quarta-feira, dezembro 21, 2011

Viola, Violão e... Se a conversa acabar na cozinha...



Se a conversa acabar na cozinha já é da família melhor pra você...”. Esta é uma música bem mineira, não é? Milton Nascimento. Ouvi muito isto no “Angelus”, que ao lado de outros discos, não vendo, não empresto – mesmo porque para quem empresa o destino é não rever.
Calma! Você vai entender o título e a ‘introdução’ deste texto, uma síntese da música do coração do Brasil.


Uma cozinha enorme, tijolos sem reboco, piso de terra. Casa no interior, de campo e moradia. Pra quem passava férias, um delícia; no dia a dia de quem ali vivia, talvez nem tanto.
Nesta casa, de cozinha grande e terra vermelha no chão, eu ouvi um grande violeiro. Tocava violão de 6, 7 cordas. E também viola de 10 e 12. Consegui ‘herdar’ a viola de 10 cordas. Guardo até hoje.



Lembro muito da tocada das músicas caipiras e outras um pouco estranhas. Estas, com um linguajar diferente, uma sonoridade diferente. Tinha alguma coisa estranha naquilo ali. Mas, como era moleque e não conhecia praticamente nada de música – e ainda não sei! -, aquilo não era apenas diferente. Soava como novo, nada a ver com o que sequer tinha escutado até então.

Aquela música era ainda a expressão do cantar do coração, do sentir e expor amor por uma terra, por uma mulher (no meu entender masculino, claro), por uma paixão que poderia ser até...o amor por uma árvore, pelo água, pela mata, pelos bichos.

Achei, ali naquelas músicas, a tradução do que é a integração do homem (pode ser mulher também) com a natureza, com a Vida.



Até hoje os timbres, as vibrações da viola - ‘rio abaixo’ ou ‘rio acima’, sei lá, meu amigo André (Gibeli), produtor musical dos bons, já tentou me explicar algumas vezes – me deixam sem rumo. Não via apenas a técnica, nem a partitura. O que me encantava naquela audição era o violão, a viola a voz, a letra, a poesia. Era o sentimento!

Foi neste instante que senti que a música, de um jeito ou de outro, faria parte da minha vida. A partir dali que comecei a pesquisar, sem saber, a música do coração, das entranhas do Brasil. Uma música que não precisa de rodeios para ser o que é. Não precisa de promoção, pois é a ação e inação constante. Uma música que, ao ouvir pela primeira ou milésima vez, você se sentirá “na cozinha e que já é da família”. A verdadeira percepção de tudo o que é sofisticado musicalmente, e simples poeticamente. Fala o que qualquer cidadão saberá ouvir, interpretar, em qualquer tempo e lugar. Canta na língua do coração que todo mundo entende.

Aonde fica a cozinha do Brasil? Ainda que subjetivo seja, na cozinha mineira. E como saborear um bom prato sem música? E de onde vem o melhor som e silêncio do Brasil? Do Centro Oeste, do Mato Grosso do Sul, fundado por... mineiros!

“Se a conversa acabar na cozinha já é da família. Melhor pra você...”.
Ainda criança/adolescente, ouvindo aquele som, aquela viola e violão das mãos de um exímio músico, me sentia tão privilegiado quanto os americanos que tinham Elvis Presley e os ingleses que tinham os Beatles.

Daí, um pulo pra pensar: “nós temos gente, rio (abaixo ou acima), mata, bichos e o privilégio de uma música pura, sincera, feita da alma, seja do centro, do oeste, do sul, do sudeste, do norte ou do nordeste”.

Eu tinha ali uma audição tão equivalente a uma ópera. E um lugar tão magnífico como o Alla Scala, em Milão/Itália. Eu tinha uma cozinha, um chão e a música de Almir Sater.

"Ando devagar porque já tive pressa,
E levo esse sorriso, porque já chorei demais,
Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe,
Só levo a certeza de que muito pouco eu sei,
ou Nada sei..."

by Rick Berlitz
Estudou Jornalismo na instituição de ensino Universidade Metodista
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