segunda-feira, março 21, 2011

O que eles pensam: Entrevista de Almir Sater

O que eles pensam - Almir Sater
Almir Eduardo Melke Sater nasceu em Campo Grande, em 14 de novembro de 1956, gosta de música caipira, andina, rock. Conheceu a viola no Rio de Janeiro, onde foi estudar, e nunca mais a largou. Almir Sater teve uma rápida e descontraída conversa com o Correio. Falou de sua carreira, da novela Pantanal, que lhe deu projeção nacional, criticou a moda exagerada dos DVDs e revelou-se um "simples homem da terra", que gosta de plantar e colher.
Madeira de lei
Assim como Manoel de Barros, você saiu da região pantaneira (ele de Cuiabá e você de Campo Grande) para estudar no Rio de Janeiro. Como foi sua primeira impressão, seu primeiro sentimento ao chegar num grande centro urbano, como o Rio?
Me fascinou aquela quantidade de opções culturais quando cheguei em 1974. Saí de cara procurando pessoas para falar de arte e de música. Quando eu cheguei lá para estudar — fazer cursinho — , estava mais interessado em buscar conhecimento musical e conhecer pessoas para tocar. Minha iniciação musical foi toda no Rio de Janeiro. Foi lá que conheci a viola caipira frente a frente no Largo do Machado, reduto da cultura popular. Foi lá que me encontrei com uma dupla de violeiros mineiros e fiquei encantado com a viola. Eu tinha de 17 para 18 anos.

E quais são suas influências?
 Tenho mais influência fora da viola caipira do que dentro dela. Na viola, conheci o Tião Carreiro, o som do Renato Andrade. Os dois são uma escola. Os dois se completam. Mas antes disso, eu era mais roqueiro. Gostava de James Taylor, Paul McCartney, Paul Simon… ouvia também grupos de música andina, como o Inti-Illimani, que tinham excelentes instrumentistas. Gostava também do tocador de charango boliviano Ernesto Cavour. Eu misturava tudo, McCartney, Tião Carreiro, Inti-Illimani, Vieira e Vieirinha… Sempre admirei as pessoas que compunham, cantavam e tocavam. Não que o intérprete não seja importante, mas valorizo muito o criador, o instrumentista.

Como é participar de uma comitiva, como foi a Esperança, em 1984?
 Depois que gravei meus dois primeiros discos (1980 e 1982), estava muito livre, muito solto, fazendo coisas diferentes. Nessa época, conheci o Guilherme Rondon, que era pantaneiro também e tinha uma fazenda lá. Fomos visitar as terras dele e ficamos ainda mais impressionados com a beleza da região e da sua cultura. Resolvemos fazer uma viagem sem rumo, sem bússola, sem nada. Ficávamos de fazenda em fazenda tocando — o dinheiro que tínhamos serviu para investir num documentário em parceria com a Tatu Filmes, à época na Vila Madalena (SP). E as coisas foram acontecendo. Levamos viola, violão e violino. Eu (viola), o Paulo Simões, meu parceiro (violão), e o maestro Zé Gomes (violino) usávamos a música como uma isca para atrair as pessoas de fazenda em fazenda. Viajamos uns 15 dias com uma boiada, sempre levando música e acompanhando a emoção das pessoas no meio daquele isolamento. Isso se transformou num pequeno documentário. Tudo muito simples.

Seu encontro com Tetê Espíndola abalou a vanguarda paulista na época, parecia que a música pantaneira iria permanecer por um bom tempo nas paradas. Mas as gravadoras não quiseram assim, preferiram outros gêneros. Você acredita que essas gravadoras ainda têm esse poder de ditar o que se toca no país?
Elas estão passando por um período de grande indefinição. Perderam o poder de dominar o mercado, perderam o poder de só elas produzirem e comercializarem. Hoje qualquer pessoa pode ter um estúdio em casa e criar seu próprio trabalho. A arte está um pouco mais democrática, mas a forma de comercializá-la é que ficou complicada para os que vivem da arte. Se você mata o criador de fome, mata a arte junto.

A música brasileira entrou numa crise existencial com a queda na venda de CDs . Quais são as saídas para o artista? O DVD?
Não sou a favor do DVD, ele distrai muito a atenção da música. Sempre gostei de ouvir música de olhos fechados. Não sinto falta da imagem para a música. Tudo bem que virou um grande show. Mas a música, quando você fecha os olhos, você vai para qualquer lugar que quiser e enxerga qualquer imagem que imaginar. Não que eu seja contra o DVD. Mas acho que o artista tem de se preservar. Chegou um ponto em que os meus filhos lá em casa assistiram tanto a DVDs do Paul McCartney, que quase comecei a enjoar do meu ídolo (risos). Acho que banaliza a figura da pessoa. Não gosto, não. A não ser que seja um DVD jornalístico. Mas colocar o seu show em DVD, você acaba estragando o show. O que você tem pra vender depois? Mais nada, porque tudo está lá.

 Você trabalhou na novela Pantanal. Foi aí o salto para o sucesso nacional? E a experiência na novela O Rei do Gado?
 Pantanal foi um divisor de águas em termos de reconhecimento nacional.
 Fale um pouco mais…
Eu tinha ido a Nashville (EUA) apresentar uns shows lá e aproveitei para fazer um disco que não estava programado. Quando voltei para o Brasil, os meu amigos músicos americanos me convidaram para fazer uns shows instrumentais por lá. Pensei em morar um tempo nos Estados Unidos. Mas os boatos sobre a novela Pantanal estavam circulando há muito tempo, ela seria rodada pela Globo. Nessa época o Sérgio Reis ia participar e ele sempre gostou do meu trabalho. Tinha uma relação paternalista comigo, me ajudou gravando Sonhos guaranis, uma música que não tinha nada a ver com ele, eu acho (risos). Gravou porque queria me ajudar. Ele disse: “Você tem que trabalhar mais, Almir. Tem que ir nas rádios pedir pra tocar suas músicas”. Eu falei: “Não vou constranger um programador e pedir pra ele tocar uma música que não tem nada a ver com ele. Toca se quiser. Agora, se você quer que eu faça sucesso, põe eu nessa novela que você vai participar (risos)”. Ele ficou rindo. Passaram seis anos e eu estava em Fortaleza, fazendo um show, esperando voltar para São Paulo e comprar as passagens rumo aos Estados Unidos, quando Sérgio Reis me ligou. Disse que a novela será feita na Manchete e que eu estava convidado. Perguntei: “Vai gravar mesmo no Pantanal?”. Ele disse sim. “Então topo”. (risos). Meu empresário achou que eu estava louco. Não imaginava que faria tanto sucesso.

E o Rei do Gado? Em Rei do Gado, eu já fui cheio de pretensão e não aconteceu nada (risos). Mas foi muito bom, a novela fez sucesso, mas não foi aquela coisa do Pantanal.

Hoje você mora na Serra da Cantareira, em São Paulo, de que mais sente saudade da sua terra?
Vou sempre para o Mato Grosso do Sul. Recentemente, fiquei 90 dias lá. Gosto muito do meu canto. Para a música, é bom, é um lugar isolado, tranquilo. Sou um pequeno produtor rural, gosto de produzir, mexer com a terra, com coisas reais. Porque eu não sei nunca quando vou fazer uma música. É uma coisa muito louca. De repente você passa seis meses sem criar nada, mas quando você planta uma semente num solo bom, quase sempre é certo. Gosto também de ter o pé no chão e não só ficar no mundo da Lua. Gosto muito da lida da fazenda.

Em entrevista ao Diversão & Arte, Rolando Boldrin destacou que cantores de sertanejo universitário não têm nada de caipira, estão mais para o pop, pois não vêm da raiz brasileira, como os cururus, maxixes, arrasta-pés etc. Você concorda com ele?
 O sertanejo universitário não é definição dos artistas, é coisa de gravadora. Esses artistas vêm com o conhecimento da cultura caipira, eles cantam todo o repertório. Mesmo na época de Tião Carreiro sempre houve essa pendenga de quem é mais raiz. Acho que hoje tem bons artistas e artistas duvidosos. Mas não sou dono da verdade. Bom é aquilo que me emociona. Mas pouca coisa tem me emocionado ultimamente (risos).

Com essa onda moderna, da música eletrônica, de Ladies Gagas etc., a viola se transformará em instrumento de museu? É uma bagunça mundial. Venho de uma geração que pegou o finalzinho do grande momento musical do século passado (1970-80). Se você comparar músicos daquela época com os de hoje, não dá.

 Mas a viola se transformará um instrumento de museu?
 A viola não tem culpa disso. O problema não está na viola, na guitarra ou no pandeiro. O problema está em quem segura o instrumento. Vejo excelentes instrumentistas tocando viola, garotos tocando muito bem. Mas acontece que as gravadoras sempre buscaram o fácil, o retorno rápido. Quando conheci o parceiro do Tião Carreiro, o Lourival dos Santos, estava difícil a minha vida, porque eu não era nem sertanejo, nem popular. Não entrava em nenhuma turma, ficava sozinho. Nem conhecia o Renato Teixeira ainda. Estava só. Conversando com Lourival dos Santos, ele me disse: “Almir, você é madeira de lei, demora. Madeira que cresce rápido só serve para lenha. Madeira de lei demora, tem de ter paciência”. Às vezes, as gravadoras querem tudo rápido e começam a investir em coisas descartáveis. A gravadora pode escolher vários artistas, mas eu não posso falhar no meu trabalho. Não sou contra gravadoras, elas tiveram um papel importante em descobrir talentos, em investir na cultura.

  O que você acha de jovens tocando heavy metal com viola caipira, como a dupla Ricardo Vignini e Zé Helder?
 Acho muito bom. O instrumento está à disposição do instrumentista. Eu toco uns blues de viola, umas coisas mais lindas. Tenho um amigo americano que toca banjo e se apaixonou pela viola caipira. A afinação rio abaixo da viola caipira é igual à do banjo. Aí eu falei para ele, pensa num banjo e toca essa viola. Ele virou um dos melhores violeiros do mundo (risos). Os dois instrumentos têm um toque muito rápido.

  O Brasil está se urbanizando e perdendo a identidade. Como fazer para preservar nossas tradições?
 É para isso que serve o Ministério da Cultura. Para que um ministério se não for para preservar nossas tradições? Se você não preserva sua cultura, vai se transformar naquele povinho babaquinha sem nada e sempre copiando os outros. É preocupante as pessoas seguindo só os modismos.
O governo federal determinou um corte de 36% no orçamento do Ministério da Cultura. Parece que o Planalto acha que investir em cultura é supérfluo. Você concorda?
 Eles gastaram demais em outras atividades e agora estão inventando desculpas para cortar verba para a cultura, saúde, educação. É preciso planejamento, o Brasil virou um grande cabide de emprego, um inchaço danado… e a gente trabalha só para sustentar um mundo de funcionários que produzem muito pouco para o brasileiro. Quem paga é a cultura, o povo brasileiro.

 Está havendo uma briga feia entre vários segmentos ligados à cultura com relação aos direitos autorais. Muda ou não muda a lei?
 Uma das poucas coisas que começaram a dar certo foi o direito autoral. Pode não ser perfeito, mas os artistas recebem. Acontece que agora os meios de comunicação estão nas mãos de grandes políticos. E quando começam a pagar um grande montante de direito autoral, eles ficam com o pé atrás. Mas essa discussão precisa continuar. Vale lembrar que o Ecad pertence aos músicos. Antes de qualquer mudança, é importante conversar com os artistas.

 Qual a primeira imagem que vem à sua cabeça, quando se fala de Brasília?
 É uma cidade muito linda. Quando vou tocar na cidade, gosto de dizer que canto para o Brasil todo num lugar só. Ela tem de se fazer respeitar como centro do poder. Quando a gente vê escândalos na capital do país, me constrange como brasileiro. É triste ver a cidade dominada por mafiazinhas tirando dinheiro de merenda escolar, de hospital.

Entrevista concedida por Almir Sater ao jornalista José Carlos Vieira, publicada na edição do jornal Correio Braziliense,na data de 20/03/2011