terça-feira, 10 de março de 2009

Almir Sater um rastro de luz e paz em Brasília.


Folias de março no Planalto Central
O sol assanhado abriu os olhos espertos no horizonte, iluminou de súbito as árvores tortuosas do Cerrado e acordou a passarada que dormiu ao som da viola de um doce pantaneiro de Mato Grosso do Sul.Voz e olhos de expressão melancólica.

Almir Sater não quis brilhar sozinho. Botou os pensamentos debaixo de um chapéu, o coração e a viola dentro do peito, aconchegou os passos em botinas de goma, convidou outras violas, uma sanfona de pérola, um baixo e percussão e, somando-se a vozes especiais de outros homens e de uma mulher do pântano, foi parar na Granja do Torto do Planalto Central, na noite de 5 de março.

No entanto, o poeta, o compositor, o cantor, parceiro de Renato Teixeira, não escondia o seu próprio brilho: homem-menino, terno, simples, charmoso, carismático, violeiro incorporado, discípulo de São Francisco, poeta da natureza.
Abria-se o IX Encontro de Folia dos Reis do Distrito Federal.



O Brasil, durante quatro dias de 2009, despede-se das mágoas, dos sustos, do medo e vai se encontrar nos palcos da alegria, alguns simples, genuinamente artesanais, encantadores, enfeitados de papel crepom, em flores e fitas, e bandeiras dos reis santos e de presépios. De chão batido, de cimento, de madeira, exibem folguedos, divertimento, explosão de alegria, de fé e solidariedade, em torno da lapinha do Menino de Nazaré e da alegria e beleza da confraternização entre as pessoas. Dois outros palcos, modernos, com equipamento sofisticado de som e holofotes de luz, presépios em luminosos coloridos, brindam a comunidade com convidados oficiais, reis, escritores, pesquisadores, compositores, cantores, homens e mulheres que deixam marcas nas culturas populares brasileiras.

A presença musical de Almir Sater é inesquecível.

Mas é de um peso artístico -cultural sem tamanho o brado sertanejo da dupla Zé Mulato e Cassiano/DF, de Chico Lobo/MG, de Roberto Correia/DF e Siba/PE, de Pereira da Viola/MG. No palco, estão também as saudades dos educadores Alberto Péres, Joaquim C. Villar, Edmar Lima, dos folcloristas Bariani Ortencio, Souza Lima, Mário de Castro, Sebastião Viana Lobo, Joaquim Luiz Ferreira, José Denison, favorecendo o Centro de Cultura da Região Centro-Oeste – Ceculco – as presenças de Goiânia/GO, Planaltina/DF, Formosa/GO,Orizona/GO, Silvânia/GO nos auditórios e nas aulas de Sociologia de um Centro Universitário, 1970 a 1980.Marca o encerramento do encontro a explosão de alegria da grande dama da cena caipira brasileira,I nezita Barroso, acompanhada pelo grupo feminino de Folia de Reis de Vazante/MG; uma brinde à mulher por seu dia.

Na Granja do Torto, antiga casa de campo de presidentes da República,em quatro dias e noites,de sol e lua, os alojamentos de lona,alvenaria, pau-a-pique e capim são a casa de campo do Brasil. A batuta que rege o encontro de Minas, Bahia, Espírito Santo, Goiás, Rio de Janeiro, São Paulo e Distrito Federal, enfim de muitos Estados brasileiros e países diversos, é de um brasileiro especial, compositor e instrumentista, dinamizador cultural, cantor, parceiro de Aparício, Volmi Batista, protegido pela Senhora Aparecida, Mãe do Menino Jesus, também musa inspiradora dos Foliões.

Não esconde sua logomarca de criatura de Deus, e é sob o chamamento de Volmi e de sua equipe de anjos da terra e do céu que um mundo de gente, de todas as classes sociais, de todas as gerações, reza e se diverte com os foliões, preservando há várias estações do tempo, cantos, danças, ritmos e melodias, configurando-se nas diversas manifestações populares de cultura. É significativa a força da tradição, da religiosidade, da arte e cultura que se manifestam nos catiras, lundus, curraleiras e muitas outras criações de ternos de reis. Não importa se foliões se reúnem também em março, reverenciando reis que se santificaram, carregando o peso do poder e a leveza da humildade. Que se encontrem em outros espaços e, de modo mais expressivo, em Brasília, às vésperas de seu cinquentenário, capital do País, centro do poder e das decisões nacionais! Que se encontrem em todos os meses do ano!Que se encontrem em todos os anos dos tempos!
Reportagem Almir Sater em Brasília
*Sônia Ferreira é escritora, presidente do Centro de Cultura da Região Centro-Oeste – Ceculco – e membro da Associação Nacional de Escritores – ANE
email:(ceculcosoniaferreira@yahoo.com.br)

fotos cedidas por Luis Alberto e Erlon e Fabiana da comunidade de Almir Sater no Orkut.