sábado, outubro 30, 2010

Entrevista Almir Sater | Mudas de Viola

Almir Sater mostra em show único como elevou o instrumento a um nível clássico sem jamais tirá-lo do meio do mato.  30 de outubro de 2010 0h 00 | Por Julia Maria - O Estado de S.Paulo.


O almoço com Almir Sater rende uma vida. O arroz e o feijão que reinam em sua cozinha de madeira, a alguns passos da casa, vêm de sua fazenda no Mato Grosso. O bife é da cria de uma de suas 1,5 mil matrizes de gado que vivem na mesma região. Seja o suco de tamarindo, milagrosamente sem acidez, ou o de uva, que desce como mel, tudo tem procedência de um canto familiar. Depois do prato principal, entre goles do café que sai de grãos colhidos ali mesmo no quintal da casa, na Serra da Cantareira, é preciso lembrar que estamos ali para falar de música. É difícil, mas é hora de trabalhar.

Almir Sater faz show hoje, às 22h, no Credicard Hall. É uma das raras vezes do ano em que se apresenta em uma grande casa. Seu repertório não tem segredos. "Faço o mesmo show há 30 anos", diz, sem escrúpulos de pisar no mesmo terreno em que plantou Tocando em Frente, Um Violeiro Toca, Chalana, Moreninha Linda. Ele olha para o grande verde de seu quintal, para o filho que anda de bicicleta, e agradece. "Foi a viola que me deu tudo isso aqui."

A viola e a TV
Sater reconhece que existe uma vida antes e outra depois de Pantanal, novela que Benedito Ruy Barbosa escreveu para a extinta TV Manchete em 1990. Sater interpretou Xeréu Trindade. "Até ali eu era um músico em busca de um espaço." Logo depois, veio A História de Ana Raio e Zé Trovão, que o SBT reprisa todos os dias, às 22h15. "Foi ali que passei a frequentar capas de revista, a ser reconhecido nas ruas. Foi uma mudança."

Sacrilégio seria lembrá-lo só por isso. Almir ergueu a viola a um status nobre, virtuoso, sem tirá-la do campo. Fez a moda de viola entrar nas altas rodas vestida com elegância e chapéu de palha. Ao falar de origens, cita Tião Carreiro incontáveis vezes. "Eu era uma espécie de tiete dele. Via ele tocar e perguntava "como você faz para entornar esse dedo e tirar esse som assim?" Depois de ver uma dupla caipira se apresentar no Largo do Machado, no Rio de Janeiro, decidiu ser violeiro. Antes disso, ouvia rock and roll na infância de Campo Grande. "Rock inglês, Pink Floyd, Rolling Stones", ele lembra. E isso ao mesmo tempo em que curtia - olha ele aqui de novo - Tião Carreiro e seu lendário parceiro Pardinho.

Questionado se não acha que suas músicas, no fundo, têm uma intenção roqueira, blueseira, Almir é rápido. "Mas eu sou é roqueiro." Um roqueiro transgressor, diga-se. As vocalizações das festas de Folia de Reis, para ele, impressionavam tanto quanto os arranjos vocais do grupo americano Crosby, Stills, Nash and Young. "Um ponteio da viola de Tião Carreiro era como um dedilhado de Stephen Stills, uma das vozes do quarteto."

A viola de Sater é filha única. Já foi vítima de um funcionário sem muita sorte que a fez cair e se espatifar no chão. Almir sentiu perder alguém da família. Como milagre, já que a parte afetada era o sensível braço, conseguiu refazê-la. "Fui comprá-la com o Tião Carreiro. Ela é de 1979. Agora vou cloná-la. Mandar fazer umas 20 iguais para não correr mais riscos."

ALMIR SATER
Credicard Hall. Hoje, às 22h. Av. das Nações Unidas, 17.955. Tel: 4003-6464. R$ 50 a R$ 130

Reprodução Matéria  http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20101030/not_imp631850,0.php
Fotos: Divugação/ Internet. 

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