terça-feira, 9 de abril de 2013

Tom Jobim e a Poesia Árabe*

Inexplicavelmente, a genialidade de Tom Jobim continua sempre mais reconhecida no exterior do que entre nós, brasileiros, que,afinal, estaríamos em melhores condições de apreciar a beleza de suas canções, por exemplono que se refere à concatenação melodia/letra.
Nesse sentido, muito aquém do que exigiria a magnitude do fato foi a divulgação, entre nós, de sua recente consagração como compositor nos EUA ao ingressar no Hall of Fame, ao lado de outros imortais como Gershwin ou Porter. Afinal, ele é o autor estrangeiro mais tocado nos EUA1; diversas de suas canções ultrapassaram um milhão de execuções e foram interpretadas por Ella Fitzgerald,Sinatra, Nat King Cole, Sarah Vaughn e outros.

O brilho de suas composições musicais não deve ofuscar o talento do poeta. Neste artigo, analisaremos um aspecto da mais original de suas canções, Águas de Março, que, no certeiro juízo do renomado crítico americano
Leonard Feather, é uma das dez melhores canções de todos os tempos.

Grande e grandiosa, inquietante, Águas de Março soa aos nossos ouvidos, sempre de novo, como diz sua letra, como “um mistério profundo”.
Parte desse mistério reside, talvez, no fato de a poesia de Águas de Março nos arrancar de nossos padrões usuais de pensamento ocidental e nos conduzir às formas de pensamento do Oriente, “lugar” por excelência do mistério.
Pense-se, por exemplo, na linguagem-pensamento árabe onde, em vez dos longos e complicados
discursos ocidentais, encontramos um rápido e cortante suceder de flashes, em frases nominais
provenientes de uma imaginação fulgurante com a irresistível força da imagem concreta.

Assim, uma cena, digamos, como a de abater um pássaro, seria, no limite, descrita porum ocidental nestes termos: “Estava um pássaro a voar no céu, quando eu o vi. Ora, ao vêlo,interessei-me por ele e, portanto, dado que dispunha de uma atiradeira, muni-me de uma pedra, mirei-o, disparei a atiradeira a fim de atingi-lo; de fato atingi-o e, portanto, ele caiu, o que me possibilitou apanhá-lo com a mão”.
Já o árabe, tende a apresentar essa mesma cena do modo como o faz Tom Jobim em Águas de Março:
“Passarinho na mão, pedra de atiradeira”.
Os enlaces lógicos ficam subentendidos por detrás da sucessão de imagens. E o mesmo ocorre,
por exemplo, com este outro verso da mesma canção: “carro enguiçado, lama, lama” (em clave
ocidental: “O carro enguiçou devido à avaria provocada por excesso de lama”...).
Naturalmente, a presença constante do verbo ser na letra de Águas de Março não invalida a semelhança com o caráter oriental do pensamento (onde se empregam frases nominais e não o “é”), pois trata-se da forma fraca, descartável,desse verbo.
Aliás, a orientalização chega ao extremo quando no final da canção, interpretada por Tom e Elis (Elis com riso mal contido), o verbo ser é suprimido e se diz simplesmente:
Pau, pedra, fim caminho
Resto, toco, pouco sozinho
Caco, vidro, vida, sol
Noite, morte, laço, anzol
Assim, não é surpreendente que encontremos na literatura árabe composições muito próximas do estilo da nossa Águas de Março.
Uma tradução quase literal dessa composição (e razoavelmente ajustada à melodia de Águas de Março), na qual procuramos preservar
o “sistema operacional” de pensamento e expressão
árabe, soaria assim:
Noite escura, um dia de paz
O céu, um assombro, espaços siderais
Estrelas brilhando, mares a se agitar
Montes assentados, terra a atapetar
O que vive, morrendo; o que morre, findando
Vai vir, virá, o a-passar, passará
No céu, sinais; na terra, lição
Causa, porquê, explicação
Gente vai 4 e não volta, qual a razão?
Sono profundo?, satisfação?
Onde nossos primeiros? onde pais e avós?
Onde o grande poder dos fortes faraós?

AUTORIA: JEAN LAUAND
Professor Titular da Faculdade de Educação da USP
Pesquisador Emérito do Instituto Jurídico Interdisciplinar
da Universidade do Porto
Autor de Cultura e Educação na Idade Média, Ed. Martins
Fontes
AIDA RAMEZÁ HANANIA
Professora Titular de Cultura Árabe do Departamento de
Letras Orientais da FFLCH-USP
Autora de A Caligrafia Árabe, Martins Fontes, 2000
Tradutora de Discurso Decisivo (original árabe), de Averróis,
Martins Fontes, 2005
Fonte google: SECRETARIA DE ESTADO DE EDUCAÇÃO DO RIO DE JANEIRO