terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Filosofando com Rousseau | A arte de agradar


 Arte de Agradar.
 “Teria o homem deixado seu estado natural, sua essência ao se dedicar a ciências e artes, sido corrompido?. Em nossas relações interpessoais aprendemos a "arte de agradar", de falar o que o outro gostaria de ouvir ou sentir, e para tal, a adulação, a bajulação, se faz necessário.  

Mas, seria esse o caminho?  o da polidez e ser comedido sempre? - Ao fazermos isso, perdemos nossa essência, identidade, individualidade, nos tornamos reféns de "maneiras sutis" e sem sabermos no final, onde estão os verdadeiros laços e leais em nossas ações, relacionamento e afins.
 

Não caberia a máxima: - "Prefiro ser odiado pelo que sou do que amado pelo que não sou". 
Assim fala Rousseau
Como seria agradável viver entre nós, se a aparência fosse sempre a imagem das disposições do coração, se a decência fosse a virtude, se nossas máximas nos servissem de regras, se a verdadeira filosofia fosse inseparável do título de filósofo!

Mas, tantas qualidades muito raramente vão refluídas, e a virtude não anda assim com tanta pompa. A riqueza do ornamento pode anunciar um homem opulento, e sua elegância um homem de gosto: o homem são e robusto é reconhecido por outros sinais; é sob a vestimenta rústica de um lavrador, e não sob os dourados do cortesão que se encontrarão a força e o vigor do corpo. O ornamento não é menos estranho à virtude, a qual é a força e o vigor da alma. O homem de bem é um atleta que tem prazer em combater nu; despreza todos esses vis ornamentos que dificultam o uso das suas forças e cuja maior parte só foi inventada para ocultar alguma deformidade.

Antes da arte modelar as nossas maneiras e ensinar as nossas paixões a falar uma linguagem apurada, nossos costumes eram rústicos, porém naturais; e a diferença dos procedimentos anunciava, ao primeiro golpe de vista, a dos caracteres. A natureza humana, no fundo, não era melhor; mas, os homens encontravam sua segurança na facilidade de se penetrarem reciprocamente; e essa vantagem, cujo valor não sentimos, lhes evitava muitos vícios.

Hoje, que pesquisas mais sutis e um gosto mais fino reduziram a arte de agraciar a princípios, reina nos costumes uma vil e enganadora uniformidade, parecendo que todos os espíritos foram atirados num mesmo molde: a polidez sempre exige, o decoro ordena; sem cessar, todos seguem os usos, jamais o seu próprio gênio. Ninguém mais ousa parecer aquilo que é; e, nesse constrangimento perpétuo, os homens que formam esse rebanho chamado sociedade colocados nas mesmas circunstâncias farão todos as mesmas coisas, se motivos mais poderosos não os desviarem. Jamais saberemos bem a quem nos dirigirmos: precisamos pois, para conhecer um amigo, esperar as grandes ocasiões, isto é esperar que não haja mais tempo, pois que é precisamente nesse tempo que seria essencial conhecê-lo.

Que cortejo de vícios não acompanhará essa incerteza! Não há mais amizades sinceras não há mais estima real; não há mais confiança fundada. As suspeitas, as desconfianças, os temores, a frieza, a reserva, o ódio, a traição, hão de ocultar-se sempre sob o véu uniforme e pérfido da polidez sob essa urbanidade tão louvada, que devemos às luzes do nosso século.

Não será mais profanado com juramentos o nome do senhor do universo; mas, será insultado com blasfêmias, sem que os nossos ouvidos escrupulosos se ofendam. Ninguém mais se gabará do próprio mérito, mas rebaixará o dos outros. Ninguém ultrajará grosseiramente seu inimigo, mas o caluniará com habilidade.

Os ódios nacionais se extinguirão, mas será com o amor da pátria. A ignorância desprezada será substituída por um perigoso pironismo. Haverá excessos proscritos, vícios desonrados: mas, outros serão decorados com o nome de virtudes; será preciso tê-los ou os afetar. Gabar-se-á quem tiver a sobriedade dos sábios do tempo; quanto a mim, não vejo nisso senão um requinte de intemperança tão indigno de meu elogio quanto a sua artificiosa
simplicidade.

Tal é a pureza adquirida pelos nossos costumes: é assim que nos tornamos "gente de bem".


"Não me preocupo em agradar nem aos belos espíritos, nem às pessoas da moda. Sempre haverá homens feitos para serem subjugados pelas opiniões de seu século, de seu país, de sua sociedade" 

Trecho do livro O “Discurso sobre as ciências e as artes” Por Jean Jacques Rousseau.