segunda-feira, fevereiro 25, 2013

Sou um viajante de ambos tempo e espaço


Neste mundo, sou um forasteiro, um estranho; a solidão no imigrante é uma saudade atroz. No entanto, o exílio me faz sempre sonhar com a terra encantada, enquanto as doces imagens duma paisagem quimérica, distante, enchem toda a minha fantasia.
Sou estranho à minha própria alma: por isso, quando a minha língua fala, não sei se ouço a minha própria voz. Às vezes, noto indefiníveis movimentos quiméricos no íntimo do meu ser, que eu vejo, ao mesmo tempo, risonho, heróico, queixoso, tímido?.. Então, pasmado ante mim mesmo, procuro decifrar o enigma do meu espírito, e, não obstante, continuo sendo um desconhecido, envolto na névoa e oculto pelo silêncio.

Eu sou um estrangeiro neste mundo; viandante que percorre, inutilmente, toda a terra, de norte a sul, desde o nascente ao poente, em busca do solo natal, que nem eu, nem ninguém o terá visto, que ninguém o conhece ou terá ouvido falar dele.
Meia-noite em ponto; e, pelas fendas das rochas, entram duendes em minha gruta, visões dos tempos idos, espectros de nações esquecidas. Olhamo-nos firmes, por momentos; quando os interrogo, sorriem e não respondem; por mim, se os quero apanhar, esfumam-se como o nevoeiro.

Neste mundo, eu sou um forasteiro. Não existe quem compreenda uma palavra, ao menos, da linguagem da minha alma.
Percorro os ermos desertos, fito os regatos velozes que correm do cimo das montanhas até o fundo dos barrancos; vejo as árvores nuas revestirem-se de virente folhagem e logo frutificarem, espalhando pelo solo, instantes após, as folhas secas dos ramos frondosos, agora feito áspides, contorcidos num torpor de frio sono…

Também contemplo as aves que voam de um para outro lugar, subindo e descendo, trinando, alegres ou tristonhas, que param, por fim, de asas abertas,

Eu sou um estrangeiro neste mundo. Sou o poeta que, de passagem pela vida, canta em seus versos o que ela possui de mais profundo, harmonioso e belo.

Eu sou um estrangeiro, e serei sempre um estrangeiro para mim, até que a morte me leve e me faça voltar à minha verdadeira pátria.
[ Trechos do poema O poeta by Khalil Gibran Kalil]
foto by Sheik Hamdan bin Mohammed bin Rashid al Maktoum.


Kashmir - Ó, deixe o Sol bater no meu rosto,
Estrelas preencherem meus sonhos
Sou um viajante de ambos tempo e espaço,
Para estar onde eu estive !!! [ by Led Zeppelin]