, o romance gráfico V. de Vingança, com história de Alan Moore e desenhos de David Lloyd, ambos ingleses, lançado em 1982, fez sucesso com a história futurista, ambientada em 1997, de um anarquista que planejava explodir o Parlamento inglês, usando uma máscara de Guy Fawkes. O design da máscara, de Lloyd, inspirado em antigas gravuras que mostravam Fawkes, foi retomado em 2005 com o longa-metragem V. de Vingança. Na cena final, o Parlamento é explodido sob os aplausos de uma multidão que ostenta a máscara de Guy Fawkes. De traidor da pátria, Guy Fawkes virava símbolo de incontinência civil. 

Assim, em 2011, inspirados na extrapolação heroica de Fawkes perpetrada pelos quadrinhos, o grupo “hacktivista” Anonymous adotou no mundo inteiro a máscara inventada por Lloyd. Ela passou a ser usada em diversas manifestações de rua pela Europa e Estados Unidos, dos Indignados da Espanha aos defensores do movimento Occupy Wall Street. Dali para chegar às ruas das grandes cidades do Brasil, bastou uma revolta popular generalizada em 2013. Nas ruas, Guy Fawkes tem dado lições de civismo militante. E nem um único purista xenófobo apareceu para denunciar da “invasão estrangeira” de uma simbologia mutante.

A máscara de Guy Fawkes, portanto, ostenta faces contraditórias: a do traidor, do defensor da fé, do anarquista, do rebelde e do vândalo. É uma carranca a um só tempo libertária, ameaçadora e satírica. É falsamente misteriosa, porque oculta o que já está oculto e revela o que já está na cara. A razão de ela ter vingado no Brasil talvez se deva ao pendor carnavalesco tanto da população como das autoridades, capazes de assumir a farsa até nas revoltas mais justas e furiosas.
Quem disse que o país vive uma crise de representatividade? A máscara de Guy Fawkes nos representa. 
por LUÍS ANTÔNIO GIRON.
fonte: http://revistaepoca.globo.com/cultura/luis-antonio-giron/noticia/2013/06/mascara-de-mil-faces.html